quinta-feira, 22 de novembro de 2018

[atualizado 14/01/2019] Consciência Autista de recesso por tempo indeterminado


Atualizado em 14/01/2019

Pessoal, me dei férias dos blogs Consciência Autista e Veganagente por tempo indeterminado, por motivos de necessidade de descanso e recuperação da minha saúde mental.

Em meados deste mês de janeiro, tentei voltar a escrever, mas senti que minha energia criativa não voltou como eu esperava. Continuo abatido e sem disposição mental para escrever.

Por isso, eu estou dando recesso a mim mesmo, de modo que passarei um tempo indeterminado descansando - o máximo de trabalho que terei é o de divulgar postagens já existentes e imagens de memes dos dois blogs no Facebook e no Instagram.

Então nos vemos na volta ao trabalho. Agradeço a compreensão de quem espera por artigos novos. Até lá!

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O SMS que mudou a minha vida


Em 7 de março de 2017, minha namorada Danielle me enviou um SMS que mudou a minha vida.

Nas suas leituras sobre a Síndrome de Asperger, com a qual ela se identificou, ela descobriu que eu também tinha indícios muito fortes de ser um autista aspie.

Aquela mensagem mudou para sempre o meu autoconhecimento, a forma como eu vejo a mim mesmo. E respondeu muitas questões do meu passado.

Saiba mais, neste artigo, sobre esse momento histórico da minha vida. Ou seja, sobre como um indivíduo saiu da total ignorância sobre sua condição para abraçar a causa autista neurodiversa por total identificação.

O que dizia o SMS


O SMS, muito fofo por sinal, dizia (adaptado):
“Então, amorzinho… eu tô lendo mais a fundo sobre Asperger e tal. Ainda não tenho certeza quanto a mim, mas eu tô quase convencida de que você tem [a Síndrome de Asperger], fofo.”
Ela me enviou enquanto voltava da universidade para casa, e mandou em formato de texto para não ser ouvida por outros passageiros, afinal era algo extremamente íntimo. Estávamos conversando por telefone (namoramos à distância), e ela escreveu enquanto demos uma pequena pausa na conversa.

Eu lembro que fiquei impressionado e com cara de “Eita! Será mesmo?”, mas não passou muito tempo até que eu aceitei a revelação.

Afinal, aquela era a resposta para muita coisa no meu passado e no meu presente.

Os dias seguintes à mensagem


Aspie Quiz, uma das ferramentas que me ajudaram a confirmar que sou autista aspie
Depois daquela histórica mensagem, comecei a pesquisar listas de características e testes informais de Síndrome de Asperger, como o Aspie Quiz.

E pouco a pouco fui descobrindo o autista que reside em mim, apesar de o primeiro teste do Aspie Quiz ter dado “provavelmente neurotípico” e isso ter me deixado com dúvida.

Esse primeiro teste eu considero hoje que foi respondido de maneira parcialmente errônea, por autoconhecimento insuficiente.

Esse conhecimento de mim mesmo cresceria enormemente nos meses seguintes.

Pesquisei bastante sobre a Síndrome de Asperger e o espectro autista como um todo, em fontes em português e inglês.

E, modéstia à parte, acredito que acumulei mais conhecimento sobre essa deficiência do que 90% dos psiquiatras e psicólogos brasileiros.

Até que o último Aspie Quiz de 2017 eu lembro que deu “provavelmente neurodiverso/Asperger” e eu percebi: realmente sou autista leve.

Ainda relutei em contar para a minha família e assumir publicamente meu autismo nos meses seguintes à mensagem de Danielle, até que, em dezembro, o autista que mora em mim - e que sou eu - se mostrou para o mundo e começou a defender a neurodiversidade.

Uma reflexão sobre como eu tenho sorte de ter uma namorada aspie que me fez descobrir também ser autista


Considero que tenho muita sorte em ter uma namorada que se descobriu aspie primeiro e, em seguida, me descobriu também autista leve.

Não bastasse toda a minha felicidade no amor tendo-a como namorada - já estamos há quase seis anos num namoro à distância extremamente estável, amoroso e carinhoso, sem nunca termos brigado -, ainda tive a fortuna de, graças a ela, descobrir algo que até então nenhum psicólogo e psiquiatra havia desvelado sobre mim mesmo.

Penso que tenho sorte porque, graças a Danielle, escapei da tristeza de viver eternamente no escuro, sem saber quem eu realmente sou e descobrir minha condição. Algo que atormentou pessoas de muitas gerações passadas e ainda fustiga milhares ou milhões de pessoas que são autistas mas não sabem.

Eu sinceramente gostaria que mais pessoas tivessem essa oportunidade de descobrir essa parte pouco compreendida de si mesmas. Que uma pessoa querida lhes pudesse falar, com o mesmo carinho com que Dani me falou, que elas são diferentes no bom sentido e possuem uma condição de neurodiversidade.

Mas sei que, infelizmente, para muitos essa pessoa nunca vai chegar. E é para que elas algum dia, de outra maneira igualmente positiva, saibam de seu autismo que o movimento defensor da neurodiversidade luta.

Conclusão


Este foi o relato de como um SMS da minha namorada foi um divisor de águas entre uma época de total desconhecimento sobre autismo e a era da consciência plena de quem eu realmente sou.

Se você não tem uma pessoa querida próxima de você para lhe revelar o que você não sabe sobre Síndrome de Asperger, convido você a estudar conteúdo em português e em inglês sobre o assunto.

Você poderá descobrir, por exemplo, que aquele seu amigo “esquisitão” é autista e não sabe. Ou mesmo que você próprio é neurodiverso.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Autismo não é doença. É diferença

"Autismo não é doença. É diferença", já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença
Hoje ainda é muito comum neurotípicos - e muitos autistas que desconhecem sua própria condição - verem o espectro autista como uma “doença”.

E baseados nessa visão, alguns neurocientistas tentam buscar uma forma de “curá-lo”. Afinal, se é uma doença, então pode e precisa ser curado.

É desafiando essa visão que eu deixo claro aqui, inclusive como autista: meu autismo não é uma doença! É uma condição que implica diferenças e necessidades especiais a serem respeitadas, aceitas e atendidas na sociedade.

Por que o autismo ainda é visto como uma “doença”


O autismo é uma condição neurológica que provê um cérebro diferente para o indivíduo, com propriedades - algumas delas positivas, outras negativas - que o distinguem do cérebro não autista.

Porém, esse cérebro diferente, justamente por causa do paradigma moral de se ver o diferente como “inferior” àquilo e àqueles que são considerados “normais” e se considerar pessoas com necessidades especiais “coitadas” e “incapazes”, não encontra uma boa receptividade na nossa sociedade.

Os comportamentos peculiares dos autistas ainda são muito malvistos. E os pontos negativos de ser autista são super-realçados em comparação com os positivos, uma vez que a sociedade está estruturada para não se adaptar a diferenças neurológicas como o autismo.

Nossa sociedade é feita para os neurotípicos. Autistas são tidos como forasteiros, obrigados a se adaptar - o que resulta, na maioria das vezes, em fracasso - ao que os neurotípicos acham que é “normal”.

Nesse contexto, o autismo ainda é visto como uma “doença”, algo que precisa ser “curado”. E os autistas, como pessoas “quebradas” que precisam ser “consertadas” e convertidas em neurotípicas.

