sábado, 21 de setembro de 2019

Resposta ao Introvertendo sobre o ativismo autista contra o artigo das “trancinhas teleguiadas”

Print do compartilhamento do antigo texto "As trancinhas teleguiadas do 'produto' Greta Thunberg", exibindo uma imagem de uma manifestação com um boneco gigante, de rosto carrancudo, da ambientalista sueca, o título do texto e a palavra "Deletado" por cima da imagem

Aviso de conteúdo: Este artigo contém referência a discursos capacitistas e lembranças traumáticas. Leia somente se estiver seguro de que não sofrerá gatilhos psicológigos.

Na última sexta-feira, o podcast Introvertendo, episódio 68, terceiro bloco, debateu o hoje extinto artigo “As trancinhas teleguiadas do ‘produto’ Greta Thunberg” (saiba o que o texto discursava lendo minha matéria no Observatório da Imprensa). Seus integrantes comentaram também a atuação do movimento autista contra o texto e a resposta do Estadão à mesma.

Reconhecem que aquele conteúdo pegou muito pesado com a ambientalista Greta Thunberg e promoveu uma crítica de baixíssimo nível.

Porém, um deles afirmou, sem ser contestado, que a reação do movimento autista de demandar a remoção do texto teria sido desproporcional, e que o Estadão teria exagerado ao deletá-lo, acabar com o blog que o havia publicado e demitir sua autora.

Diante desse posicionamento - que eu posso considerar polêmico -, que se alicerçou em considerar apenas uma parcela daquele conteúdo, ao invés dele inteiro, eu trago esta resposta.


O artigo não merecia mesmo ser deletado?


O integrante mais crítico afirmou que As trancinhas teleguiadas... estava promovendo uma crítica política, mesmo grosseira e fraca, ao ecoativismo de Thunberg, logo, estaria no mesmo nível de qualquer outro artigo conservador em noticiários. Complementou que o tal conteúdo não necessariamente feria os Direitos Humanos, nem o Código de Conduta e Ética do Grupo Estado. 

Mas será que foi assim mesmo? Veremos.

Em primeiro lugar, o Introvertendo ignorou diversos detalhes cruciais e revoltantes do texto. 

Não comentou, por exemplo, que a autora chamou Thunberg de “garotinha de olhos duros” e descreveu que o rosto dela “não revela nenhuma empatia”, zombando assim de suas características físicas tipicamente autísticas.

Nem mencionou que o artigo não apenas atacava Greta, como também promovia toda uma apologia à discriminação contra crianças e adolescentes aspies, já que:
  • Chamava a Síndrome de Asperger de “perturbação neurológica” ou, em edições anteriores, “doença” ou “psicopatia”;
  • Alegava que aspies menores de idade são “sempre frágeis” e insinuava serem incapazes de pensar por conta própria;
  • Defendia que eles “não podem ser expostos, mesmo se assim quiserem” e que “não têm que querer”, subentendendo que deveriam ter suas liberdades individuais negadas;
  • Achava “imoral” e “irresponsável” pais falarem publicamente sobre a condição e necessidades dos seus filhos autistas e endossava médicos franceses que defendiam a criminalização dessa postura;
  • E na edição original, se referia ao indivíduo aspie com menos de 18 anos como “menor doente”.
Todos esses absurdos afrontaram leis brasileiras defensoras das pessoas com deficiência, autistas, crianças e adolescentes, tais como:
  • A Lei da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (nº 12.764/2012), artigos 3º e 4º;
  • A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), artigos 4º, 5º e 88;
  • O Estatudo da Criança e do Adolescente, artigos 3º, 5º, 15, 16 e 17.
E também violaram diversas diretrizes do Código de Conduta e Ética do Grupo Estado, como estas:
  • “O Grupo Estado, intimamente vinculado aos interesses dos leitores, ouvintes, internautas e o público de outras mídias, defende editorialmente os direitos e as liberdades individuais, o pluralismo democrático e a identidade sócio-cultural do Brasil e de São Paulo.”
  • “O Grupo Estado defenderá os cidadãos das agressões de qualquer forma de poder e estimulará a livre iniciativa em todos os âmbitos da atividade humana.”
  • “Os produtos do Grupo Estado estão abertos ao debate dos assuntos públicos e, independentemente de suas posições editoriais, defendem o pluralismo e a diversidade de opiniões. Recusam-se, no entanto, a veicular teses que neguem a liberdade, atentem contra a dignidade da pessoa humana ou agridam os princípios da ética informativa definidos neste documento.”
  • “Em nenhuma hipótese adote um comportamento que macule a reputação e imagem conquistada ao longo de anos pelas Empresas do Grupo.”


A reação da comunidade autista foi desproporcional mesmo?


Print do comentário de uma mulher autista chamada Jhennifer, que diz: "Eu tive uma crise por causa daquela mulher (a autora do artigo capacitista)! Fiquei pensando, vai ser sempre isso? As pessoas duvidando da minha capacidade intelectual, da minha capacidade de discernimento? Pqp". O comentário aparece curtido com a reação "Triste".


O artigo mencionado, ao invés de fazer uma simples crítica política capenga ao ativismo de Greta Thunberg, trazia um discurso de ódio que incentivava a discriminação contra autistas e carregava expressões e “opiniões” típicas de bullying capacitista. Portanto, causou um grave impacto psicológico em muitos de nós da comunidade autista.

Reviveu dores de momentos traumáticos do nosso passado, como quando:
  • “colegas” nos dirigiam insultos capacitistas e psicofóbicos ou mesmo nos agrediam fisicamente na escola;
  • pais de colegas nossos se negavam a nos convidar para festas porque nos consideravam “doidos” ou “problemáticos”;
  • algumas escolas criminosamente se recusavam a aceitar nossa matrícula por não correspondermos ao perfil de “normalidade” e “disciplina” que esperavam de seus alunos;
  • parentes nossos nos desrespeitavam e deixavam claro que não nos aceitavam do jeito que somos.
Inclusive uma moça (vide a imagem que ilustra este item) relatou no Facebook que, ao ler o abominável texto, passou mal.

Longe de ser uma mera opinião conservadora sobre o ambientalismo juvenil global, aquele texto punha em dúvida o reconhecimento das nossas capacidades e do nosso merecimento de direitos enquanto pessoas autistas.

Suas demandas por discriminação, no atual contexto político de hegemonia da direita radical, tinham o imenso potencial de inspirar um eventual projeto de lei que flexibilizasse as leis mencionadas mais acima e assim limitasse nossas liberdades, sob o pretexto de “proteger” as “tão frágeis” crianças “com autismo”.

Foi por isso que tomamos a mesma atitude que, por exemplo:
  • o movimento feminista quando se depara com algum artigo de opinião que incentiva o assédio sexual contra mulheres;
  • o movimento negro perante um conteúdo público que nega a capacidade de pessoas negras de se tornarem grandes políticos;
  • o movimento LGBT quando um ultraconservador discursa que pessoas não heterossexuais deveriam ser presas por “ameaçar a família brasileira”.


E quanto ao Estadão?


