quinta-feira, 22 de novembro de 2018

[atualizado 14/01/2019] Consciência Autista de recesso por tempo indeterminado


Atualizado em 14/01/2019

Pessoal, me dei férias dos blogs Consciência Autista e Veganagente por tempo indeterminado, por motivos de necessidade de descanso e recuperação da minha saúde mental.

Em meados deste mês de janeiro, tentei voltar a escrever, mas senti que minha energia criativa não voltou como eu esperava. Continuo abatido e sem disposição mental para escrever.

Por isso, eu estou dando recesso a mim mesmo, de modo que passarei um tempo indeterminado descansando - o máximo de trabalho que terei é o de divulgar postagens já existentes e imagens de memes dos dois blogs no Facebook e no Instagram.

Então nos vemos na volta ao trabalho. Agradeço a compreensão de quem espera por artigos novos. Até lá!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O SMS que mudou a minha vida


Em 7 de março de 2017, minha namorada Danielle me enviou um SMS que mudou a minha vida.

Nas suas leituras sobre a Síndrome de Asperger, com a qual ela se identificou, ela descobriu que eu também tinha indícios muito fortes de ser um autista aspie.

Aquela mensagem mudou para sempre o meu autoconhecimento, a forma como eu vejo a mim mesmo. E respondeu muitas questões do meu passado.

Saiba mais, neste artigo, sobre esse momento histórico da minha vida. Ou seja, sobre como um indivíduo saiu da total ignorância sobre sua condição para abraçar a causa autista neurodiversa por total identificação.

O que dizia o SMS


O SMS, muito fofo por sinal, dizia (adaptado):
“Então, amorzinho… eu tô lendo mais a fundo sobre Asperger e tal. Ainda não tenho certeza quanto a mim, mas eu tô quase convencida de que você tem [a Síndrome de Asperger], fofo.”
Ela me enviou enquanto voltava da universidade para casa, e mandou em formato de texto para não ser ouvida por outros passageiros, afinal era algo extremamente íntimo. Estávamos conversando por telefone (namoramos à distância), e ela escreveu enquanto demos uma pequena pausa na conversa.

Eu lembro que fiquei impressionado e com cara de “Eita! Será mesmo?”, mas não passou muito tempo até que eu aceitei a revelação.

Afinal, aquela era a resposta para muita coisa no meu passado e no meu presente.

Os dias seguintes à mensagem


Aspie Quiz, uma das ferramentas que me ajudaram a confirmar que sou autista aspie
Depois daquela histórica mensagem, comecei a pesquisar listas de características e testes informais de Síndrome de Asperger, como o Aspie Quiz.

E pouco a pouco fui descobrindo o autista que reside em mim, apesar de o primeiro teste do Aspie Quiz ter dado “provavelmente neurotípico” e isso ter me deixado com dúvida.

Esse primeiro teste eu considero hoje que foi respondido de maneira parcialmente errônea, por autoconhecimento insuficiente.

Esse conhecimento de mim mesmo cresceria enormemente nos meses seguintes.

Pesquisei bastante sobre a Síndrome de Asperger e o espectro autista como um todo, em fontes em português e inglês.

E, modéstia à parte, acredito que acumulei mais conhecimento sobre essa deficiência do que 90% dos psiquiatras e psicólogos brasileiros.

Até que o último Aspie Quiz de 2017 eu lembro que deu “provavelmente neurodiverso/Asperger” e eu percebi: realmente sou autista leve.

Ainda relutei em contar para a minha família e assumir publicamente meu autismo nos meses seguintes à mensagem de Danielle, até que, em dezembro, o autista que mora em mim - e que sou eu - se mostrou para o mundo e começou a defender a neurodiversidade.

Uma reflexão sobre como eu tenho sorte de ter uma namorada aspie que me fez descobrir também ser autista


Considero que tenho muita sorte em ter uma namorada que se descobriu aspie primeiro e, em seguida, me descobriu também autista leve.

Não bastasse toda a minha felicidade no amor tendo-a como namorada - já estamos há quase seis anos num namoro à distância extremamente estável, amoroso e carinhoso, sem nunca termos brigado -, ainda tive a fortuna de, graças a ela, descobrir algo que até então nenhum psicólogo e psiquiatra havia desvelado sobre mim mesmo.

Penso que tenho sorte porque, graças a Danielle, escapei da tristeza de viver eternamente no escuro, sem saber quem eu realmente sou e descobrir minha condição. Algo que atormentou pessoas de muitas gerações passadas e ainda fustiga milhares ou milhões de pessoas que são autistas mas não sabem.

Eu sinceramente gostaria que mais pessoas tivessem essa oportunidade de descobrir essa parte pouco compreendida de si mesmas. Que uma pessoa querida lhes pudesse falar, com o mesmo carinho com que Dani me falou, que elas são diferentes no bom sentido e possuem uma condição de neurodiversidade.

Mas sei que, infelizmente, para muitos essa pessoa nunca vai chegar. E é para que elas algum dia, de outra maneira igualmente positiva, saibam de seu autismo que o movimento defensor da neurodiversidade luta.

Conclusão


Este foi o relato de como um SMS da minha namorada foi um divisor de águas entre uma época de total desconhecimento sobre autismo e a era da consciência plena de quem eu realmente sou.