Além disso, na tradição ocidental, cérebros sabidamente neurodiversos sempre foram vistos como “anormais” e “doentes”. Só agora é que isso está começando a mudar.

Por que o autismo não deve ser visto como uma doença, mas sim uma condição que implica diferença cerebral


O modelo social da deficiência deixa claro: o que é deficiente na deficiência não é a pessoa, nem sua condição, mas sim a sociedade como um todo, que lhe impõe barreiras e não está adaptada nem preparada para acolhê-la.

Diante disso, é a sociedade que precisa aceitar a diferença e se adaptar à diversidade, e não o sujeito diferente que precisa se forçar a tentar ser “normal” e se encaixar.

Nesse contexto, é preciso reconhecer: ser autista é apenas um jeito diferente de ser. Não implica problemas de saúde - apesar das eventuais condições coexistentes -, não é transmissível, não é algo que tem a natureza de ferir, causar sofrimento, incapacitar e matar.

Tratá-lo como uma doença implica necessariamente dizer que o nosso jeito de ser é uma aberração, um “erro” que precisa ser “consertado” e “curado”. Que nós somos “doentes” por sermos quem somos e termos nossas necessidades particulares e mesmo nossos pontos positivos que nos distinguem dos neurotípicos.

Conclusão


Portanto, o autismo deve ser encarado e tratado como aquilo que realmente é - não uma doença, mas sim uma diferença, como já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença.

A sociedade precisa se adaptar e nos acolher. Eventualmente precisamos de ajuda para conviver com os neurotípicos. E é para isso que lutamos no nosso dia-a-dia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O que o autismo tem a ver com minha falta de disposição para participar de movimentos sociais e manifestações


Por muitos anos, eu desejei participar de movimentos sociais, de coletivos que defendessem alguma causa.

Só que, de alguns anos para cá, esse interesse foi sumindo, até que hoje eu não tenho mais a mínima vontade de aderir a grupos do tipo. E por todo esse tempo me perguntei por que isso aconteceu.

Não é por medo do futuro governo de Bolsonaro. Mas sim, pelo que descobri do ano passado para cá, porque é assim que eu sou: um autista que não é muito chegado à socialização e não deseja mais tentar se entrosar com pessoas que podem, a qualquer momento, me julgar e me condenar em função de meus comportamentos.

Quero, neste artigo, relatar como eu cheguei à conclusão de que essa indisposição de aderir a coletivos é parte de mim, que só vai ser tratada daqui a bastante tempo - quando eu tiver meu dinheiro e condições de ter acompanhamento de um psicólogo que me reconheça como aspie.

Minha falta de disposição para participar de coletivos políticos e manifestações


Por vários anos eu tentei participar de grupos de ativismo e protestos. Lembro de ter participado de alguns grupos de defesa dos animais e do vegetarianismo, entre 2008 e 2012.

Só que nunca fui verdadeiramente aceito e acolhido. Meus comportamentos - cuja causa eu então desconhecia - atraíam a antipatia de boa parte dos membros desses grupos.

Eu fazia perguntas sem noção. Falava em público - em grupos do Google Grupos ou comunidades ou scraps do Orkut - coisas que os receptores de minhas mensagens respondiam, com agressividade extrema, que só deviam ser tratadas em privado, longe do olhar alheio. Tentava paquerar com alguma membro de maneira totalmente descoordenada - mas que, a saber, nunca chegou a ser tida como machista e assediadora -, uma vez que eu sofria de uma imensa carência amorosa.

Em dois desses grupos, de tanto perceber que não era bem quisto no meio, acabei saindo voluntariamente.

Em 2012, retornei as tentativas de participar de grupos sociopolíticos pró-vegetarianismo. Participei de algumas reuniões, mas sentia que alguns membros não me viam com olhos muito receptivos nessas ocasiões.

Também marcava piqueniques num parque aqui de Recife. Mas esses eventos só resultaram em mais desafetos, por causa dos meus comportamentos socialmente malquistos, como comer mais do que a quantidade socialmente aceita.

Já nas manifestações que aconteceram na época, eu ia com a intenção tanto de defender a pauta estabelecida como de tentar me socializar e integrar algum grupo - até por questão de segurança.

Mas, é claro, não consegui me aproximar de nenhum grupo na época. O único do qual eu participei com alguma regularidade - que se chamava Zona Recife e existiu em 2009 - se separou em poucos meses de atividade.

Ou seja, de tanto tentar me socializar nesses grupos e ser malsucedido, acabei desistindo, e não tenho mais nenhuma perspectiva de tentar novamente aderir a algum.

Por que não tento mais hoje, nem sabendo da minha condição autística


A este momento, alguém pode vir me perguntar por que eu não tento mais hoje, já que agora eu sei que sou autista e posso falar isso abertamente para justificar eventuais comportamentos indesejados.

A razão é que os movimentos sociais - todos eles, exceto talvez o próprio movimento de autistas - são capacitistas e não aceitam plenamente autistas entre seus membros.

Em nenhum lugar, seja ele coletivo social, partido ou organização vegana/vegetariana, vou encontrar braços abertos e a plena compreensão de minha condição e dos porquês de meus comportamentos.

Sei que, se eu cometer algum comportamento socialmente repudiado, serei malvisto como nas outras vezes. E não vou me sentir à vontade de permanecer no coletivo.

E pior, o tempo todo vou me sentir sendo vigiado e julgado.

Além disso, pelas minhas dificuldades de socialização, a tendência é de não conseguir fazer nenhuma amizade nesses meios.

É de não estabelecer nenhum laço necessário para me manter coeso a esses grupos. Pelo contrário, só desafetos e pessoas neutras perante a minha presença.

Afinal, hoje em dia o entendimento da maioria dos neurotípicos e daqueles que não sabem ser autistas sobre o espectro autista é muito precário e desinformado.

Muitos ainda acham que o autismo é uma doença, uma incapacitação - pior é que eu próprio tinha essa concepção preconceituosa até 2015 -, e que autistas são, estereotipicamente falando, aquelas crianças que passam na televisão, que não falam, não conseguem se comunicar e reagem com agressividade extrema à sobrecarga perante os estímulos do ambiente.

Quanto a manifestações, sei que em todas elas eu estarei sozinho, sem um amigo do lado para me proteger - a não ser que, com muita sorte, eu encontre um amigo da minha época de estudante -, e correrei riscos multiplicados de apanhar da polícia e mesmo de ser preso, sem que ninguém vá ao meu socorro.

Em outras palavras, não me sentiria nada seguro nessas ocasiões.

Conclusão


É por todos esses motivos que eu não me atrevo mais a tentar entrar num movimento social - exceto o próprio movimento autista, e olhe lá -, partido ou grupo ativista.

Prefiro atuar da maneira que eu sei atuar e é mais segura para mim - sendo blogueiro e divulgador de conteúdo em redes sociais.

Espero que quem me ler e me conhecer passe a compreender um pouco do que eu sofri ao longo desses anos em que tentei me socializar em movimentos sociais. E entenda se eu de repente disser que não entro mais em nenhum grupo do tipo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Por que até hoje ainda reluto um pouco em assumir de corpo e alma o atributo de autista


Eu sou autista e me assumo com orgulho. Mas mesmo assim ainda tenho um pouco de relutância em vestir essa camisa (que não tem a estampa peitoral que eu odeio) de corpo e alma.