Sobre a providência do Estadão, quero responder que:
  • A empresa fez valer seu estatuto interno, aplicando a sanção prevista para casos de artigos preconceituosos que prejudicassem a reputação e a responsabilidade social da companhia e de seus veículos de comunicação;
  • O desligamento da autora do quadro de colaboradores não chegou a ser uma demanda direta nossa, ainda que tenha sido bem-vindo por nós;
  • O portal podia (e ainda pode) sim trazer uma nota pública oficial expressando que não endossa as opiniões do texto. Tanto foi que passei mais de uma semana insistindo à sua editoria que postasse uma retratação institucional que, além de pedir desculpas a todos nós, revelasse a real razão de suas medidas contra o artigo e sua autora;
  • Mas infelizmente o site não respondeu a esses pedidos. Quem tem a perder com essa atitude é o próprio Estadão, já que fica suscetível à eventual acusação de “censura” ao posicionamento político da ex-blogueira e não recuperou totalmente o respeito que muitos leitores autistas e familiares tinham por ele;
  • Se fosse previsto no estatuto interno, o portal poderia ter, por exemplo, exigido da autora uma retratação própria, a reescrita do artigo ofensor e a retirada do conteúdo preconceituoso; advertido-a para não postar mais textos apoiando qualquer forma de discriminação; convidado um autista militante para escrever um contraponto ou direito de resposta. Medidas como essa também teriam sido bem-vindas, uma vez que nossa demanda não era inflexível.


Seria melhor o artigo ter sido mantido no ar e apenas respondido com textos e vídeos contra-argumentativos?


A frase "Intolerância capacitista não se discute" aparece em cima de uma circunferência cortada. O logo da ONG anti-autismo Autism Speaks, caracterizado como um peça de quebra-cabeça azul junto ao nome da entidade também em azul, aparece envolto e cortado por uma circunferência trespassada por uma linha diagonal. Abaixo da circunferência está a frase "Se combate!"


Um outro argumento utilizado no podcast é que o movimento autista, ao invés de demandar do Estadão a derrubada do artigo capacitista, poderia simplesmente escrever artigos de resposta, tanto expressando indignação quanto refutando cada argumento presente nele.

Se realmente fosse um texto racional, que defendesse um ponto de vista com base em argumentos políticos e filosóficos, sem incitar comportamentos irracionais e intolerantes, isso teria sim sido feito, e não seria necessário exigir sua remoção do portal.

Mas infelizmente aquele conteúdo não tinha esse teor de debate. Muito pelo contrário, era um convite aos leitores para passarem a desprezar a luta e os posicionamentos de Greta Thunberg apenas por ela ser uma adolescente aspie, supostamente incapaz de pensar e agir por conta própria e “manipulada” por sua família e pela “extrema-esquerda” em função de ser uma “menor doente”.

Ou seja, incitava a intolerância capacitista. E, de fato, animou ainda mais as hordas de cyberbullies de extrema-direita que disparam insultos e mentiras contra os perfis da jovem ambientalista nas redes sociais - segundo os próprios participantes desse episódio do Introvertendo dizem reconhecer.

Em outras palavras, era um artigo irracionalista, focado não em argumentar e defender um posicionamento, mas sim em incitar o ódio aos coletivos e indivíduos que pensam diferente da autora dele. E posturas tão violentas e opressoras como essa não se discutem, se combatem, tal como pregam os movimentos antifascismo.

Porém, preciso deixar claro que, se o Estadão não tivesse atendido à nossa demanda de retirar As trancinhas teleguiadas… do ar, teria havido sim respostas em formato de textos e vídeos, incluindo minhas. Eu havia planejado escrever uma contra-argumentação que rebateria os discursos capacitistas e antiambientalistas do texto e os compararia aos discursos dos machistas contra as liberdades das mulheres, caso ele fosse mantido publicado.


Considerações finais


Respeito democraticamente a opinião dos integrantes do Introvertendo que não concordam integralmente com o ativismo que promovemos contra o artigo capacitista e a respectiva resposta do Estadão. Mas tenho que ressaltar que o posicionamento deles teria sido bem diferente se o texto inteiro fosse levado em consideração.

No mais, continuaremos lutando pelo fim do capacitismo e das apologias à discriminação contra nós autistas na imprensa brasileira. Sempre que aparecer um texto de opinião, ou uma matéria jornalística, que contenha linguajar preconceituoso e/ou chegue ao extremo de discursar contra nossa dignidade, nossas virtudes e nossos direitos, iremos protestar com veemência.

Demandaremos, do veículo de comunicação que o publicou, a sua reescrita, com a remoção de todo o conteúdo preconceituoso. Se o material em questão for explicitamente discriminatório e apologista do ódio, exigiremos sua completa remoção e, dependendo do caso, a responsabilização profissional e judicial do autor.

Seria muito bom se tudo fosse questão de divergência democrática e racional de ideias e, assim, pudesse ser resolvido com debates cordiais nos quais houvesse aprendizado mútuo. Mas infelizmente o artigo das “trancinhas teleguiadas” não correspondia a esse ideal, já que colocava em perigo nossos direitos como cidadãos autistas, incluindo nossas próprias liberdades de expressão e atuação política.

Por isso, tivemos que reivindicar sua deleção, já que, longe de debater com seriedade o ambientalismo ou a Síndrome de Asperger, ele expressava um desejo de que pessoas como Greta Thunberg e, por tabela, eu e os próprios membros do Introvertendo fossem proibidas de se integrar plenamente ao mundo e defender um futuro melhor tanto para o planeta e a humanidade quanto para nós mesmos.

Fecho este artigo reiterando: capacitistas, principalmente aqueles que desejam nosso mal e tentam bloquear nossa liberdade e felicidade, não passarão!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Além de autista, tenho TDAH. Saiba mais sobre essa condição tão frequente entre autistas


Depois de ser aconselhado por um colega de um grupo de aspies do Face, eu fiz pelo menos seis testes online* e, diante dos resultados de todos eles, cheguei a uma importante conclusão: eu tenho - ou no mínimo tenho probabilidades muito elevadas de ser diagnosticado com - o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) do tipo misto ou combinado.

Ou seja, tenho com intensidades semelhantes as dificuldades de atenção e concentração e a hiperatividade. No meu contexto, o TDAH é uma condição coexistente à Síndrome de Asperger - e a combinação Asperger+TDAH é frequente entre aspies.

O que é o TDAH?


O que é o TDAH, afinal de contas? É uma condição caracterizada sobretudo pela enorme dificuldade na concentração e na manutenção da atenção em muitas situações de âmbito pessoal/social e profissional/educacional. 

Essa dificuldade pode ser acompanhada ou não pela hiperatividade, ou seja, um estado neuropsicológico marcado por agitação, inquietude e humor instável quase constantes e dificuldade crônica de parar pra descansar propriamente e tirar um tempo - mesmo que umas poucas horas do dia - pra si mesmo.

E o mais importante: a pessoa não pode controlar os sintomas dessa condição apenas pela força de vontade. 

É estritamente necessário que ela obtenha a devida ajuda profissional especializada - o que infelizmente é raro de se obter no Brasil, já que são pouquíssimos os psicólogos, neuropsicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde que entendem plenamente de autismo “leve” combinado com TDAH em adultos, e geralmente esse número tão reduzido de terapeutas cobra caro por consultas particulares e não é conveniado com planos de saúde.