Se você não tem uma pessoa querida próxima de você para lhe revelar o que você não sabe sobre Síndrome de Asperger, convido você a estudar conteúdo em português e em inglês sobre o assunto.

Você poderá descobrir, por exemplo, que aquele seu amigo “esquisitão” é autista e não sabe. Ou mesmo que você próprio é neurodiverso.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Autismo não é doença. É diferença

"Autismo não é doença. É diferença", já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença
Hoje ainda é muito comum neurotípicos - e muitos autistas que desconhecem sua própria condição - verem o espectro autista como uma “doença”.

E baseados nessa visão, alguns neurocientistas tentam buscar uma forma de “curá-lo”. Afinal, se é uma doença, então pode e precisa ser curado.

É desafiando essa visão que eu deixo claro aqui, inclusive como autista: meu autismo não é uma doença! É uma condição que implica diferenças e necessidades especiais a serem respeitadas, aceitas e atendidas na sociedade.

Por que o autismo ainda é visto como uma “doença”


O autismo é uma condição neurológica que provê um cérebro diferente para o indivíduo, com propriedades - algumas delas positivas, outras negativas - que o distinguem do cérebro não autista.

Porém, esse cérebro diferente, justamente por causa do paradigma moral de se ver o diferente como “inferior” àquilo e àqueles que são considerados “normais” e se considerar pessoas com necessidades especiais “coitadas” e “incapazes”, não encontra uma boa receptividade na nossa sociedade.

Os comportamentos peculiares dos autistas ainda são muito malvistos. E os pontos negativos de ser autista são super-realçados em comparação com os positivos, uma vez que a sociedade está estruturada para não se adaptar a diferenças neurológicas como o autismo.

Nossa sociedade é feita para os neurotípicos. Autistas são tidos como forasteiros, obrigados a se adaptar - o que resulta, na maioria das vezes, em fracasso - ao que os neurotípicos acham que é “normal”.

Nesse contexto, o autismo ainda é visto como uma “doença”, algo que precisa ser “curado”. E os autistas, como pessoas “quebradas” que precisam ser “consertadas” e convertidas em neurotípicas.

Além disso, na tradição ocidental, cérebros sabidamente neurodiversos sempre foram vistos como “anormais” e “doentes”. Só agora é que isso está começando a mudar.

Por que o autismo não deve ser visto como uma doença, mas sim uma condição que implica diferença cerebral


O modelo social da deficiência deixa claro: o que é deficiente na deficiência não é a pessoa, nem sua condição, mas sim a sociedade como um todo, que lhe impõe barreiras e não está adaptada nem preparada para acolhê-la.

Diante disso, é a sociedade que precisa aceitar a diferença e se adaptar à diversidade, e não o sujeito diferente que precisa se forçar a tentar ser “normal” e se encaixar.

Nesse contexto, é preciso reconhecer: ser autista é apenas um jeito diferente de ser. Não implica problemas de saúde - apesar das eventuais condições coexistentes -, não é transmissível, não é algo que tem a natureza de ferir, causar sofrimento, incapacitar e matar.

Tratá-lo como uma doença implica necessariamente dizer que o nosso jeito de ser é uma aberração, um “erro” que precisa ser “consertado” e “curado”. Que nós somos “doentes” por sermos quem somos e termos nossas necessidades particulares e mesmo nossos pontos positivos que nos distinguem dos neurotípicos.

Conclusão


Portanto, o autismo deve ser encarado e tratado como aquilo que realmente é - não uma doença, mas sim uma diferença, como já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença.

A sociedade precisa se adaptar e nos acolher. Eventualmente precisamos de ajuda para conviver com os neurotípicos. E é para isso que lutamos no nosso dia-a-dia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O que o autismo tem a ver com minha falta de disposição para participar de movimentos sociais e manifestações


Por muitos anos, eu desejei participar de movimentos sociais, de coletivos que defendessem alguma causa.

Só que, de alguns anos para cá, esse interesse foi sumindo, até que hoje eu não tenho mais a mínima vontade de aderir a grupos do tipo. E por todo esse tempo me perguntei por que isso aconteceu.

Não é por medo do futuro governo de Bolsonaro. Mas sim, pelo que descobri do ano passado para cá, porque é assim que eu sou: um autista que não é muito chegado à socialização e não deseja mais tentar se entrosar com pessoas que podem, a qualquer momento, me julgar e me condenar em função de meus comportamentos.

Quero, neste artigo, relatar como eu cheguei à conclusão de que essa indisposição de aderir a coletivos é parte de mim, que só vai ser tratada daqui a bastante tempo - quando eu tiver meu dinheiro e condições de ter acompanhamento de um psicólogo que me reconheça como aspie.

Minha falta de disposição para participar de coletivos políticos e manifestações


Por vários anos eu tentei participar de grupos de ativismo e protestos. Lembro de ter participado de alguns grupos de defesa dos animais e do vegetarianismo, entre 2008 e 2012.

Só que nunca fui verdadeiramente aceito e acolhido. Meus comportamentos - cuja causa eu então desconhecia - atraíam a antipatia de boa parte dos membros desses grupos.