Essa hesitação tem a ver com as violências verbais que sofri na década passada, já relatadas aqui no blog. E acredito que muitos outros autistas sentem o mesmo.

Portanto, quero relatar com mais detalhes essa dificuldade, de modo a ajudar você, caso também tenha essa hesitação, a se identificar com esse sofrimento passado e vencê-lo.

O que o meu passado tem a ver com a relutância em me assumir autista 100%


Como já contei em outro artigo, sofri um forte cyberbullying na década passada, entre 2003 e 2008, em função de ser tido como “esquisito” e “retardado” num fórum virtual.

“Autista” era o nome de que mais me chamavam. Como insulto mesmo, como adjetivo depreciativo, não como uma tentativa de me fazer descobrir que eu era/sou neurodiverso.

Por isso, passei anos do começo da minha vida adulta temendo ser chamado de autista. Até que, “fatalmente”, minha namorada me relatou que identificou em mim características importantes da Síndrome de Asperger.

Ou seja, aquele “nome” realmente me caracterizava. Não da forma como os bullies do passado queriam - como um “retardado”, “bizarro” e “idiota” -, mas sim clinicamente falando. Com características que o DSM-5 associa ao autismo.

Mesmo assim, durante vários meses, fiquei reticente em assumir para mim esse “rótulo”. Tanto foi que, no dia em que me assumi aspie para o mundo, em dezembro de 2017 - leia aqui o artigo que foi publicado na época -, foi como “autista leve”, meio que como uma maneira de minimizar meu atributo de autista.

É hora de eu vencer essa relutância - e você também, caso também seja autista


Escrevi este artigo já com a intenção de que ele quebre o que resta dessa resistência de assumir o rótulo de autista. Pois bem, é isso que eu sou - autista, autistaço, com A maiúsculo, ainda que com um autismo diferente, mais “leve”, do de um autista severo.

Penso, aliás, que você, se também for aspie, pode também ter passado por violência do tipo no passado, de ser chamado de “autista” num sentido não clínico, mas sim discriminatório e ofensivo.

Então, se for o caso, trabalhe com seu psicólogo - caso tenha o acompanhamento de um - como você pode assumir, de corpo e alma, o “rótulo” de autista para o mundo e para você mesmo.

Conclusão


Sim, eu sou autista, e tanto é que eu tenho este blog chamado Consciência Autista, que trata da consciência ético-moral de um autista adulto. E farei o possível para me libertar de qualquer ressalva que reste de me autointitular assim.

Espero que este relato também ajude você a se libertar das amarras do passado e assumir sua condição e identidade psicossocial sem mais percalços e poréns.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

12 características positivas de ser um aspie

Pois essa é a minha vida com autismo. Tanto o bom quanto o ruim. Eu posso encarar desafios extra por ser autista. Mas não teria outro jeiro. É simplesmente como eu sou. Aspie com orgulho!

Muito se fala das dificuldades e privações que há em ser autista aspie. Mas e as qualidades?

Ainda que muitos relutem em acreditar, existem grandes vantagens em ter a Síndrome de Asperger - e elas nos dão orgulho de sermos quem somos.

Conheça, neste artigo, doze características positivas de ser um aspie - a saber, elas são só uma amostra, não englobam a totalidade dos nossos pontos positivos.

Doze das características positivas de ter a Síndrome de Asperger

  1. Aspies costumam ser muito inteligentes, até superdotados. Acredita-se que a porcentagem de superdotados entre os aspies é muito maior do que entre os neurotípicos;
  2. Quando têm hiperfoco em algum tema, tornam-se grandes talentos e especialistas nele, podendo até revolucionar essa área do conhecimento. Albert Einstein que o diga;
  3. São pessoas muito leais, sinceras, honestas e éticas, e é muito difícil adquirirem o costume de mentir e agir com falsidade. Aspies são pessoas nas quais vale a pena confiar;
  4. Quando um aspie é seu amigo, ele tende a ser um dos melhores amigos da sua vida. Afinal, quando ele faz amizade com alguém, é porque gosta de verdade da pessoa;
  5. Aspies costumam ser pessoas cheias de empatia. Nas muitas vezes em que aparentam, aos olhos leigos, não serem empáticos, na verdade estão sentindo empatia de uma maneira diferente da dos neurotípicos. Não raras, aliás, são as vezes em que a empatia é tamanha que podem até passar mal diante de uma cena de sofrimento alheio;
  6. Quando possuem ou aprendem a ter boas habilidades românticas, aspies podem ser os(as) melhores namorados(as) da sua vida;
  7. Quando o casal é composto por aspies então, a tendência é serem um casal muito mais amoroso, estável e duradouro - isso quando não é simplesmente para toda a vida - do que a grande maioria dos casais cujos parceiros são neurotípicos;
  8. Quando um aspie defende uma causa política, pode se tornar um dos seus defensores mais revolucionários e apaixonados;
  9. Um aspie pode ser um excelente observador. Quando os neurotípicos pensam que ele não está nem aí para a realidade, que está imerso no “seu próprio mundo”, ele está na verdade analisando-a atentamente para refletir sobre ela, ou para denunciar a público os problemas vistos;
  10. Um aspie tem muito mais dificuldade de ter comportamentos de uma pessoa malvada. Quando comete uma violação, geralmente é porque não sabe que aquilo é prejudicial e/ou considerado antiético;
  11. Aspies costumam não fazer drama, nem arranjar brigas, nem aderir a relacionamentos que são verdadeiras montanhas russas. Adoram estabilidade, paz e tranquilidade em seus relacionamentos com amigos e namorados(as);
  12. Aspies costumam ter excelente memória de longo prazo, lembrando-se com detalhes precisos de momentos vividos na infância.

Conclusão


Com essa lista, você pode perceber alguns dos motivos pelos quais temos orgulho de sermos quem somos, de termos nossa condição autística e lutarmos por um lugar ao sol neste mundo tão capacitista.

Então, antes de nos considerar pessoas “doentes”, “coitadas” ou “dignas de pena” por sermos quem somos, conheça alguns autistas, converse com eles, e saberá que não somos nada disso.

Pelo contrário, temos pontos muito positivos que a maioria dos neurotípicos jamais sonharia em ter. Posso dizer, com toda segurança, que este mundo seria um lugar muito melhor se mais pessoas tivessem a Síndrome de Asperger.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Como o autismo dificulta minha inserção no mercado de trabalho



Meu caso infelizmente é de ser um desses milhões de autistas desempregados, que, por questões como hiperfoco desvalorizado pelo mercado e dificuldades de se adequar a trabalhos em empresas não inclusivas, não conseguem arranjar um emprego.

Poucos são aqueles que têm a sorte de ter um hiperfoco valorizado pelo mercado de trabalho, como os especializados em Ciência da Computação ou em Engenharia Civil, e serem contratados por empresas que adotam uma política de inclusão de talentos autistas.

Quero contar como não tive essa sorte e hoje estou lutando arduamente para conseguir um trabalho autônomo que rentabilize aquilo no que sou bom e com o que posso lidar plenamente.

Um pouco da minha atribulação universitária


Para começo de conversa, tive - e até o momento tenho - uma vida acadêmica um tanto instável, pela minha dificuldade de encontrar um hiperfoco profissionalizável.