Sintomas do TDAH


Uma lista relativamente abrangente de sintomas do TDAH pode ser lida no site do Instituto Paulista de Déficit de Atenção. No meu caso, eu me identifiquei com os seguintes sintomas listados nessa página:
  • Desvia facilmente a atenção do que está fazendo e comete erros por prestar pouca atenção a detalhes (no meu caso, felizmente isso é muito minimizado pelas múltiplas revisões de texto e de diagramação que faço nos meus artigos e livros e também pelo meu hiperfoco e minha experiência já robusta e na escrita);
  • Muitas vezes distrai-se com seus próprios devaneios ou então um simples estímulo externo tira a pessoa do que está fazendo;
  • Dificuldade de concentração em palestras, aulas, leitura de livros... Dificilmente termina um livro, a não ser que o interesse muito;
  • Às vezes parece não ouvir quando o chamam. Muitas vezes é interpretado como egoísta ou desinteressado;
  • Durante uma conversa pode distrair-se e prestar atenção em outras coisas, principalmente quando está em grupos. Às vezes capta apenas partes do assunto ou enquanto "ouve" já está pensando em outra coisa e interrompe a fala do outro;
  • Dificuldade em iniciar e finalizar tarefas que exijam esforço mental e atenção focada por muito tempo;
  • Sente sonolência e sensação de estar "desligando", especialmente quando precisa se concentrar (isso acontece muito quando tento ler livros em bibliotecas e livrarias, precisando tomar muito café pra deter a sonolência);
  • Dificuldade em seguir instruções, mesmo quando se propõe. Inicia bem e logo em seguida muda, fazendo de outro jeito ou deixando de lado;
  • Pensa em fazer uma coisa e logo em seguida esquece o que iria fazer. Por exemplo, quando vai buscar algo, pelo meio do caminho esquece (ocasionalmente, no meu caso);
  • Problemas com planejamento do tempo. Perde a noção da passagem do tempo. Pode sentir que o dia tem 48 horas ou que passou muito mais rápido do que pensava;
  • Forte agitação e inquietação - em adultos, agitação mental é mais comum;
  • Inquietação – mexer as mãos e/ou pés quando sentado, musculatura tensa, com dificuldade em ficar parado num lugar por muito tempo. Costuma ser o "dono" do controle remoto;
  • Faz várias coisas ao mesmo tempo, está sempre a mil por hora, em busca de novidades, de estímulos fortes. Detesta o tédio. Parece que não se contenta com uma coisa apenas, especialmente coisas mais simples e menos estimulantes (no meu caso, isso é relativo, já que não curto praticar esportes nem lazeres que envolvam muita adrenalina);
  • Sem filtro ao se expressar. Fala sem pensar, causando situações constrangedoras e até mesmo ofensivas (tenho um amplo histórico de situações do tipo, e inclusive essa é uma das razões pelas quais eu tenho menos carisma e mais dificuldade de conquistar público, enquanto influenciador vegano, do que os que são mais bem-sucedidos e tratam de temas similares aos meus);
  • Impaciência: não suporta esperar ou aguardar por algo: filas, telefonemas, atendimento em lojas, restaurantes... quer tudo para "ontem" (no meu caso, na maioria das vezes recorro a assistir vídeos ou ouvir música no celular ou no tablet pra aguentar a espera);
  • A comunicação costuma ser compulsiva, sem filtro para inibir respostas inadequadas, o que pode provocar situações constrangedoras e/ou ofensivas: fala ou faz e depois pensa (tenho um amplo histórico de situações do tipo, que se somam ao sintoma “Sem filtro ao se expressar”);
  • Pode falar, comer, comprar etc. compulsivamente e/ou sobrecarregar-se no trabalho. Muitos acabam estressados, ansiosos e impacientes: são os workaholics (costumo comer muito no almoço e tenho imensa dificuldade de parar de pensar só no meu trabalho);
  • Tendência a sobrecarga, exaustão e compulsividade (em adultos), risco de abuso de álcool, drogas, jogos, Internet e redes sociais [o texto original, provavelmente antigo, menciona “salas de bate-papo”, algo típico dos anos 90 e da primeira metade da década de 2000] etc. (no meu caso, felizmente abomino drogas e jogos de azar, mas tenho dificuldades de moderar o uso das redes sociais e substituir o tempo que eu gasto nelas em ociosidade por hábitos mais saudáveis, como ler livros e caminhar. Além disso, preciso exercer um enorme esforço mental, quando estou num sebo com muitos livros baratos, pra não gastar centenas de reais de uma só vez ali, com livros cuja maioria eu vou demorar anos pra começar a ler ou sequer tenho certeza de que vou ler um dia);
  • Baixo nível de tolerância: não sabe lidar com frustrações, com erros (nem os seus, nem dos outros). Muitas vezes sente raiva e se recolhe;
  • Instabilidade de humor: ora está ótimo, ora está péssimo, sem que precise de motivo sério para isso (não costumo ter raiva de pessoas, mas situações envolvendo, por exemplo, erros de computador e frustração de expectativas me causam emoções negativas mais intensas do que eu gostaria de sentir. Tanto é que as baixas vendas do meu primeiro livro, em 2017, foram decisivas pra minha depressão ter começado em maio daquele ano).

Como a condição tem prejudicado minha vida social e profissional, em conjunção com a Síndrome de Asperger


É por causa desse conjunto de sintomas, em combinação com a Síndrome de Asperger, que, infelizmente, tenho enfrentado problemas que a maioria dos neurotípicos que seguem as mesmas vocações profissionais que eu não têm ou sofrem pouco. Por exemplo:
  • Não consegui assimilar um bom aprendizado nos cursos de graduação que eu fiz, a ponto de hoje não ter condições de me habilitar profissionalmente pros empregos aos quais eles formam seus alunos. As notas majoritariamente boas que tirei neles foram uma ilusão, mascararam as sérias dificuldades que tive de prestar atenção nas aulas, absorver e fixar o que era ensinado nas disciplinas e me sentir verdadeiramente estimulado e interessado em estudar sem a coerção das provas e seminários. Em todas as vezes em que estudei por obrigação pra avaliações, por mais admirável que fosse minha nota, todo o conhecimento obtido no estudo se perdia horas ou poucos dias depois. Precisarei de anos de estudos autodidáticos, além de um ambiente de estudos e leituras suficientemente confortável, pra enfim ter condições plenas de fazer o tão desejado mestrado sociológico e trabalhar profissionalmente com Sociologia e com Meio Ambiente;
  • Tenho dificuldades enormes envolvendo carisma. Tanto é que as páginas do Veganagente nas redes sociais, além do blog em si, conquistam seguidores muito mais lentamente do que a maioria das páginas e sites que trabalham com temas semelhantes. Isso também acaba sendo uma das causas pelas quais a maioria das pessoas não se sente estimulada a me apoiar via APOIA.se;
  • Minha “língua ferina” típica do Asperger+TDAH já queimou diversas pontes que poderiam render parcerias de trabalho;
  • Meus dois antigos vlogs (Consciencia.VLOG.br e Canal Veganagente) nunca tiveram sucesso real, devido às minhas dificuldades de comunicação não escrita - as quais, na época deles, eu achava que eram apenas questão de praticar oratória e não sabia que eram devidas à dupla deficiência Asperger+TDAH;
  • Minhas dificuldades de usar e entender comunicação não verbal (contato visual, postura, gesticulações com as mãos, expressão facial, modulação da voz, mensagens sutis escondidas nas entrelinhas de muitas falas etc.) e meu déficit de habilidades sociais limitam severamente que eu cative boa parte das pessoas, tanto nos coletivos sociopolíticos que tentei integrar quanto em palestras ministradas por mim. Nesse caso, o capacitismo velado dos neurotípicos também é decisivo pra aumentar essa frustração na comunicação social entre eu e eles;
  • Meu networking profissional e de causas sociais é muito menor do que o dos neurotípicos, e tenho dificuldades imensas de ampliá-lo;
  • Meu currículo é muito reduzido, e não consigo ter o interesse pleno de fazer cursos gratuitos que o reforcem. Já tentei forçar em mim esse interesse, mas deu muito errado;
  • entre diversas outras dificuldades que limitam seriamente o sucesso do meu trabalho.
Tão logo esteja com as energias mentais devidamente recarregadas e volte a escrever regularmente no Consciência Autista, usarei este espaço para falar como é ser autista aspie com TDAH.