Eu fazia perguntas sem noção. Falava em público - em grupos do Google Grupos ou comunidades ou scraps do Orkut - coisas que os receptores de minhas mensagens respondiam, com agressividade extrema, que só deviam ser tratadas em privado, longe do olhar alheio. Tentava paquerar com alguma membro de maneira totalmente descoordenada - mas que, a saber, nunca chegou a ser tida como machista e assediadora -, uma vez que eu sofria de uma imensa carência amorosa.

Em dois desses grupos, de tanto perceber que não era bem quisto no meio, acabei saindo voluntariamente.

Em 2012, retornei as tentativas de participar de grupos sociopolíticos pró-vegetarianismo. Participei de algumas reuniões, mas sentia que alguns membros não me viam com olhos muito receptivos nessas ocasiões.

Também marcava piqueniques num parque aqui de Recife. Mas esses eventos só resultaram em mais desafetos, por causa dos meus comportamentos socialmente malquistos, como comer mais do que a quantidade socialmente aceita.

Já nas manifestações que aconteceram na época, eu ia com a intenção tanto de defender a pauta estabelecida como de tentar me socializar e integrar algum grupo - até por questão de segurança.

Mas, é claro, não consegui me aproximar de nenhum grupo na época. O único do qual eu participei com alguma regularidade - que se chamava Zona Recife e existiu em 2009 - se separou em poucos meses de atividade.

Ou seja, de tanto tentar me socializar nesses grupos e ser malsucedido, acabei desistindo, e não tenho mais nenhuma perspectiva de tentar novamente aderir a algum.

Por que não tento mais hoje, nem sabendo da minha condição autística


A este momento, alguém pode vir me perguntar por que eu não tento mais hoje, já que agora eu sei que sou autista e posso falar isso abertamente para justificar eventuais comportamentos indesejados.

A razão é que os movimentos sociais - todos eles, exceto talvez o próprio movimento de autistas - são capacitistas e não aceitam plenamente autistas entre seus membros.

Em nenhum lugar, seja ele coletivo social, partido ou organização vegana/vegetariana, vou encontrar braços abertos e a plena compreensão de minha condição e dos porquês de meus comportamentos.

Sei que, se eu cometer algum comportamento socialmente repudiado, serei malvisto como nas outras vezes. E não vou me sentir à vontade de permanecer no coletivo.

E pior, o tempo todo vou me sentir sendo vigiado e julgado.

Além disso, pelas minhas dificuldades de socialização, a tendência é de não conseguir fazer nenhuma amizade nesses meios.

É de não estabelecer nenhum laço necessário para me manter coeso a esses grupos. Pelo contrário, só desafetos e pessoas neutras perante a minha presença.

Afinal, hoje em dia o entendimento da maioria dos neurotípicos e daqueles que não sabem ser autistas sobre o espectro autista é muito precário e desinformado.

Muitos ainda acham que o autismo é uma doença, uma incapacitação - pior é que eu próprio tinha essa concepção preconceituosa até 2015 -, e que autistas são, estereotipicamente falando, aquelas crianças que passam na televisão, que não falam, não conseguem se comunicar e reagem com agressividade extrema à sobrecarga perante os estímulos do ambiente.

Quanto a manifestações, sei que em todas elas eu estarei sozinho, sem um amigo do lado para me proteger - a não ser que, com muita sorte, eu encontre um amigo da minha época de estudante -, e correrei riscos multiplicados de apanhar da polícia e mesmo de ser preso, sem que ninguém vá ao meu socorro.

Em outras palavras, não me sentiria nada seguro nessas ocasiões.

Conclusão


É por todos esses motivos que eu não me atrevo mais a tentar entrar num movimento social - exceto o próprio movimento autista, e olhe lá -, partido ou grupo ativista.

Prefiro atuar da maneira que eu sei atuar e é mais segura para mim - sendo blogueiro e divulgador de conteúdo em redes sociais.

Espero que quem me ler e me conhecer passe a compreender um pouco do que eu sofri ao longo desses anos em que tentei me socializar em movimentos sociais. E entenda se eu de repente disser que não entro mais em nenhum grupo do tipo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Por que até hoje ainda reluto um pouco em assumir de corpo e alma o atributo de autista


Eu sou autista e me assumo com orgulho. Mas mesmo assim ainda tenho um pouco de relutância em vestir essa camisa (que não tem a estampa peitoral que eu odeio) de corpo e alma.

Essa hesitação tem a ver com as violências verbais que sofri na década passada, já relatadas aqui no blog. E acredito que muitos outros autistas sentem o mesmo.

Portanto, quero relatar com mais detalhes essa dificuldade, de modo a ajudar você, caso também tenha essa hesitação, a se identificar com esse sofrimento passado e vencê-lo.

O que o meu passado tem a ver com a relutância em me assumir autista 100%


Como já contei em outro artigo, sofri um forte cyberbullying na década passada, entre 2003 e 2008, em função de ser tido como “esquisito” e “retardado” num fórum virtual.

“Autista” era o nome de que mais me chamavam. Como insulto mesmo, como adjetivo depreciativo, não como uma tentativa de me fazer descobrir que eu era/sou neurodiverso.

Por isso, passei anos do começo da minha vida adulta temendo ser chamado de autista. Até que, “fatalmente”, minha namorada me relatou que identificou em mim características importantes da Síndrome de Asperger.

Ou seja, aquele “nome” realmente me caracterizava. Não da forma como os bullies do passado queriam - como um “retardado”, “bizarro” e “idiota” -, mas sim clinicamente falando. Com características que o DSM-5 associa ao autismo.