Desisti de três cursos - Jornalismo, História e Bacharelado em Ciências Sociais -, tranquei duas vezes um curso antes de sair dele - Bacharelado em Ciências Sociais -, quase desisti dos dois nos quais me formei - Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Sociais - e fracassei em três seleções de mestrado, cada uma para um curso diferente.

Em Gestão Ambiental, eu me diplomei, mas acabei não me identificando com o curso. Diante desse fato, não fiz estágio, não me preparei para trabalhar como gestor ambiental.

Só me identifiquei ligeiramente com a Educação Ambiental, que correspondia a um dos módulos daquele curso. Mas não a ponto de se tornar um hiperfoco e um interesse profissional a ser almejado com afinco.

Cheguei a comprar dezenas de livros de meio ambiente, principalmente de Educação Ambiental, mas se li cinco deles ao longo dos últimos dez anos, li muito.

Só fui encontrar um hiperfoco profissionalmente aproveitável na licenciatura em Ciências Sociais. Só que é aí que começa uma história que mistura dificuldade de me adaptar às demandas externas - do mercado e do governo - com o azar de ter tido um hiperfoco do qual nem o mercado, nem os poderes políticos estabelecidos gostam.

Cheguei a entregar currículos em escolas em São Paulo - pretendo me mudar para lá quando for possível -, mas nenhuma aceitou.

Soube depois, num grupo do Facebook intitulado “Ciências Sociais e o mercado de trabalho”, que apenas escolas públicas contratam licenciados em CS/Sociologia - mediante concurso público ou seleção simplificada de temporários. Escolas privadas designam professores com outras formações, como História e Geografia, para ensinar Sociologia no ensino médio.

Também não encontrei nenhum curso à distância de CS para ser tutor de EAD, nem em universidades públicas.

A oportunidade restante que eu teria de ensinar seria em faculdades privadas, onde eu ensinaria Fundamentos de Sociologia em cursos diversos. Mas elas requerem que o postulante à vaga tenha pós-graduação - e como já falei, não consegui entrar no mestrado.

E para piorar, as perspectivas para licenciados em Ciências Sociais são sombrias para os próximos anos, com a futura posse de Bolsonaro na presidência.

A Sociologia correrá um enorme risco de desaparecer das grades curriculares do ensino médio, por causa da pressão dos defensores do famigerado Escola Sem Partido.

E nas poucas vagas que restarem, a tendência é os professores serem vigiados por seus próprios alunos, de modo que não poderão mais expressar livremente suas opiniões políticas, nem ensinar a teoria marxista, um dos pilares da Sociologia, nem falar de temas caros a essa disciplina, como questões de gênero e orientação sexual.

Com isso, eu posso dizer que meu diploma de licenciatura em Ciências Sociais, no contexto atual, não tem nenhum valor para o mercado.

Meus hiperfocos atuais - e minha enorme dificuldade de mudar de foco


Com isso, restaram, profissionalmente falando, aqueles dois hiperfocos pelos quais eu tento construir meu sustento hoje: veganismo e ativismo neurodiverso.

Atualmente eu tento ganhar dinheiro comercializando meus dois livros (Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética e Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança), que não têm editora, em livrarias como o Clube de Autores, a Amazon e a Saraiva, e vendendo e-books, cursos e livros afiliados.

Só que, até o momento, o rendimento tem sido muito baixo - na média de poucas dezenas de reais por mês -, insuficiente para, por exemplo, pagar um curso bom de marketing digital e contratar serviços de design, ambos os quais impulsionariam minhas vendas.

Nem sequer consigo poupar e juntar essa mixaria, porque sempre aparece algum motivo para gastar, como a compra de meus remédios para a depressão e a Sìndrome de Tourette e a recarga de meu bilhete de ônibus e dos créditos do meu celular.

Diante disso, penso frequentemente que deveria tentar mudar meu hiperfoco para algo realmente aceito pelo mercado de trabalho - como, por exemplo, gestão de redes sociais de empresas ou trabalhos de design.

Só que essa tentativa de mudá-lo forçadamente tem rendido muito sofrimento. Desde o ano passado, tenho sofrido com uma depressão, atualmente controlada por medicamento antidepressivo e meditações diárias.

Afinal, não consigo aprender a gostar de nenhuma área profissional minimamente rentável, tenho que lidar com os ganhos ridiculamente baixos com meus livros e produtos afiliados e tenho visto meus sonhos serem sempre empurrados com a barriga por causa da falta de dinheiro e da quase inflexibilidade do meu hiperfoco.

Tenho procurado listas de nichos de mercado rentáveis, mas não consigo me inspirar em nenhum deles para trabalhar com marketing digital. Nenhum no qual pudesse investir tempo e conhecimento para, por exemplo, promover marketing de conteúdo.

E procurar um emprego lá fora?


A esta altura, alguém poderia me perguntar por que eu não procuro um emprego como vendedor, atendente de telemarketing ou promotor de eventos, para juntar dinheiro e fazer os investimentos que quero em marketing e design.

Eu até tive esse interesse no passado, mas minha vida trabalhando subordinado a empresas foi tudo menos bem-sucedida.

Para você ter uma ideia, a soma de todos os meus trabalhos remunerados sob uma empresa - sem contar a bolsa de iniciação à docência da UFPE - é de apenas oito meses em toda a minha vida.

Trabalhei como agente de pesquisa e mapeamento no IBGE e como redator numa agência de notícias. E nos dois casos eu acumulei traumas.

A incapacidade de perceber regras organizacionais não ditas, a dificuldade de manter o equilíbrio psicológico mediante pressão do chefe, o déficit de socialização com colegas de trabalho, o comportamento social considerado imaturo e inadequado pela empresa… Muitos fatores comumente sofridos por autistas leves me fizeram fracassar feio nas duas oportunidades. E o pior, sem sequer ter consciência do porquê de tudo aquilo acontecer.

Eu até poderia procurar um emprego temporário de vendedor, neste final de ano. Mas já concluí, ao passar por lojas do comércio recifense, que sofro sobrecarga sensorial em ambientes barulhentos e quentes, não consigo estabelecer uma boa relação com colegas de trabalho, teria sérias dificuldades de lidar com clientes como vendedor de loja, e meu déficit de linguagem não verbal me impede de me dar bem em entrevistas de trabalho.

Até poderia conseguir um trabalho adaptado para pessoas com deficiência. Mas precisaria de diagnóstico e laudo, algo que eu já falei aqui no blog que é um privilégio para poucos autistas adultos.

Conclusão


Essa é a minha atribulada história de tentativa de ganhar meu próprio dinheiro e me encaixar no mercado de trabalho. Uma história na qual, até o momento, não obtive sucesso.

Posso dizer que a maioria dos autistas adultos no Brasil passa por algo semelhante ao que eu tenho passado: muita dificuldade de se encaixar num curso universitário e num emprego, dificuldades de encontrar um trabalho apropriado sem um laudo de pessoa com deficiência, hiperfoco de difícil flexibilização que mais atrapalha do que ajuda a se inserir no mercado...

Minha luta para ter o meu próprio dinheiro continua, a muito custo e persistência. E infelizmente minha condição e as barreiras que a sociedade impõe a pessoas como eu têm me impedido de conseguir sucesso até o momento.

Espero, com este artigo, trazer para muitas pessoas a consciência que lhes falta sobre o quanto tem sido difícil para nós se encaixar nesse excludente mercado de trabalho.