Conclusão


Acredito que agora muitos de vocês que me seguem aqui sabem por que tenho tido tanta dificuldade de decolar profissionalmente, encontrar empregos compatíveis com meus pontos fortes e minhas dificuldades e conquistar o coração da maioria das pessoas às quais meus conteúdos se dirigem.

Com isso, agora posso dizer que tenho deficiência dupla, no âmbito do neurodesenvolvimento, das relações sociais e da compreensão de linguagem não verbal: autismo “leve” e TDAH.

E também digo que, de agora em diante, incluirei essa segunda condição na minha luta em defesa da neurodiversidade, do modelo social do autismo e do respeito e inclusão plenos aos autistas, às pessoas que têm TDAH e àquelas que possuem ambas as condições.

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*Os testes online não têm caráter diagnóstico, mas dão pistas muito importantes sobre se a pessoa tem ou não a condição testada. E ao meu ver, quando vários (pelo menos uns quatro) testes do tipo sobre a condição específica posta em avaliação têm resultados convergentes, a probabilidade de eu ter aquela condição - quando o seu conjunto de características/sintomas não corresponde a outras condições - tende a 100%, ou no mínimo mais de 90%.

Obs.: A tentativa de tirar férias e recarregar minhas energias para voltar a escrever regularmente ainda não acabou. Com isso, ainda estou sem condições de retomar a escrita regular e frequente.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

[atualizado 14/01/2019] Consciência Autista de recesso por tempo indeterminado


Atualizado em 14/01/2019

Pessoal, me dei férias dos blogs Consciência Autista e Veganagente por tempo indeterminado, por motivos de necessidade de descanso e recuperação da minha saúde mental.

Em meados deste mês de janeiro, tentei voltar a escrever, mas senti que minha energia criativa não voltou como eu esperava. Continuo abatido e sem disposição mental para escrever.

Por isso, eu estou dando recesso a mim mesmo, de modo que passarei um tempo indeterminado descansando - o máximo de trabalho que terei é o de divulgar postagens já existentes e imagens de memes dos dois blogs no Facebook e no Instagram.

Então nos vemos na volta ao trabalho. Agradeço a compreensão de quem espera por artigos novos. Até lá!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O SMS que mudou a minha vida


Em 7 de março de 2017, minha namorada Danielle me enviou um SMS que mudou a minha vida.

Nas suas leituras sobre a Síndrome de Asperger, com a qual ela se identificou, ela descobriu que eu também tinha indícios muito fortes de ser um autista aspie.

Aquela mensagem mudou para sempre o meu autoconhecimento, a forma como eu vejo a mim mesmo. E respondeu muitas questões do meu passado.

Saiba mais, neste artigo, sobre esse momento histórico da minha vida. Ou seja, sobre como um indivíduo saiu da total ignorância sobre sua condição para abraçar a causa autista neurodiversa por total identificação.

O que dizia o SMS


O SMS, muito fofo por sinal, dizia (adaptado):
“Então, amorzinho… eu tô lendo mais a fundo sobre Asperger e tal. Ainda não tenho certeza quanto a mim, mas eu tô quase convencida de que você tem [a Síndrome de Asperger], fofo.”
Ela me enviou enquanto voltava da universidade para casa, e mandou em formato de texto para não ser ouvida por outros passageiros, afinal era algo extremamente íntimo. Estávamos conversando por telefone (namoramos à distância), e ela escreveu enquanto demos uma pequena pausa na conversa.

Eu lembro que fiquei impressionado e com cara de “Eita! Será mesmo?”, mas não passou muito tempo até que eu aceitei a revelação.

Afinal, aquela era a resposta para muita coisa no meu passado e no meu presente.

Os dias seguintes à mensagem


Aspie Quiz, uma das ferramentas que me ajudaram a confirmar que sou autista aspie
Depois daquela histórica mensagem, comecei a pesquisar listas de características e testes informais de Síndrome de Asperger, como o Aspie Quiz.

E pouco a pouco fui descobrindo o autista que reside em mim, apesar de o primeiro teste do Aspie Quiz ter dado “provavelmente neurotípico” e isso ter me deixado com dúvida.

Esse primeiro teste eu considero hoje que foi respondido de maneira parcialmente errônea, por autoconhecimento insuficiente.

Esse conhecimento de mim mesmo cresceria enormemente nos meses seguintes.

Pesquisei bastante sobre a Síndrome de Asperger e o espectro autista como um todo, em fontes em português e inglês.

E, modéstia à parte, acredito que acumulei mais conhecimento sobre essa deficiência do que 90% dos psiquiatras e psicólogos brasileiros.

Até que o último Aspie Quiz de 2017 eu lembro que deu “provavelmente neurodiverso/Asperger” e eu percebi: realmente sou autista leve.

Ainda relutei em contar para a minha família e assumir publicamente meu autismo nos meses seguintes à mensagem de Danielle, até que, em dezembro, o autista que mora em mim - e que sou eu - se mostrou para o mundo e começou a defender a neurodiversidade.

Uma reflexão sobre como eu tenho sorte de ter uma namorada aspie que me fez descobrir também ser autista


Considero que tenho muita sorte em ter uma namorada que se descobriu aspie primeiro e, em seguida, me descobriu também autista leve.

Não bastasse toda a minha felicidade no amor tendo-a como namorada - já estamos há quase seis anos num namoro à distância extremamente estável, amoroso e carinhoso, sem nunca termos brigado -, ainda tive a fortuna de, graças a ela, descobrir algo que até então nenhum psicólogo e psiquiatra havia desvelado sobre mim mesmo.

Penso que tenho sorte porque, graças a Danielle, escapei da tristeza de viver eternamente no escuro, sem saber quem eu realmente sou e descobrir minha condição. Algo que atormentou pessoas de muitas gerações passadas e ainda fustiga milhares ou milhões de pessoas que são autistas mas não sabem.

Eu sinceramente gostaria que mais pessoas tivessem essa oportunidade de descobrir essa parte pouco compreendida de si mesmas. Que uma pessoa querida lhes pudesse falar, com o mesmo carinho com que Dani me falou, que elas são diferentes no bom sentido e possuem uma condição de neurodiversidade.

Mas sei que, infelizmente, para muitos essa pessoa nunca vai chegar. E é para que elas algum dia, de outra maneira igualmente positiva, saibam de seu autismo que o movimento defensor da neurodiversidade luta.

Conclusão


Este foi o relato de como um SMS da minha namorada foi um divisor de águas entre uma época de total desconhecimento sobre autismo e a era da consciência plena de quem eu realmente sou.

Se você não tem uma pessoa querida próxima de você para lhe revelar o que você não sabe sobre Síndrome de Asperger, convido você a estudar conteúdo em português e em inglês sobre o assunto.