Mesmo assim, durante vários meses, fiquei reticente em assumir para mim esse “rótulo”. Tanto foi que, no dia em que me assumi aspie para o mundo, em dezembro de 2017 - leia aqui o artigo que foi publicado na época -, foi como “autista leve”, meio que como uma maneira de minimizar meu atributo de autista.

É hora de eu vencer essa relutância - e você também, caso também seja autista


Escrevi este artigo já com a intenção de que ele quebre o que resta dessa resistência de assumir o rótulo de autista. Pois bem, é isso que eu sou - autista, autistaço, com A maiúsculo, ainda que com um autismo diferente, mais “leve”, do de um autista severo.

Penso, aliás, que você, se também for aspie, pode também ter passado por violência do tipo no passado, de ser chamado de “autista” num sentido não clínico, mas sim discriminatório e ofensivo.

Então, se for o caso, trabalhe com seu psicólogo - caso tenha o acompanhamento de um - como você pode assumir, de corpo e alma, o “rótulo” de autista para o mundo e para você mesmo.

Conclusão


Sim, eu sou autista, e tanto é que eu tenho este blog chamado Consciência Autista, que trata da consciência ético-moral de um autista adulto. E farei o possível para me libertar de qualquer ressalva que reste de me autointitular assim.

Espero que este relato também ajude você a se libertar das amarras do passado e assumir sua condição e identidade psicossocial sem mais percalços e poréns.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

12 características positivas de ser um aspie

Pois essa é a minha vida com autismo. Tanto o bom quanto o ruim. Eu posso encarar desafios extra por ser autista. Mas não teria outro jeiro. É simplesmente como eu sou. Aspie com orgulho!

Muito se fala das dificuldades e privações que há em ser autista aspie. Mas e as qualidades?

Ainda que muitos relutem em acreditar, existem grandes vantagens em ter a Síndrome de Asperger - e elas nos dão orgulho de sermos quem somos.

Conheça, neste artigo, doze características positivas de ser um aspie - a saber, elas são só uma amostra, não englobam a totalidade dos nossos pontos positivos.

Doze das características positivas de ter a Síndrome de Asperger

  1. Aspies costumam ser muito inteligentes, até superdotados. Acredita-se que a porcentagem de superdotados entre os aspies é muito maior do que entre os neurotípicos;
  2. Quando têm hiperfoco em algum tema, tornam-se grandes talentos e especialistas nele, podendo até revolucionar essa área do conhecimento. Albert Einstein que o diga;
  3. São pessoas muito leais, sinceras, honestas e éticas, e é muito difícil adquirirem o costume de mentir e agir com falsidade. Aspies são pessoas nas quais vale a pena confiar;
  4. Quando um aspie é seu amigo, ele tende a ser um dos melhores amigos da sua vida. Afinal, quando ele faz amizade com alguém, é porque gosta de verdade da pessoa;
  5. Aspies costumam ser pessoas cheias de empatia. Nas muitas vezes em que aparentam, aos olhos leigos, não serem empáticos, na verdade estão sentindo empatia de uma maneira diferente da dos neurotípicos. Não raras, aliás, são as vezes em que a empatia é tamanha que podem até passar mal diante de uma cena de sofrimento alheio;
  6. Quando possuem ou aprendem a ter boas habilidades românticas, aspies podem ser os(as) melhores namorados(as) da sua vida;
  7. Quando o casal é composto por aspies então, a tendência é serem um casal muito mais amoroso, estável e duradouro - isso quando não é simplesmente para toda a vida - do que a grande maioria dos casais cujos parceiros são neurotípicos;
  8. Quando um aspie defende uma causa política, pode se tornar um dos seus defensores mais revolucionários e apaixonados;
  9. Um aspie pode ser um excelente observador. Quando os neurotípicos pensam que ele não está nem aí para a realidade, que está imerso no “seu próprio mundo”, ele está na verdade analisando-a atentamente para refletir sobre ela, ou para denunciar a público os problemas vistos;
  10. Um aspie tem muito mais dificuldade de ter comportamentos de uma pessoa malvada. Quando comete uma violação, geralmente é porque não sabe que aquilo é prejudicial e/ou considerado antiético;
  11. Aspies costumam não fazer drama, nem arranjar brigas, nem aderir a relacionamentos que são verdadeiras montanhas russas. Adoram estabilidade, paz e tranquilidade em seus relacionamentos com amigos e namorados(as);
  12. Aspies costumam ter excelente memória de longo prazo, lembrando-se com detalhes precisos de momentos vividos na infância.

Conclusão


Com essa lista, você pode perceber alguns dos motivos pelos quais temos orgulho de sermos quem somos, de termos nossa condição autística e lutarmos por um lugar ao sol neste mundo tão capacitista.

Então, antes de nos considerar pessoas “doentes”, “coitadas” ou “dignas de pena” por sermos quem somos, conheça alguns autistas, converse com eles, e saberá que não somos nada disso.