Se você estiver sensibilizado a ponto de querer ajudar, apoie meu trabalho por meio do APOIA.se, e ganhará a versão digital de um ou dois dos meus livros como recompensa, a depender do valor mensal de seu apoio.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Um triste fato: autistas adultos não têm direito ao diagnóstico tardio no Brasil

O autista padrãozinho - criança cis masculina, branca, de classe média alta -, o único que atualmente tem amplo acesso ao diagnóstico de sua condição no Brasil
Algo que eu constatei, desde que me descobri e me assumi autista, é que, apesar de todos os avanços nos direitos dos autistas laudados nos últimos anos, infelizmente os adultos que se descobriram tardia e autonomamente com essa condição ainda não têm o direito ao diagnóstico formal - nem no SUS, nem em planos de saúde.

Hoje é absurdamente difícil um adulto que não seja rico conseguir um diagnóstico de autismo. E até o momento nenhum esforço vem sendo empreendido pelo poder público para sanar esse problema.

Por meio deste artigo, quero chamar você a ter consciência disso e nos ajudar a conquistar esse direito.

Um direito que ainda não existe


Hoje tem se tornado cada vez mais comum crianças terem acesso a um diagnóstico, por meio de mutirões como esse que aconteceu no Recife em 2018.

Isso é admirável, exceto pelo fato de que esforços como esse se limitam a crianças. Adolescentes e adultos continuam excluídos desse acesso.

Hoje em dia, o autista adulto precisa:
  • De dinheiro, pelo menos R$1.500, para pagar o número mínimo de consultas com um neuropsicólogo particular, para que ele faça um relatório a ser encaminhado a um psiquiatra para que este formalize o diagnóstico e o laudo de Condição do Espectro Autista;
  • De dinheiro também para pagar um plano de saúde - que tem sido cada vez mais difícil de se pagar - ou um psiquiatra particular que entenda de Síndrome de Asperger/autismo leve em adultos;
  • De sorte, para conseguir encontrar um neuropsicólogo especializado em autismo, que atenda autistas de todos os níveis e faixas etárias, alguém raro na maioria das cidades brasileiras;
  • De sorte também para encontrar um psiquiatra que aceite diagnosticar e laudar o autismo leve adulto, ao invés de discursar, com ignorância e preconceito, que o paciente “não é um autista de verdade” ou “não precisa” de um diagnóstico;
  • De um emprego ou trabalho autônomo para ter condições de pagar as consultas - sabendo-se que é imensamente mais difícil para um autista, mesmo aspie, se dar bem no mercado de trabalho do que para um neurotípico;
  • Alternativamente, de uma família de classe média-alta para ter condições de pagar essas consultas sem grandes percalços - haverá dificuldades imensas de se pagar se for de classe média-baixa;
  • De paciência e persistência para lidar com todas as desilusões advindas da procura de um neuropsicólogo e um psiquiatra devidamente capacitados.
Isso tudo porque nem mesmo na Lei Berenice Piana consta o direito ao diagnóstico adulto, apenas o precoce - ou seja, só de crianças na primeira infância.

Para piorar, a eleição de Jair Bolsonaro à presidência traz a perspectiva sombria de que não haverá nenhum avanço nessa questão nos próximos anos.

Como eu constatei que, como adulto, não tenho direito ao diagnóstico de autismo


Eu constatei esse triste fato desde o ano passado. Nem no SUS, nem no meu plano de saúde, encontrei profissionais que se dispusessem a confirmar clinicamente e diagnosticar minha Síndrome de Asperger.

Primeiro, li os relatos nos grupos de autistas no Facebook de pessoas que procuraram por neuropsicólogos e psiquiatras que atendessem autistas adultos no SUS e não acharam.

Alguns, aliás, contam que sofreram terríveis abusos ao buscarem atendimento no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de algumas cidades.

Segundo, eu mesmo procurei por profissionais capacitados no meu plano de saúde. Para o meu azar, não encontrei nenhum.

Pelo contrário, só achei psiquiatras capacitistas contra autistas leves adultos. Um me disse, na cara dura, que eu “não sou autista” porque “autistas não são capazes de falar e se expressar”.

E outro, após ler um enorme relatório que fiz sobre características autísticas manifestadas ao longo da minha vida, me falou, sem nenhum escrúpulo, que eu “não preciso” de um diagnóstico porque “levo uma vida normal” - ignorando todas as páginas inteiras de dificuldades e privações sociais que constavam nesse relatório.

Depois de mais de um ano e meio de procura, só achei profissionais com essa capacitação fora do meu plano de saúde, e contáveis nos dedos de uma mão no Recife.

E na minha situação de desempregado, com currículo fraco, totalmente dependente financeiramente dos meus pais, ganhando pouquíssimo com meus livros e produtos afiliados, só os deuses sabem quando conseguirei ter dinheiro para pagar um neuropsicólogo.

Tudo isso porque não tenho direito, como autista adulto, ao diagnóstico, e tudo indica que continuarei não tendo nos próximos anos.

Conclusão


Infelizmente a realidade é essa: o diagnóstico tardio de autismo é um privilégio para poucos no Brasil.

Não o temos assegurado como direito, numa realidade em que ainda se estereotipa o autista como aquele menino branco, do gênero masculino, de classe média-alta, com oito anos ou menos de idade.

Eu diria para lutarmos, por meio do movimento defensor da neurodiversidade, por esse direito. Mas isso ficará bem mais difícil com o governo autoritário que se avizinha, cujos representantes já deixaram claro que desprezam os direitos da maioria dos brasileiros.

Então, pelo visto, só me resta fazer, por meio deste blog, mais pessoas tomarem consciência disso e, quando for propício, defenderem que os aspies adultos passem a ser incluídos no direito ao diagnóstico na Lei Berenice Piana.

sábado, 3 de novembro de 2018

Por que o meme “O nível de autismo é de mais de oito mil” é muito capacitista

"Their autism level is over 9,000", versão em inglês do meme capacitista em questão
De vez em quando, um meme profundamente capacitista ressoa em fóruns e grupos virtuais de adolescentes e jovens adultos e em vídeos que pretendem ser de humor: “O nível de autismo é de mais de 8 mil” (ou, em inglês, “Their autism level is over 9,000”).

Se você o utiliza, saiba que ele é muito ofensivo para autistas e atribui à sua condição uma definição errada, pejorativa e injusta.

Saiba, neste artigo, por que eu sou totalmente contra o uso dessa frase como meme.

O capacitismo do meme do “nível de autismo”


Esse meme está presente em vídeos como esse e também em brincadeiras e trocas de insultos em grupos de jovens “zoeiros” na internet.

O “mais de oito mil” é uma referência ao meme de Vegeta, anti-herói e ex-vilão de Dragon Ball Z, que descobre o quanto o poder de Goku, o protagonista da franquia, é elevado.

Algumas pessoas adaptaram o meme, de modo que ele não mede mais o poder de luta de Goku, mas sim o “nível de autismo” de quem, por exemplo, argumenta a favor da crença na “Terra plana” ou fala algo profundamente estúpido.

Diante disso, eu gostaria de dizer que esse meme, a partir do momento em que o autismo entra no jogo, se torna capacitista e lança mão de um conceito totalmente errado dessa condição.