Você poderá descobrir, por exemplo, que aquele seu amigo “esquisitão” é autista e não sabe. Ou mesmo que você próprio é neurodiverso.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Autismo não é doença. É diferença

"Autismo não é doença. É diferença", já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença
Hoje ainda é muito comum neurotípicos - e muitos autistas que desconhecem sua própria condição - verem o espectro autista como uma “doença”.

E baseados nessa visão, alguns neurocientistas tentam buscar uma forma de “curá-lo”. Afinal, se é uma doença, então pode e precisa ser curado.

É desafiando essa visão que eu deixo claro aqui, inclusive como autista: meu autismo não é uma doença! É uma condição que implica diferenças e necessidades especiais a serem respeitadas, aceitas e atendidas na sociedade.

Por que o autismo ainda é visto como uma “doença”


O autismo é uma condição neurológica que provê um cérebro diferente para o indivíduo, com propriedades - algumas delas positivas, outras negativas - que o distinguem do cérebro não autista.

Porém, esse cérebro diferente, justamente por causa do paradigma moral de se ver o diferente como “inferior” àquilo e àqueles que são considerados “normais” e se considerar pessoas com necessidades especiais “coitadas” e “incapazes”, não encontra uma boa receptividade na nossa sociedade.

Os comportamentos peculiares dos autistas ainda são muito malvistos. E os pontos negativos de ser autista são super-realçados em comparação com os positivos, uma vez que a sociedade está estruturada para não se adaptar a diferenças neurológicas como o autismo.

Nossa sociedade é feita para os neurotípicos. Autistas são tidos como forasteiros, obrigados a se adaptar - o que resulta, na maioria das vezes, em fracasso - ao que os neurotípicos acham que é “normal”.

Nesse contexto, o autismo ainda é visto como uma “doença”, algo que precisa ser “curado”. E os autistas, como pessoas “quebradas” que precisam ser “consertadas” e convertidas em neurotípicas.

Além disso, na tradição ocidental, cérebros sabidamente neurodiversos sempre foram vistos como “anormais” e “doentes”. Só agora é que isso está começando a mudar.

Por que o autismo não deve ser visto como uma doença, mas sim uma condição que implica diferença cerebral


O modelo social da deficiência deixa claro: o que é deficiente na deficiência não é a pessoa, nem sua condição, mas sim a sociedade como um todo, que lhe impõe barreiras e não está adaptada nem preparada para acolhê-la.

Diante disso, é a sociedade que precisa aceitar a diferença e se adaptar à diversidade, e não o sujeito diferente que precisa se forçar a tentar ser “normal” e se encaixar.

Nesse contexto, é preciso reconhecer: ser autista é apenas um jeito diferente de ser. Não implica problemas de saúde - apesar das eventuais condições coexistentes -, não é transmissível, não é algo que tem a natureza de ferir, causar sofrimento, incapacitar e matar.

Tratá-lo como uma doença implica necessariamente dizer que o nosso jeito de ser é uma aberração, um “erro” que precisa ser “consertado” e “curado”. Que nós somos “doentes” por sermos quem somos e termos nossas necessidades particulares e mesmo nossos pontos positivos que nos distinguem dos neurotípicos.

Conclusão


Portanto, o autismo deve ser encarado e tratado como aquilo que realmente é - não uma doença, mas sim uma diferença, como já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença.

A sociedade precisa se adaptar e nos acolher. Eventualmente precisamos de ajuda para conviver com os neurotípicos. E é para isso que lutamos no nosso dia-a-dia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O que o autismo tem a ver com minha falta de disposição para participar de movimentos sociais e manifestações


Por muitos anos, eu desejei participar de movimentos sociais, de coletivos que defendessem alguma causa.

Só que, de alguns anos para cá, esse interesse foi sumindo, até que hoje eu não tenho mais a mínima vontade de aderir a grupos do tipo. E por todo esse tempo me perguntei por que isso aconteceu.

Não é por medo do futuro governo de Bolsonaro. Mas sim, pelo que descobri do ano passado para cá, porque é assim que eu sou: um autista que não é muito chegado à socialização e não deseja mais tentar se entrosar com pessoas que podem, a qualquer momento, me julgar e me condenar em função de meus comportamentos.

Quero, neste artigo, relatar como eu cheguei à conclusão de que essa indisposição de aderir a coletivos é parte de mim, que só vai ser tratada daqui a bastante tempo - quando eu tiver meu dinheiro e condições de ter acompanhamento de um psicólogo que me reconheça como aspie.

Minha falta de disposição para participar de coletivos políticos e manifestações


Por vários anos eu tentei participar de grupos de ativismo e protestos. Lembro de ter participado de alguns grupos de defesa dos animais e do vegetarianismo, entre 2008 e 2012.

Só que nunca fui verdadeiramente aceito e acolhido. Meus comportamentos - cuja causa eu então desconhecia - atraíam a antipatia de boa parte dos membros desses grupos.

Eu fazia perguntas sem noção. Falava em público - em grupos do Google Grupos ou comunidades ou scraps do Orkut - coisas que os receptores de minhas mensagens respondiam, com agressividade extrema, que só deviam ser tratadas em privado, longe do olhar alheio. Tentava paquerar com alguma membro de maneira totalmente descoordenada - mas que, a saber, nunca chegou a ser tida como machista e assediadora -, uma vez que eu sofria de uma imensa carência amorosa.

Em dois desses grupos, de tanto perceber que não era bem quisto no meio, acabei saindo voluntariamente.

Em 2012, retornei as tentativas de participar de grupos sociopolíticos pró-vegetarianismo. Participei de algumas reuniões, mas sentia que alguns membros não me viam com olhos muito receptivos nessas ocasiões.

Também marcava piqueniques num parque aqui de Recife. Mas esses eventos só resultaram em mais desafetos, por causa dos meus comportamentos socialmente malquistos, como comer mais do que a quantidade socialmente aceita.

Já nas manifestações que aconteceram na época, eu ia com a intenção tanto de defender a pauta estabelecida como de tentar me socializar e integrar algum grupo - até por questão de segurança.

Mas, é claro, não consegui me aproximar de nenhum grupo na época. O único do qual eu participei com alguma regularidade - que se chamava Zona Recife e existiu em 2009 - se separou em poucos meses de atividade.

Ou seja, de tanto tentar me socializar nesses grupos e ser malsucedido, acabei desistindo, e não tenho mais nenhuma perspectiva de tentar novamente aderir a algum.

Por que não tento mais hoje, nem sabendo da minha condição autística


A este momento, alguém pode vir me perguntar por que eu não tento mais hoje, já que agora eu sei que sou autista e posso falar isso abertamente para justificar eventuais comportamentos indesejados.

A razão é que os movimentos sociais - todos eles, exceto talvez o próprio movimento de autistas - são capacitistas e não aceitam plenamente autistas entre seus membros.

Em nenhum lugar, seja ele coletivo social, partido ou organização vegana/vegetariana, vou encontrar braços abertos e a plena compreensão de minha condição e dos porquês de meus comportamentos.

Sei que, se eu cometer algum comportamento socialmente repudiado, serei malvisto como nas outras vezes. E não vou me sentir à vontade de permanecer no coletivo.

E pior, o tempo todo vou me sentir sendo vigiado e julgado.

Além disso, pelas minhas dificuldades de socialização, a tendência é de não conseguir fazer nenhuma amizade nesses meios.