Pelo contrário, temos pontos muito positivos que a maioria dos neurotípicos jamais sonharia em ter. Posso dizer, com toda segurança, que este mundo seria um lugar muito melhor se mais pessoas tivessem a Síndrome de Asperger.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Como o autismo dificulta minha inserção no mercado de trabalho



Meu caso infelizmente é de ser um desses milhões de autistas desempregados, que, por questões como hiperfoco desvalorizado pelo mercado e dificuldades de se adequar a trabalhos em empresas não inclusivas, não conseguem arranjar um emprego.

Poucos são aqueles que têm a sorte de ter um hiperfoco valorizado pelo mercado de trabalho, como os especializados em Ciência da Computação ou em Engenharia Civil, e serem contratados por empresas que adotam uma política de inclusão de talentos autistas.

Quero contar como não tive essa sorte e hoje estou lutando arduamente para conseguir um trabalho autônomo que rentabilize aquilo no que sou bom e com o que posso lidar plenamente.

Um pouco da minha atribulação universitária


Para começo de conversa, tive - e até o momento tenho - uma vida acadêmica um tanto instável, pela minha dificuldade de encontrar um hiperfoco profissionalizável.

Desisti de três cursos - Jornalismo, História e Bacharelado em Ciências Sociais -, tranquei duas vezes um curso antes de sair dele - Bacharelado em Ciências Sociais -, quase desisti dos dois nos quais me formei - Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Sociais - e fracassei em três seleções de mestrado, cada uma para um curso diferente.

Em Gestão Ambiental, eu me diplomei, mas acabei não me identificando com o curso. Diante desse fato, não fiz estágio, não me preparei para trabalhar como gestor ambiental.

Só me identifiquei ligeiramente com a Educação Ambiental, que correspondia a um dos módulos daquele curso. Mas não a ponto de se tornar um hiperfoco e um interesse profissional a ser almejado com afinco.

Cheguei a comprar dezenas de livros de meio ambiente, principalmente de Educação Ambiental, mas se li cinco deles ao longo dos últimos dez anos, li muito.

Só fui encontrar um hiperfoco profissionalmente aproveitável na licenciatura em Ciências Sociais. Só que é aí que começa uma história que mistura dificuldade de me adaptar às demandas externas - do mercado e do governo - com o azar de ter tido um hiperfoco do qual nem o mercado, nem os poderes políticos estabelecidos gostam.

Cheguei a entregar currículos em escolas em São Paulo - pretendo me mudar para lá quando for possível -, mas nenhuma aceitou.

Soube depois, num grupo do Facebook intitulado “Ciências Sociais e o mercado de trabalho”, que apenas escolas públicas contratam licenciados em CS/Sociologia - mediante concurso público ou seleção simplificada de temporários. Escolas privadas designam professores com outras formações, como História e Geografia, para ensinar Sociologia no ensino médio.

Também não encontrei nenhum curso à distância de CS para ser tutor de EAD, nem em universidades públicas.

A oportunidade restante que eu teria de ensinar seria em faculdades privadas, onde eu ensinaria Fundamentos de Sociologia em cursos diversos. Mas elas requerem que o postulante à vaga tenha pós-graduação - e como já falei, não consegui entrar no mestrado.

E para piorar, as perspectivas para licenciados em Ciências Sociais são sombrias para os próximos anos, com a futura posse de Bolsonaro na presidência.

A Sociologia correrá um enorme risco de desaparecer das grades curriculares do ensino médio, por causa da pressão dos defensores do famigerado Escola Sem Partido.

E nas poucas vagas que restarem, a tendência é os professores serem vigiados por seus próprios alunos, de modo que não poderão mais expressar livremente suas opiniões políticas, nem ensinar a teoria marxista, um dos pilares da Sociologia, nem falar de temas caros a essa disciplina, como questões de gênero e orientação sexual.

Com isso, eu posso dizer que meu diploma de licenciatura em Ciências Sociais, no contexto atual, não tem nenhum valor para o mercado.

Meus hiperfocos atuais - e minha enorme dificuldade de mudar de foco


Com isso, restaram, profissionalmente falando, aqueles dois hiperfocos pelos quais eu tento construir meu sustento hoje: veganismo e ativismo neurodiverso.

Atualmente eu tento ganhar dinheiro comercializando meus dois livros (Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética e Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança), que não têm editora, em livrarias como o Clube de Autores, a Amazon e a Saraiva, e vendendo e-books, cursos e livros afiliados.

Só que, até o momento, o rendimento tem sido muito baixo - na média de poucas dezenas de reais por mês -, insuficiente para, por exemplo, pagar um curso bom de marketing digital e contratar serviços de design, ambos os quais impulsionariam minhas vendas.

Nem sequer consigo poupar e juntar essa mixaria, porque sempre aparece algum motivo para gastar, como a compra de meus remédios para a depressão e a Sìndrome de Tourette e a recarga de meu bilhete de ônibus e dos créditos do meu celular.

Diante disso, penso frequentemente que deveria tentar mudar meu hiperfoco para algo realmente aceito pelo mercado de trabalho - como, por exemplo, gestão de redes sociais de empresas ou trabalhos de design.

Só que essa tentativa de mudá-lo forçadamente tem rendido muito sofrimento. Desde o ano passado, tenho sofrido com uma depressão, atualmente controlada por medicamento antidepressivo e meditações diárias.

Afinal, não consigo aprender a gostar de nenhuma área profissional minimamente rentável, tenho que lidar com os ganhos ridiculamente baixos com meus livros e produtos afiliados e tenho visto meus sonhos serem sempre empurrados com a barriga por causa da falta de dinheiro e da quase inflexibilidade do meu hiperfoco.