Ao contrário do que se fala nesse contexto, autismo não tem absolutamente nada a ver com falar coisas estúpidas e ser ignorante ou, segundo outra concepção capacitista, “retardado”.

O autismo envolve dificuldades de comunicação e compreensão de linguagem não verbal, hipersensibilidade a estímulos sensoriais, dificuldade e/ou desinteresse de socialização, dificuldade em entender regras sociais não verbalizadas, entre outros aspectos, que fazem da pessoa que o tem essencialmente uma pessoa com deficiência.

Nem sempre o autista tem o famigerado “retardo mental”, nem é um ignorante quadrado em temas como o formato do planeta Terra.

Aliás, pelo contrário, muitos autistas são superdotados, ou seja, pessoas com um nível de habilidades intelectuais muito elevado, e entendem de Astronomia mais do que 90% dos neurotípicos.

O problema é que mesmo esses autistas com intelecto privilegiado acabam sendo discriminados e socialmente excluídos porque, muitas vezes, seu comportamento não segue as normas sociais ocultas presentes no ambiente.

Ou seja, tendem a não se comportar como é de se esperar de jovens de sua idade. Por exemplo, um jovem autista de 20 anos pode se comportar como um menino de 14 anos em determinado ambiente, por não entender o padrão de comportamento dos jovens de sua idade e ter como referência comportamental seu próprio passado e pessoas mais novas.

Além disso, o autista pode ter um hiperfoco num assunto que não desperta o interesse da maioria dos neurotípicos, e tende a ter pouco interesse naquilo que é apreciado e falado em conversas pela maioria dos jovens.

Um exemplo disso é o autista que entende muito de Astronomia, tendo um conhecimento muito próximo de um pós-graduando nessa ciência, mas não se interessa em conversas sobre paquera, carros, futebol, hábitos de consumo, entre outros assuntos muito comuns entre pessoas de sua faixa etária.

Por isso infelizmente o autismo é muito confundido com “retardo mental”, “estupidez” ou “ignorância profunda”. Mal sabem as pessoas que fazem essa confusão que esse desconhecimento as faz fazer piada de uma deficiência - as dificuldades sociais e comunicacionais que os autistas costumam ter.

E fazer piada do autismo, com tiradas como “O nível de autismo é de mais de oito mil”, é comparável a fazer piada de um cadeirante porque ele não pode andar sem o auxílio de uma cadeira de rodas, de um cego por não poder enxergar ou de uma pessoa (não autista) com deficiência intelectual em função de sua condição. É capacitismo.

Conclusão


Agora eu espero que você compreenda por que é antiético e preconceituoso usar piadinhas como “O nível de autismo é de mais de oito mil” e se referir ao autismo como “retardo”, "estupidez" ou “ignorância absurda”.

Se a pessoa é ignorante sobre determinado assunto a ponto de achar que sabe tudo de algo que não conhece verdadeiramente, aborde a ignorância dela no debate. Não a confunda como um autista, que definitivamente não é uma pessoa ignorante nos assuntos que lhe interessam.

Respeite os autistas. Evite fazer troça de deficiências, sejam elas visíveis ou invisíveis.

Este artigo está fechado para comentários.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Por que é preconceituoso comparar moralidade atrasada e crenças contraditórias com autismo



Como vegano defensor dos Direitos Animais, tive a infelicidade, nos últimos anos, de ver parceiros da causa escreverem artigos comparando a contradição e atraso moral das pessoas não veganas com o autismo.

Além disso, vejo muitas pessoas usarem o termo preconceituoso “autismo moral” para se referir a esse tipo de problema.

Se você tem esse pensamento de que a contradição de crenças morais é comparável ao espectro autista, então eu gostaria de lhe mostrar que autismo não é isso.

Autismo é uma coisa, incoerência moral é outra


Antes de tudo, preciso esclarecer: autismo não tem nada a ver com ser uma pessoa de moralidade contraditória ou iníqua. O espectro autista não tem isso como significado.

Aliás, em muitos casos o autista pode ser mais coerente nos seus princípios éticos do que a grande maioria dos neurotípicos. Existem diversos autistas veganos defensores dos Direitos Humanos e Direitos Animais ao redor do mundo.

São pessoas que entendem que é contraditório defender uma causa e ao mesmo tempo ignorar ou desprezar outras.

Além disso, nada na definição clínica da condição do espectro autista aponta para uma tendência, por parte dos autistas, de serem pessoas moralmente incoerentes.

Pelo contrário, esse problema é algo muito presente entre a maioria dos neurotípicos - principalmente entre aqueles que se dizem “pessoas de bem” mas tratam o diferente de forma malvada, com descaso, preconceito e até ódio explícito.

E mais: muitas vezes em que um autista comete uma ação moralmente repudiável, é porque ele não sabe que aquilo é prejudicial e socialmente malquisto, uma vez que tem dificuldade de captar e entender regras morais e sociais que não são ditas verbalmente.

Já a maioria dos adultos neurotípicos, quando comete uma má ação, já sabe que aquilo é prejudicial e tem a intenção de fazer o mal em benefício próprio. Ou então o faz por ignorância.

Conclusão


Confundir autismo com atraso moral é nada além de capacitismo, ou seja, preconceito contra pessoas com deficiência.

Portanto, se você ainda usa termos como “autismo moral” para falar de iniquidades e incoerências morais, peço que reveja essa postura, em respeito a nós autistas.

Não queremos ser vistos como pessoas “incapazes” de entender a diferença entre o certo e o errado - que é a visão preconceituosa a que essa confusão leva.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O “leve” de “autismo leve” não significa que autistas leves passam por problemas leves

Gigante carregando pedra, de Annibale Sessa
Muitas vezes o termo “autismo leve”, que hoje denomina formalmente a Síndrome de Asperger, leva as pessoas a terem uma concepção equivocada da magnitude das nossas dificuldades enquanto autistas leves.

Acabam pensando que nossas dificuldades são “leves” em comparação aos dos autistas de grau mais severo. Que temos uma história de vida menos sofrida.

Quero mostrar para você, neste artigo, que isso não é verdade. Nossos problemas são bem mais pesados do que a “brandeza” do nosso autismo pode deixar a entender.


Os problemas de vida que o termo “autismo leve” pode acabar ocultando


Apesar de termos menos necessidade de acompanhamento e auxílio de outras pessoas do que os autistas de grau 2 (moderado) e 3 (severo), temos dificuldades bastante proeminentes em nossas vidas.