É de não estabelecer nenhum laço necessário para me manter coeso a esses grupos. Pelo contrário, só desafetos e pessoas neutras perante a minha presença.

Afinal, hoje em dia o entendimento da maioria dos neurotípicos e daqueles que não sabem ser autistas sobre o espectro autista é muito precário e desinformado.

Muitos ainda acham que o autismo é uma doença, uma incapacitação - pior é que eu próprio tinha essa concepção preconceituosa até 2015 -, e que autistas são, estereotipicamente falando, aquelas crianças que passam na televisão, que não falam, não conseguem se comunicar e reagem com agressividade extrema à sobrecarga perante os estímulos do ambiente.

Quanto a manifestações, sei que em todas elas eu estarei sozinho, sem um amigo do lado para me proteger - a não ser que, com muita sorte, eu encontre um amigo da minha época de estudante -, e correrei riscos multiplicados de apanhar da polícia e mesmo de ser preso, sem que ninguém vá ao meu socorro.

Em outras palavras, não me sentiria nada seguro nessas ocasiões.

Conclusão


É por todos esses motivos que eu não me atrevo mais a tentar entrar num movimento social - exceto o próprio movimento autista, e olhe lá -, partido ou grupo ativista.

Prefiro atuar da maneira que eu sei atuar e é mais segura para mim - sendo blogueiro e divulgador de conteúdo em redes sociais.

Espero que quem me ler e me conhecer passe a compreender um pouco do que eu sofri ao longo desses anos em que tentei me socializar em movimentos sociais. E entenda se eu de repente disser que não entro mais em nenhum grupo do tipo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Por que até hoje ainda reluto um pouco em assumir de corpo e alma o atributo de autista


Eu sou autista e me assumo com orgulho. Mas mesmo assim ainda tenho um pouco de relutância em vestir essa camisa (que não tem a estampa peitoral que eu odeio) de corpo e alma.

Essa hesitação tem a ver com as violências verbais que sofri na década passada, já relatadas aqui no blog. E acredito que muitos outros autistas sentem o mesmo.

Portanto, quero relatar com mais detalhes essa dificuldade, de modo a ajudar você, caso também tenha essa hesitação, a se identificar com esse sofrimento passado e vencê-lo.

O que o meu passado tem a ver com a relutância em me assumir autista 100%


Como já contei em outro artigo, sofri um forte cyberbullying na década passada, entre 2003 e 2008, em função de ser tido como “esquisito” e “retardado” num fórum virtual.

“Autista” era o nome de que mais me chamavam. Como insulto mesmo, como adjetivo depreciativo, não como uma tentativa de me fazer descobrir que eu era/sou neurodiverso.

Por isso, passei anos do começo da minha vida adulta temendo ser chamado de autista. Até que, “fatalmente”, minha namorada me relatou que identificou em mim características importantes da Síndrome de Asperger.

Ou seja, aquele “nome” realmente me caracterizava. Não da forma como os bullies do passado queriam - como um “retardado”, “bizarro” e “idiota” -, mas sim clinicamente falando. Com características que o DSM-5 associa ao autismo.

Mesmo assim, durante vários meses, fiquei reticente em assumir para mim esse “rótulo”. Tanto foi que, no dia em que me assumi aspie para o mundo, em dezembro de 2017 - leia aqui o artigo que foi publicado na época -, foi como “autista leve”, meio que como uma maneira de minimizar meu atributo de autista.

É hora de eu vencer essa relutância - e você também, caso também seja autista


Escrevi este artigo já com a intenção de que ele quebre o que resta dessa resistência de assumir o rótulo de autista. Pois bem, é isso que eu sou - autista, autistaço, com A maiúsculo, ainda que com um autismo diferente, mais “leve”, do de um autista severo.

Penso, aliás, que você, se também for aspie, pode também ter passado por violência do tipo no passado, de ser chamado de “autista” num sentido não clínico, mas sim discriminatório e ofensivo.

Então, se for o caso, trabalhe com seu psicólogo - caso tenha o acompanhamento de um - como você pode assumir, de corpo e alma, o “rótulo” de autista para o mundo e para você mesmo.

Conclusão


Sim, eu sou autista, e tanto é que eu tenho este blog chamado Consciência Autista, que trata da consciência ético-moral de um autista adulto. E farei o possível para me libertar de qualquer ressalva que reste de me autointitular assim.

Espero que este relato também ajude você a se libertar das amarras do passado e assumir sua condição e identidade psicossocial sem mais percalços e poréns.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

12 características positivas de ser um aspie

Pois essa é a minha vida com autismo. Tanto o bom quanto o ruim. Eu posso encarar desafios extra por ser autista. Mas não teria outro jeiro. É simplesmente como eu sou. Aspie com orgulho!

Muito se fala das dificuldades e privações que há em ser autista aspie. Mas e as qualidades?

Ainda que muitos relutem em acreditar, existem grandes vantagens em ter a Síndrome de Asperger - e elas nos dão orgulho de sermos quem somos.

Conheça, neste artigo, doze características positivas de ser um aspie - a saber, elas são só uma amostra, não englobam a totalidade dos nossos pontos positivos.

Doze das características positivas de ter a Síndrome de Asperger

  1. Aspies costumam ser muito inteligentes, até superdotados. Acredita-se que a porcentagem de superdotados entre os aspies é muito maior do que entre os neurotípicos;
  2. Quando têm hiperfoco em algum tema, tornam-se grandes talentos e especialistas nele, podendo até revolucionar essa área do conhecimento. Albert Einstein que o diga;
  3. São pessoas muito leais, sinceras, honestas e éticas, e é muito difícil adquirirem o costume de mentir e agir com falsidade. Aspies são pessoas nas quais vale a pena confiar;
  4. Quando um aspie é seu amigo, ele tende a ser um dos melhores amigos da sua vida. Afinal, quando ele faz amizade com alguém, é porque gosta de verdade da pessoa;
  5. Aspies costumam ser pessoas cheias de empatia. Nas muitas vezes em que aparentam, aos olhos leigos, não serem empáticos, na verdade estão sentindo empatia de uma maneira diferente da dos neurotípicos. Não raras, aliás, são as vezes em que a empatia é tamanha que podem até passar mal diante de uma cena de sofrimento alheio;
  6. Quando possuem ou aprendem a ter boas habilidades românticas, aspies podem ser os(as) melhores namorados(as) da sua vida;
  7. Quando o casal é composto por aspies então, a tendência é serem um casal muito mais amoroso, estável e duradouro - isso quando não é simplesmente para toda a vida - do que a grande maioria dos casais cujos parceiros são neurotípicos;
  8. Quando um aspie defende uma causa política, pode se tornar um dos seus defensores mais revolucionários e apaixonados;
  9. Um aspie pode ser um excelente observador. Quando os neurotípicos pensam que ele não está nem aí para a realidade, que está imerso no “seu próprio mundo”, ele está na verdade analisando-a atentamente para refletir sobre ela, ou para denunciar a público os problemas vistos;
  10. Um aspie tem muito mais dificuldade de ter comportamentos de uma pessoa malvada. Quando comete uma violação, geralmente é porque não sabe que aquilo é prejudicial e/ou considerado antiético;
  11. Aspies costumam não fazer drama, nem arranjar brigas, nem aderir a relacionamentos que são verdadeiras montanhas russas. Adoram estabilidade, paz e tranquilidade em seus relacionamentos com amigos e namorados(as);
  12. Aspies costumam ter excelente memória de longo prazo, lembrando-se com detalhes precisos de momentos vividos na infância.