Tenho procurado listas de nichos de mercado rentáveis, mas não consigo me inspirar em nenhum deles para trabalhar com marketing digital. Nenhum no qual pudesse investir tempo e conhecimento para, por exemplo, promover marketing de conteúdo.

E procurar um emprego lá fora?


A esta altura, alguém poderia me perguntar por que eu não procuro um emprego como vendedor, atendente de telemarketing ou promotor de eventos, para juntar dinheiro e fazer os investimentos que quero em marketing e design.

Eu até tive esse interesse no passado, mas minha vida trabalhando subordinado a empresas foi tudo menos bem-sucedida.

Para você ter uma ideia, a soma de todos os meus trabalhos remunerados sob uma empresa - sem contar a bolsa de iniciação à docência da UFPE - é de apenas oito meses em toda a minha vida.

Trabalhei como agente de pesquisa e mapeamento no IBGE e como redator numa agência de notícias. E nos dois casos eu acumulei traumas.

A incapacidade de perceber regras organizacionais não ditas, a dificuldade de manter o equilíbrio psicológico mediante pressão do chefe, o déficit de socialização com colegas de trabalho, o comportamento social considerado imaturo e inadequado pela empresa… Muitos fatores comumente sofridos por autistas leves me fizeram fracassar feio nas duas oportunidades. E o pior, sem sequer ter consciência do porquê de tudo aquilo acontecer.

Eu até poderia procurar um emprego temporário de vendedor, neste final de ano. Mas já concluí, ao passar por lojas do comércio recifense, que sofro sobrecarga sensorial em ambientes barulhentos e quentes, não consigo estabelecer uma boa relação com colegas de trabalho, teria sérias dificuldades de lidar com clientes como vendedor de loja, e meu déficit de linguagem não verbal me impede de me dar bem em entrevistas de trabalho.

Até poderia conseguir um trabalho adaptado para pessoas com deficiência. Mas precisaria de diagnóstico e laudo, algo que eu já falei aqui no blog que é um privilégio para poucos autistas adultos.

Conclusão


Essa é a minha atribulada história de tentativa de ganhar meu próprio dinheiro e me encaixar no mercado de trabalho. Uma história na qual, até o momento, não obtive sucesso.

Posso dizer que a maioria dos autistas adultos no Brasil passa por algo semelhante ao que eu tenho passado: muita dificuldade de se encaixar num curso universitário e num emprego, dificuldades de encontrar um trabalho apropriado sem um laudo de pessoa com deficiência, hiperfoco de difícil flexibilização que mais atrapalha do que ajuda a se inserir no mercado...

Minha luta para ter o meu próprio dinheiro continua, a muito custo e persistência. E infelizmente minha condição e as barreiras que a sociedade impõe a pessoas como eu têm me impedido de conseguir sucesso até o momento.

Espero, com este artigo, trazer para muitas pessoas a consciência que lhes falta sobre o quanto tem sido difícil para nós se encaixar nesse excludente mercado de trabalho.


Se você estiver sensibilizado a ponto de querer ajudar, apoie meu trabalho por meio do APOIA.se, e ganhará a versão digital de um ou dois dos meus livros como recompensa, a depender do valor mensal de seu apoio.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Um triste fato: autistas adultos não têm direito ao diagnóstico tardio no Brasil

O autista padrãozinho - criança cis masculina, branca, de classe média alta -, o único que atualmente tem amplo acesso ao diagnóstico de sua condição no Brasil
Algo que eu constatei, desde que me descobri e me assumi autista, é que, apesar de todos os avanços nos direitos dos autistas laudados nos últimos anos, infelizmente os adultos que se descobriram tardia e autonomamente com essa condição ainda não têm o direito ao diagnóstico formal - nem no SUS, nem em planos de saúde.

Hoje é absurdamente difícil um adulto que não seja rico conseguir um diagnóstico de autismo. E até o momento nenhum esforço vem sendo empreendido pelo poder público para sanar esse problema.

Por meio deste artigo, quero chamar você a ter consciência disso e nos ajudar a conquistar esse direito.

Um direito que ainda não existe


Hoje tem se tornado cada vez mais comum crianças terem acesso a um diagnóstico, por meio de mutirões como esse que aconteceu no Recife em 2018.

Isso é admirável, exceto pelo fato de que esforços como esse se limitam a crianças. Adolescentes e adultos continuam excluídos desse acesso.