Listo a seguir algumas delas:
  • Nossas possibilidades de arranjar um emprego duradouro - ainda mais numa época de flexibilização e retrocesso dos direitos trabalhistas como a atual - são muito mais reduzidas do que as dos neurotípicos, mesmo em momentos de crescimento econômico. Afinal, muitos de nós têm uma dificuldade extrema de se encaixar em trabalhos fora dos nossos hiperfocos e pessoas como eu têm o azar de ter hiperfoco em vocações que o mercado não valoriza ou estão em crise;
  • Tendemos a sofrer bullying e discriminação por simplesmente sermos quem somos e incidirmos em comportamentos que não são benquistos pelos neurotípicos;
  • Nossas dificuldades de comunicação, entre elas a de entender linguagem não verbal, figuras de linguagem e más intenções disfarçadas, limitam muito a nossa capacidade de nos relacionarmos com a maioria das pessoas e nos defendermos de pessoas de má índole;
  • Na nossa tentativa de nos relacionar com os neurotípicos, somos forçados a tentar ter uma precaução extrema em não incidir em comportamentos que eles considerem indesejáveis, algo comparável a desviar de espinhos e buracos num caminho totalmente escuro;
  • Muitas vezes acabamos forçados a tentar nos adaptar à sociedade neurotípica, emulando desengonçadamente os comportamentos dos neurotípicos e na maioria das vezes fracassando e sendo excluídos;
  • Nossa hipersensibilidade a estímulos sensoriais atrapalha muito a nossa vida. É comum um autista leve ter dificuldade de curtir um show de rock, desfrutar da comida em um restaurante onde o cheiro de carne assando é muito forte, prestar atenção numa reunião onde várias pessoas estão falando ao mesmo tempo, permanecer em muitos lugares onde os neurotípicos ficam à vontade etc. Não raro, o autista pode acabar tendo sérias crises nervosas, os meltdowns, por causa da sobrecarga sensorial;
  • A exclusão social à qual acabamos submetidos, a hostilidade que sofremos no dia-a-dia, as repreensões, os maus olhados alheios etc. não raro nos levam à depressão, ao transtorno de ansiedade, à síndrome do pânico, entre outros transtornos mentais, e ao isolamento social;
  • Nossa dificuldade de fazer e manter amizades pode nos condenar a uma vida de solidão, períodos prolongados de ausência de amigos próximos, decepções amorosas uma atrás da outra e pouco ou nenhum networking profissional.

Considerações finais


Fica claro que nossa vida é muito marcada pelos mais diversos sofrimentos, percalços e privações. Não é porque somos autistas leves que os problemas que temos em função desse tipo de autismo também são brandos.

Precisamos que as pessoas tenham consciência disso. O desconhecimento delas sobre os problemas pelos quais passamos acaba fazendo-as nos discriminar e agravar nosso sofrimento sem que percebam. Ou seja, induzindo-as a fazer de nós autistas leves de problemas severos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Se você tem grande parte dessas características, então muito provavelmente também é autista leve



Muitas pessoas, sem acesso a neuropsicólogos e psiquiatras que entendam de Síndrome de Asperger, não sabem que são autistas.

Tem muita gente que passa a infância e a adolescência, se torna adulta, envelhece e até falece sem ter consciência de sua condição, do porquê de ser/ter sido uma pessoa tão diferente dos neurotípicos. Foi o meu caso até os 30 anos de idade.

Tendo esse sério problema psicossocial (o desconhecimento da condição, não ela em si) em vista, eu quero ajudar você a se conhecer melhor e se redescobrir.

Trago a seguir uma lista de características típicas de autistas aspies. Confira por meio dela se você também é um de nós.


Será que você também é autista aspie? Confira quais comportamentos dessa lista você tem