Conclusão


Com essa lista, você pode perceber alguns dos motivos pelos quais temos orgulho de sermos quem somos, de termos nossa condição autística e lutarmos por um lugar ao sol neste mundo tão capacitista.

Então, antes de nos considerar pessoas “doentes”, “coitadas” ou “dignas de pena” por sermos quem somos, conheça alguns autistas, converse com eles, e saberá que não somos nada disso.

Pelo contrário, temos pontos muito positivos que a maioria dos neurotípicos jamais sonharia em ter. Posso dizer, com toda segurança, que este mundo seria um lugar muito melhor se mais pessoas tivessem a Síndrome de Asperger.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Como o autismo dificulta minha inserção no mercado de trabalho



Meu caso infelizmente é de ser um desses milhões de autistas desempregados, que, por questões como hiperfoco desvalorizado pelo mercado e dificuldades de se adequar a trabalhos em empresas não inclusivas, não conseguem arranjar um emprego.

Poucos são aqueles que têm a sorte de ter um hiperfoco valorizado pelo mercado de trabalho, como os especializados em Ciência da Computação ou em Engenharia Civil, e serem contratados por empresas que adotam uma política de inclusão de talentos autistas.

Quero contar como não tive essa sorte e hoje estou lutando arduamente para conseguir um trabalho autônomo que rentabilize aquilo no que sou bom e com o que posso lidar plenamente.

Um pouco da minha atribulação universitária


Para começo de conversa, tive - e até o momento tenho - uma vida acadêmica um tanto instável, pela minha dificuldade de encontrar um hiperfoco profissionalizável.

Desisti de três cursos - Jornalismo, História e Bacharelado em Ciências Sociais -, tranquei duas vezes um curso antes de sair dele - Bacharelado em Ciências Sociais -, quase desisti dos dois nos quais me formei - Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Sociais - e fracassei em três seleções de mestrado, cada uma para um curso diferente.

Em Gestão Ambiental, eu me diplomei, mas acabei não me identificando com o curso. Diante desse fato, não fiz estágio, não me preparei para trabalhar como gestor ambiental.

Só me identifiquei ligeiramente com a Educação Ambiental, que correspondia a um dos módulos daquele curso. Mas não a ponto de se tornar um hiperfoco e um interesse profissional a ser almejado com afinco.

Cheguei a comprar dezenas de livros de meio ambiente, principalmente de Educação Ambiental, mas se li cinco deles ao longo dos últimos dez anos, li muito.

Só fui encontrar um hiperfoco profissionalmente aproveitável na licenciatura em Ciências Sociais. Só que é aí que começa uma história que mistura dificuldade de me adaptar às demandas externas - do mercado e do governo - com o azar de ter tido um hiperfoco do qual nem o mercado, nem os poderes políticos estabelecidos gostam.

Cheguei a entregar currículos em escolas em São Paulo - pretendo me mudar para lá quando for possível -, mas nenhuma aceitou.

Soube depois, num grupo do Facebook intitulado “Ciências Sociais e o mercado de trabalho”, que apenas escolas públicas contratam licenciados em CS/Sociologia - mediante concurso público ou seleção simplificada de temporários. Escolas privadas designam professores com outras formações, como História e Geografia, para ensinar Sociologia no ensino médio.

Também não encontrei nenhum curso à distância de CS para ser tutor de EAD, nem em universidades públicas.

A oportunidade restante que eu teria de ensinar seria em faculdades privadas, onde eu ensinaria Fundamentos de Sociologia em cursos diversos. Mas elas requerem que o postulante à vaga tenha pós-graduação - e como já falei, não consegui entrar no mestrado.

E para piorar, as perspectivas para licenciados em Ciências Sociais são sombrias para os próximos anos, com a futura posse de Bolsonaro na presidência.

A Sociologia correrá um enorme risco de desaparecer das grades curriculares do ensino médio, por causa da pressão dos defensores do famigerado Escola Sem Partido.

E nas poucas vagas que restarem, a tendência é os professores serem vigiados por seus próprios alunos, de modo que não poderão mais expressar livremente suas opiniões políticas, nem ensinar a teoria marxista, um dos pilares da Sociologia, nem falar de temas caros a essa disciplina, como questões de gênero e orientação sexual.

Com isso, eu posso dizer que meu diploma de licenciatura em Ciências Sociais, no contexto atual, não tem nenhum valor para o mercado.

Meus hiperfocos atuais - e minha enorme dificuldade de mudar de foco


Com isso, restaram, profissionalmente falando, aqueles dois hiperfocos pelos quais eu tento construir meu sustento hoje: veganismo e ativismo neurodiverso.

Atualmente eu tento ganhar dinheiro comercializando meus dois livros (Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética e Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança), que não têm editora, em livrarias como o Clube de Autores, a Amazon e a Saraiva, e vendendo e-books, cursos e livros afiliados.

Só que, até o momento, o rendimento tem sido muito baixo - na média de poucas dezenas de reais por mês -, insuficiente para, por exemplo, pagar um curso bom de marketing digital e contratar serviços de design, ambos os quais impulsionariam minhas vendas.

Nem sequer consigo poupar e juntar essa mixaria, porque sempre aparece algum motivo para gastar, como a compra de meus remédios para a depressão e a Sìndrome de Tourette e a recarga de meu bilhete de ônibus e dos créditos do meu celular.

Diante disso, penso frequentemente que deveria tentar mudar meu hiperfoco para algo realmente aceito pelo mercado de trabalho - como, por exemplo, gestão de redes sociais de empresas ou trabalhos de design.

Só que essa tentativa de mudá-lo forçadamente tem rendido muito sofrimento. Desde o ano passado, tenho sofrido com uma depressão, atualmente controlada por medicamento antidepressivo e meditações diárias.

Afinal, não consigo aprender a gostar de nenhuma área profissional minimamente rentável, tenho que lidar com os ganhos ridiculamente baixos com meus livros e produtos afiliados e tenho visto meus sonhos serem sempre empurrados com a barriga por causa da falta de dinheiro e da quase inflexibilidade do meu hiperfoco.

Tenho procurado listas de nichos de mercado rentáveis, mas não consigo me inspirar em nenhum deles para trabalhar com marketing digital. Nenhum no qual pudesse investir tempo e conhecimento para, por exemplo, promover marketing de conteúdo.

E procurar um emprego lá fora?


A esta altura, alguém poderia me perguntar por que eu não procuro um emprego como vendedor, atendente de telemarketing ou promotor de eventos, para juntar dinheiro e fazer os investimentos que quero em marketing e design.

Eu até tive esse interesse no passado, mas minha vida trabalhando subordinado a empresas foi tudo menos bem-sucedida.

Para você ter uma ideia, a soma de todos os meus trabalhos remunerados sob uma empresa - sem contar a bolsa de iniciação à docência da UFPE - é de apenas oito meses em toda a minha vida.

Trabalhei como agente de pesquisa e mapeamento no IBGE e como redator numa agência de notícias. E nos dois casos eu acumulei traumas.

A incapacidade de perceber regras organizacionais não ditas, a dificuldade de manter o equilíbrio psicológico mediante pressão do chefe, o déficit de socialização com colegas de trabalho, o comportamento social considerado imaturo e inadequado pela empresa… Muitos fatores comumente sofridos por autistas leves me fizeram fracassar feio nas duas oportunidades. E o pior, sem sequer ter consciência do porquê de tudo aquilo acontecer.