Hoje em dia, o autista adulto precisa:
  • De dinheiro, pelo menos R$1.500, para pagar o número mínimo de consultas com um neuropsicólogo particular, para que ele faça um relatório a ser encaminhado a um psiquiatra para que este formalize o diagnóstico e o laudo de Condição do Espectro Autista;
  • De dinheiro também para pagar um plano de saúde - que tem sido cada vez mais difícil de se pagar - ou um psiquiatra particular que entenda de Síndrome de Asperger/autismo leve em adultos;
  • De sorte, para conseguir encontrar um neuropsicólogo especializado em autismo, que atenda autistas de todos os níveis e faixas etárias, alguém raro na maioria das cidades brasileiras;
  • De sorte também para encontrar um psiquiatra que aceite diagnosticar e laudar o autismo leve adulto, ao invés de discursar, com ignorância e preconceito, que o paciente “não é um autista de verdade” ou “não precisa” de um diagnóstico;
  • De um emprego ou trabalho autônomo para ter condições de pagar as consultas - sabendo-se que é imensamente mais difícil para um autista, mesmo aspie, se dar bem no mercado de trabalho do que para um neurotípico;
  • Alternativamente, de uma família de classe média-alta para ter condições de pagar essas consultas sem grandes percalços - haverá dificuldades imensas de se pagar se for de classe média-baixa;
  • De paciência e persistência para lidar com todas as desilusões advindas da procura de um neuropsicólogo e um psiquiatra devidamente capacitados.
Isso tudo porque nem mesmo na Lei Berenice Piana consta o direito ao diagnóstico adulto, apenas o precoce - ou seja, só de crianças na primeira infância.

Para piorar, a eleição de Jair Bolsonaro à presidência traz a perspectiva sombria de que não haverá nenhum avanço nessa questão nos próximos anos.

Como eu constatei que, como adulto, não tenho direito ao diagnóstico de autismo


Eu constatei esse triste fato desde o ano passado. Nem no SUS, nem no meu plano de saúde, encontrei profissionais que se dispusessem a confirmar clinicamente e diagnosticar minha Síndrome de Asperger.

Primeiro, li os relatos nos grupos de autistas no Facebook de pessoas que procuraram por neuropsicólogos e psiquiatras que atendessem autistas adultos no SUS e não acharam.

Alguns, aliás, contam que sofreram terríveis abusos ao buscarem atendimento no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de algumas cidades.

Segundo, eu mesmo procurei por profissionais capacitados no meu plano de saúde. Para o meu azar, não encontrei nenhum.

Pelo contrário, só achei psiquiatras capacitistas contra autistas leves adultos. Um me disse, na cara dura, que eu “não sou autista” porque “autistas não são capazes de falar e se expressar”.

E outro, após ler um enorme relatório que fiz sobre características autísticas manifestadas ao longo da minha vida, me falou, sem nenhum escrúpulo, que eu “não preciso” de um diagnóstico porque “levo uma vida normal” - ignorando todas as páginas inteiras de dificuldades e privações sociais que constavam nesse relatório.

Depois de mais de um ano e meio de procura, só achei profissionais com essa capacitação fora do meu plano de saúde, e contáveis nos dedos de uma mão no Recife.

E na minha situação de desempregado, com currículo fraco, totalmente dependente financeiramente dos meus pais, ganhando pouquíssimo com meus livros e produtos afiliados, só os deuses sabem quando conseguirei ter dinheiro para pagar um neuropsicólogo.

Tudo isso porque não tenho direito, como autista adulto, ao diagnóstico, e tudo indica que continuarei não tendo nos próximos anos.

Conclusão


Infelizmente a realidade é essa: o diagnóstico tardio de autismo é um privilégio para poucos no Brasil.

Não o temos assegurado como direito, numa realidade em que ainda se estereotipa o autista como aquele menino branco, do gênero masculino, de classe média-alta, com oito anos ou menos de idade.

Eu diria para lutarmos, por meio do movimento defensor da neurodiversidade, por esse direito. Mas isso ficará bem mais difícil com o governo autoritário que se avizinha, cujos representantes já deixaram claro que desprezam os direitos da maioria dos brasileiros.

Então, pelo visto, só me resta fazer, por meio deste blog, mais pessoas tomarem consciência disso e, quando for propício, defenderem que os aspies adultos passem a ser incluídos no direito ao diagnóstico na Lei Berenice Piana.

sábado, 3 de novembro de 2018

Por que o meme “O nível de autismo é de mais de oito mil” é muito capacitista

"Their autism level is over 9,000", versão em inglês do meme capacitista em questão
De vez em quando, um meme profundamente capacitista ressoa em fóruns e grupos virtuais de adolescentes e jovens adultos e em vídeos que pretendem ser de humor: “O nível de autismo é de mais de 8 mil” (ou, em inglês, “Their autism level is over 9,000”).

Se você o utiliza, saiba que ele é muito ofensivo para autistas e atribui à sua condição uma definição errada, pejorativa e injusta.

Saiba, neste artigo, por que eu sou totalmente contra o uso dessa frase como meme.

O capacitismo do meme do “nível de autismo”


Esse meme está presente em vídeos como esse e também em brincadeiras e trocas de insultos em grupos de jovens “zoeiros” na internet.

O “mais de oito mil” é uma referência ao meme de Vegeta, anti-herói e ex-vilão de Dragon Ball Z, que descobre o quanto o poder de Goku, o protagonista da franquia, é elevado.

Algumas pessoas adaptaram o meme, de modo que ele não mede mais o poder de luta de Goku, mas sim o “nível de autismo” de quem, por exemplo, argumenta a favor da crença na “Terra plana” ou fala algo profundamente estúpido.

Diante disso, eu gostaria de dizer que esse meme, a partir do momento em que o autismo entra no jogo, se torna capacitista e lança mão de um conceito totalmente errado dessa condição.

Ao contrário do que se fala nesse contexto, autismo não tem absolutamente nada a ver com falar coisas estúpidas e ser ignorante ou, segundo outra concepção capacitista, “retardado”.

O autismo envolve dificuldades de comunicação e compreensão de linguagem não verbal, hipersensibilidade a estímulos sensoriais, dificuldade e/ou desinteresse de socialização, dificuldade em entender regras sociais não verbalizadas, entre outros aspectos, que fazem da pessoa que o tem essencialmente uma pessoa com deficiência.

Nem sempre o autista tem o famigerado “retardo mental”, nem é um ignorante quadrado em temas como o formato do planeta Terra.

Aliás, pelo contrário, muitos autistas são superdotados, ou seja, pessoas com um nível de habilidades intelectuais muito elevado, e entendem de Astronomia mais do que 90% dos neurotípicos.

O problema é que mesmo esses autistas com intelecto privilegiado acabam sendo discriminados e socialmente excluídos porque, muitas vezes, seu comportamento não segue as normas sociais ocultas presentes no ambiente.

Ou seja, tendem a não se comportar como é de se esperar de jovens de sua idade. Por exemplo, um jovem autista de 20 anos pode se comportar como um menino de 14 anos em determinado ambiente, por não entender o padrão de comportamento dos jovens de sua idade e ter como referência comportamental seu próprio passado e pessoas mais novas.

Além disso, o autista pode ter um hiperfoco num assunto que não desperta o interesse da maioria dos neurotípicos, e tende a ter pouco interesse naquilo que é apreciado e falado em conversas pela maioria dos jovens.

Um exemplo disso é o autista que entende muito de Astronomia, tendo um conhecimento muito próximo de um pós-graduando nessa ciência, mas não se interessa em conversas sobre paquera, carros, futebol, hábitos de consumo, entre outros assuntos muito comuns entre pessoas de sua faixa etária.

Por isso infelizmente o autismo é muito confundido com “retardo mental”, “estupidez” ou “ignorância profunda”. Mal sabem as pessoas que fazem essa confusão que esse desconhecimento as faz fazer piada de uma deficiência - as dificuldades sociais e comunicacionais que os autistas costumam ter.

E fazer piada do autismo, com tiradas como “O nível de autismo é de mais de oito mil”, é comparável a fazer piada de um cadeirante porque ele não pode andar sem o auxílio de uma cadeira de rodas, de um cego por não poder enxergar ou de uma pessoa (não autista) com deficiência intelectual em função de sua condição. É capacitismo.

Conclusão


Agora eu espero que você compreenda por que é antiético e preconceituoso usar piadinhas como “O nível de autismo é de mais de oito mil” e se referir ao autismo como “retardo”, "estupidez" ou “ignorância absurda”.

Se a pessoa é ignorante sobre determinado assunto a ponto de achar que sabe tudo de algo que não conhece verdadeiramente, aborde a ignorância dela no debate. Não a confunda como um autista, que definitivamente não é uma pessoa ignorante nos assuntos que lhe interessam.

Respeite os autistas. Evite fazer troça de deficiências, sejam elas visíveis ou invisíveis.

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Por que é preconceituoso comparar moralidade atrasada e crenças contraditórias com autismo



Como vegano defensor dos Direitos Animais, tive a infelicidade, nos últimos anos, de ver parceiros da causa escreverem artigos comparando a contradição e atraso moral das pessoas não veganas com o autismo.

Além disso, vejo muitas pessoas usarem o termo preconceituoso “autismo moral” para se referir a esse tipo de problema.

Se você tem esse pensamento de que a contradição de crenças morais é comparável ao espectro autista, então eu gostaria de lhe mostrar que autismo não é isso.

Autismo é uma coisa, incoerência moral é outra


Antes de tudo, preciso esclarecer: autismo não tem nada a ver com ser uma pessoa de moralidade contraditória ou iníqua. O espectro autista não tem isso como significado.

Aliás, em muitos casos o autista pode ser mais coerente nos seus princípios éticos do que a grande maioria dos neurotípicos. Existem diversos autistas veganos defensores dos Direitos Humanos e Direitos Animais ao redor do mundo.

São pessoas que entendem que é contraditório defender uma causa e ao mesmo tempo ignorar ou desprezar outras.

Além disso, nada na definição clínica da condição do espectro autista aponta para uma tendência, por parte dos autistas, de serem pessoas moralmente incoerentes.

Pelo contrário, esse problema é algo muito presente entre a maioria dos neurotípicos - principalmente entre aqueles que se dizem “pessoas de bem” mas tratam o diferente de forma malvada, com descaso, preconceito e até ódio explícito.

E mais: muitas vezes em que um autista comete uma ação moralmente repudiável, é porque ele não sabe que aquilo é prejudicial e socialmente malquisto, uma vez que tem dificuldade de captar e entender regras morais e sociais que não são ditas verbalmente.

Já a maioria dos adultos neurotípicos, quando comete uma má ação, já sabe que aquilo é prejudicial e tem a intenção de fazer o mal em benefício próprio. Ou então o faz por ignorância.

Conclusão


Confundir autismo com atraso moral é nada além de capacitismo, ou seja, preconceito contra pessoas com deficiência.

Portanto, se você ainda usa termos como “autismo moral” para falar de iniquidades e incoerências morais, peço que reveja essa postura, em respeito a nós autistas.

Não queremos ser vistos como pessoas “incapazes” de entender a diferença entre o certo e o errado - que é a visão preconceituosa a que essa confusão leva.