Eu até poderia procurar um emprego temporário de vendedor, neste final de ano. Mas já concluí, ao passar por lojas do comércio recifense, que sofro sobrecarga sensorial em ambientes barulhentos e quentes, não consigo estabelecer uma boa relação com colegas de trabalho, teria sérias dificuldades de lidar com clientes como vendedor de loja, e meu déficit de linguagem não verbal me impede de me dar bem em entrevistas de trabalho.

Até poderia conseguir um trabalho adaptado para pessoas com deficiência. Mas precisaria de diagnóstico e laudo, algo que eu já falei aqui no blog que é um privilégio para poucos autistas adultos.

Conclusão


Essa é a minha atribulada história de tentativa de ganhar meu próprio dinheiro e me encaixar no mercado de trabalho. Uma história na qual, até o momento, não obtive sucesso.

Posso dizer que a maioria dos autistas adultos no Brasil passa por algo semelhante ao que eu tenho passado: muita dificuldade de se encaixar num curso universitário e num emprego, dificuldades de encontrar um trabalho apropriado sem um laudo de pessoa com deficiência, hiperfoco de difícil flexibilização que mais atrapalha do que ajuda a se inserir no mercado...

Minha luta para ter o meu próprio dinheiro continua, a muito custo e persistência. E infelizmente minha condição e as barreiras que a sociedade impõe a pessoas como eu têm me impedido de conseguir sucesso até o momento.

Espero, com este artigo, trazer para muitas pessoas a consciência que lhes falta sobre o quanto tem sido difícil para nós se encaixar nesse excludente mercado de trabalho.


Se você estiver sensibilizado a ponto de querer ajudar, apoie meu trabalho por meio do APOIA.se, e ganhará a versão digital de um ou dois dos meus livros como recompensa, a depender do valor mensal de seu apoio.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Um triste fato: autistas adultos não têm direito ao diagnóstico tardio no Brasil

O autista padrãozinho - criança cis masculina, branca, de classe média alta -, o único que atualmente tem amplo acesso ao diagnóstico de sua condição no Brasil
Algo que eu constatei, desde que me descobri e me assumi autista, é que, apesar de todos os avanços nos direitos dos autistas laudados nos últimos anos, infelizmente os adultos que se descobriram tardia e autonomamente com essa condição ainda não têm o direito ao diagnóstico formal - nem no SUS, nem em planos de saúde.

Hoje é absurdamente difícil um adulto que não seja rico conseguir um diagnóstico de autismo. E até o momento nenhum esforço vem sendo empreendido pelo poder público para sanar esse problema.

Por meio deste artigo, quero chamar você a ter consciência disso e nos ajudar a conquistar esse direito.

Um direito que ainda não existe


Hoje tem se tornado cada vez mais comum crianças terem acesso a um diagnóstico, por meio de mutirões como esse que aconteceu no Recife em 2018.

Isso é admirável, exceto pelo fato de que esforços como esse se limitam a crianças. Adolescentes e adultos continuam excluídos desse acesso.

Hoje em dia, o autista adulto precisa:
  • De dinheiro, pelo menos R$1.500, para pagar o número mínimo de consultas com um neuropsicólogo particular, para que ele faça um relatório a ser encaminhado a um psiquiatra para que este formalize o diagnóstico e o laudo de Condição do Espectro Autista;
  • De dinheiro também para pagar um plano de saúde - que tem sido cada vez mais difícil de se pagar - ou um psiquiatra particular que entenda de Síndrome de Asperger/autismo leve em adultos;
  • De sorte, para conseguir encontrar um neuropsicólogo especializado em autismo, que atenda autistas de todos os níveis e faixas etárias, alguém raro na maioria das cidades brasileiras;
  • De sorte também para encontrar um psiquiatra que aceite diagnosticar e laudar o autismo leve adulto, ao invés de discursar, com ignorância e preconceito, que o paciente “não é um autista de verdade” ou “não precisa” de um diagnóstico;
  • De um emprego ou trabalho autônomo para ter condições de pagar as consultas - sabendo-se que é imensamente mais difícil para um autista, mesmo aspie, se dar bem no mercado de trabalho do que para um neurotípico;
  • Alternativamente, de uma família de classe média-alta para ter condições de pagar essas consultas sem grandes percalços - haverá dificuldades imensas de se pagar se for de classe média-baixa;
  • De paciência e persistência para lidar com todas as desilusões advindas da procura de um neuropsicólogo e um psiquiatra devidamente capacitados.
Isso tudo porque nem mesmo na Lei Berenice Piana consta o direito ao diagnóstico adulto, apenas o precoce - ou seja, só de crianças na primeira infância.

Para piorar, a eleição de Jair Bolsonaro à presidência traz a perspectiva sombria de que não haverá nenhum avanço nessa questão nos próximos anos.

Como eu constatei que, como adulto, não tenho direito ao diagnóstico de autismo


Eu constatei esse triste fato desde o ano passado. Nem no SUS, nem no meu plano de saúde, encontrei profissionais que se dispusessem a confirmar clinicamente e diagnosticar minha Síndrome de Asperger.

Primeiro, li os relatos nos grupos de autistas no Facebook de pessoas que procuraram por neuropsicólogos e psiquiatras que atendessem autistas adultos no SUS e não acharam.

Alguns, aliás, contam que sofreram terríveis abusos ao buscarem atendimento no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de algumas cidades.

Segundo, eu mesmo procurei por profissionais capacitados no meu plano de saúde. Para o meu azar, não encontrei nenhum.

Pelo contrário, só achei psiquiatras capacitistas contra autistas leves adultos. Um me disse, na cara dura, que eu “não sou autista” porque “autistas não são capazes de falar e se expressar”.

E outro, após ler um enorme relatório que fiz sobre características autísticas manifestadas ao longo da minha vida, me falou, sem nenhum escrúpulo, que eu “não preciso” de um diagnóstico porque “levo uma vida normal” - ignorando todas as páginas inteiras de dificuldades e privações sociais que constavam nesse relatório.

Depois de mais de um ano e meio de procura, só achei profissionais com essa capacitação fora do meu plano de saúde, e contáveis nos dedos de uma mão no Recife.

E na minha situação de desempregado, com currículo fraco, totalmente dependente financeiramente dos meus pais, ganhando pouquíssimo com meus livros e produtos afiliados, só os deuses sabem quando conseguirei ter dinheiro para pagar um neuropsicólogo.

Tudo isso porque não tenho direito, como autista adulto, ao diagnóstico, e tudo indica que continuarei não tendo nos próximos anos.

Conclusão


Infelizmente a realidade é essa: o diagnóstico tardio de autismo é um privilégio para poucos no Brasil.

Não o temos assegurado como direito, numa realidade em que ainda se estereotipa o autista como aquele menino branco, do gênero masculino, de classe média-alta, com oito anos ou menos de idade.

Eu diria para lutarmos, por meio do movimento defensor da neurodiversidade, por esse direito. Mas isso ficará bem mais difícil com o governo autoritário que se avizinha, cujos representantes já deixaram claro que desprezam os direitos da maioria dos brasileiros.

Então, pelo visto, só me resta fazer, por meio deste blog, mais pessoas tomarem consciência disso e, quando for propício, defenderem que os aspies adultos passem a ser incluídos no direito ao diagnóstico na Lei Berenice Piana.