Se você tem boa parte ou a maioria (estimo que pelo menos 40%) dessas características:
  • Tem dificuldades sérias de socialização, ou mesmo falta de interesse de participar da maioria dos eventos sociais com família, parentes e amigos;
  • Tem dificuldade de fazer e manter amizades, podendo até ter desistido de ter amigos;
  • É muito introvertido, ainda mais do que a média;
  • Não vê graça em muitos costumes culturais que a nossa sociedade costuma valorizar e envolvem socialização e extroversão, como festas, bebidas alcoólicas, futebol, reuniões de família, baladas etc.;
  • Costuma viver socialmente isolado;
  • Não consegue perceber, nem entender, regras sociais implícitas, que não costumam ser reveladas verbalmente;
  • Possui uma enorme dificuldade, ou mesmo inabilidade, de manter contato visual com outras pessoas, mesmo se for o amor da sua vida - e sente-se mal quando tenta se forçar a olhar nos olhos da outra pessoa por mais do que alguns segundos;
  • Tem ou teve uma enorme dificuldade de encontrar um(a) namorado(a) com quem tenha um relacionamento estável, por motivos como dificuldade de paquerar e entender a linguagem não verbal dos(as) pretendentes, ser preterido por ter comportamentos socialmente indesejados ou ser considerado “esquisito” ou “anormal” etc.;
  • Possui um interesse muito forte, o hiperfoco, num único tema ou em poucos temas - ex.: Astronomia, História Antiga, Sociologia, Robótica, Evolução, Ecologia, Matemática, dinossauros, xadrez, música erudita, ferrovias, Veterinária, Computação, Geologia, Artes Plásticas, moda etc.
  • Esse hiperfoco dura a vida inteira ou você costuma mudar de hiperfoco periodicamente;
  • Tem um senso de humor excêntrico, como rir ao jogar videogame de maneiras bizarras (ex.: jogar games de futebol para fazer gols contra e expulsar jogadores, jogar games de ação para matar o protagonista repetidas vezes, jogar games de luta para apanhar ao invés de vencer os adversários), gargalhar com falas nas quais “normalmente” não se vê valor humorístico, contar piadas que para os neurotípicos fazem pouco ou nenhum sentido, rir de cenas “normalmente” não humorísticas (ex.: ao ver o protagonista de um anime japonês de luta apanhar) etc.;
  • Faz sons de ecolalia - ex.: repete sozinho palavras que para você soam interessantes ou engraçadas, imita rosnados ou grunhidos, imita peidos com a boca, imita a sonoplastia de um soco, repete alguns sons ou falas rápidas que ouve…;
  • Tem muita sensibilidade a ambientes barulhentos, com muita luz, com cheiros fortes (sejam perfumados, neutros ou desagradáveis) e/ou com muitas pessoas falando em voz alta ao mesmo tempo;
  • Tem muita sensibilidade ao toque, a abraços, a etiquetas de vestimentas, à textura do tecido ou malha que compõe a roupa, ao toque do cabelo na pele etc.;
  • Tem aversão a estampas posicionadas de certas maneiras na camisa - como por cima dos dois peitorais;
  • Sofre ou sofreu preconceito e até bullying por ser considerado “esquisito”, “doido”, “retardado”, “anormal”, entre outros impropérios motivados por ódio às diferenças psicológicas;
  • Tem dificuldades de entender ironias e figuras de linguagem;
  • Tem dificuldade de saber quando alguém fala algo brincando ou sério;
  • Tem muita sensibilidade a situações de conflito próximas, como pessoas brigando ou falando com raiva;
  • Tem baixa tolerância à frustração - como quando o computador, celular ou tablet está muito lento e dando erros, algum acontecimento frustra expectativas positivas suas, seus pais proíbem você de algo etc. -, sentindo uma enorme raiva ou tristeza diante de situações do tipo;
  • Expressa emoções de maneira fraca ou mesmo não consegue expressar algumas emoções, como euforia ao ganhar um prêmio valioso num concurso ou loteria ou ao ver o seu time de futebol conquistar um campeonato nacional, tristeza e dor quando um ente querido morre, paixão romântica etc.;
  • Tem um comportamento considerado imaturo para a sua idade - ex.: você tem 25 anos, mas pessoas próximas dizem que você se comporta como um adolescente de 16;
  • Possui uma ou mais condições neuroatípicas coexistentes ao seu provável autismo, como Síndrome de Tourette, TDAH, TOC, fobia social, dislexia, transtorno de ansiedade, transtorno opositivo-desafiador, déficit da função executiva etc.;
  • Começou a falar tardiamente, com três ou mais anos de idade - neurotípicos costumam começar a falar com cerca de um ano e meio;
  • Tem uma sinceridade excessiva e desmedida, cometendo com certa frequência os chamados “sincericídios” e passando por situações de constrangimento e cortes de relações por causa disso;
  • Tem dificuldades acima da média de tolerar pressão de chefes e supervisores em empregos;
  • Tem dificuldades de entender e usar linguagem não verbal, como postura, gestos manuais, movimento dos olhos, expressão facial etc.;
  • Tem uma maneira “científica” de criar empatia por alguém - por exemplo, precisa imaginar como a pessoa sofre em situações adversas para poder entender o sofrimento dela e, só assim, manifestar sua compaixão;
  • Precisa ter um comportamento muito diferente do que lhe é natural quando interage com pessoas - por exemplo, em situações sociais, finge ser mais simpático e comunicativo ao falar com outras pessoas. Ou seja, metaforicamente falando, precisa vestir uma máscara de neurotípico para aumentar suas chances de se comunicar bem;
  • Tem comportamentos antissociais e isolacionistas desde a primeira infância;
  • Tem os chamados stims, considerados “estereotipias” ou “manias” pelos neurotípicos, como balançar os pés ou as pernas, agitar as mãos, dar pulinhos quando está só, bater os dedos um no outro perto do ouvido, fazer tiques faciais etc., manifestando-os para aliviar o estresse ou expressar alguma emoção significativa;
  • Gosta de ouvir um mesmo som repetidas vezes, obtendo prazer com isso - ex.: um personagem detestado de anime de luta apanhando e gemendo, carros batendo, telefone desligando com força, explosão de um game específico etc.;
  • Sente mal-estar e sobrecarga sensorial em lugares e eventos lotados, como ônibus e trens, manifestações de rua, baladas, eventos sociais, estádios de futebol, carnavais etc.;
  • Tem crises nervosas, ou se isola numa espécie de concha invisível, em situações de sobrecarga sensorial ou estresse excessivo;
  • Sente que o modelo tradicional de ensino escolar e universitário não rende um bom aprendizado para você;
  • Não gosta de Educação Física, nem de praticar esportes;
  • Tem uma coordenação motora mais precária do que a média;
  • Tem comportamentos muito contrastantes em certas situações: por exemplo, sente-se um(a) menino(a) imaturo(a) em situações de socialização e conversas sobre temas que não lhe interessam, mas discursa como um gênio supermaduro com anos de estudo quando o tema da conversa é seu hiperfoco/um dos seus hiperfocos;
  • Tem um currículo profissional muito pobre, com pouquíssima experiência profissional e vocação extremamente restrita e inflexível, tendo uma enorme dificuldade de encontrar um emprego por causa disso;
  • Não se interessa, ou tenta se interessar mas não consegue, em fazer cursos que não correspondem ao seu hiperfoco;
  • Tem uma vida repleta de rotinas bem regradas, e se sente mal quando alguma rotina é inesperadamente quebrada;
  • Precisa planejar quando vai sair de casa para ir a algum lugar - como um shopping ou um restaurante - e não gosta de marcar compromissos surpresa (por exemplo, quando algum amigo liga e diz que vai sair daqui a uma hora);
  • Tem um gosto musical muito restrito - por exemplo, só ouve rock e metal, ou só música new-age e erudita, ou só forró e pagode etc., não conseguindo gostar de outros ritmos;
  • Tem uma expressão facial geralmente neutra ou pouco intensa;
  • Tem um passado cheio de traumas, sente que não viveu e não está vivendo a vida em sua plenitude;
  • Sente que é diferente da maioria da sociedade, mas não sabe por quê;
  • Já tentou parecer mais “normal” e “igual” aos neurotípicos, mas nunca conseguiu manter essa aparência por mais do que algumas horas ou dias e não sabe por que não consegue;
  • Recebe, com certa frequência, reprimendas e/ou “tirações de onda” de amigos e parentes por comportamentos socialmente indesejados;
  • Possui hábitos anti-higiênicos, como cheirar “cecê” das axilas ou a cera dos ouvidos e tomar banho com frequência abaixo da socialmente aceita;
  • Tem uma dificuldade de se emancipar materialmente dos pais muito maior do que a dos neurotípicos, podendo ter mais de 30 ou 40 anos de idade e ainda morar com eles e depender deles financeiramente, mesmo num contexto de ausência de crise econômica;
  • Tem uma vida universitária instável, com desistências, trancamentos, mudanças de curso, reprovações frequentes e/ou fracassos em vestibulares e exames de pós-graduação;
  • Tem frequentemente a sensação de que não se encaixa no mundo;
  • Tem muita dificuldade de se defender de pessoas falsas, traiçoeiras, manipuladoras e tóxicas e não consegue saber quando um “amigo” é falso;
  • Não consegue entender muito bem por que os neurotípicos de nossa cultura possuem certos costumes, como o apego a bens materiais, a competição meritocrática e a necessidade de se autoafirmar perante a sociedade;
  • Tem dificuldade de se defender de insultos e agressões;
  • Já foi discriminado, repreendido e/ou insultado diversas vezes por manifestar comportamentos socialmente indesejados;
  • Tem um jeito desengonçado de caminhar e correr;
  • Tem uma coordenação motora bastante imperfeita;
  • É superdotado e tem conhecimentos típicos de alguém muito estudioso no(s) seu(s) hiperfoco(s);
  • Prefere ficar na biblioteca lendo/estudando a interagir com colegas de classe;
  • Costuma ser muito coerente em termos de ética e moralidade e questionar por que a maioria dos neurotípicos é tão incoerente e contraditória;
  • Tem um medo exageradamente grande ou admiravelmente pequeno da opinião alheia sobre você;
  • Obteve um escore tendente à neurodiversidade no Aspie Quiz;
  • Tem um raciocínio lógico muito avançado;
  • Costuma ter um tom de voz neutro, pouco ou nada passível de modulações,
Então tudo indica, ou no mínimo há uma probabilidade notável, que você também é um autista leve que até então nunca se descobriu assim e nunca recebeu o devido diagnóstico.


Grande parte das características dessa lista batem com quem eu sou! O que fazer agora?


Se você e sua família tiverem condições financeiras de arcar com o custo das consultas com um neuropsicólogo, procure um que entenda de Síndrome de Asperger em adolescentes e adultos.

Ele irá, com os devidos testes clínicos - que não passam por exames físicos cerebrais, salvo se houver a intenção de descartar outras condições neurológicas -, confirmar que você é autista leve e encaminhá-lo a um psiquiatra, que irá redigir o diagnóstico definitivo e o laudo autístico.

Com o laudo em mãos, você passará a desfrutar de todos os direitos que pessoas com deficiência possuem. Afinal, o autismo leve é uma deficiência invisível, de cunho psicossocial, que acaba nos limitando em muitas coisas na vida - ainda que tenda a nos fazer ser, por exemplo, mais sinceros, mais leais, mais eticamente coerentes, mais questionadores, mais inteligentes, entre outras vantagens.

E se você não tiver o dinheiro para isso, a alternativa será você ler e aprender mais sobre a Síndrome de Asperger, a identidade social autista/aspie e, com a devida identificação sua com as características centrais e muitas das secundárias da condição, assumir-se autista para o mundo. Tal como foi o meu caso em 2017.

E uma observação: provavelmente seu diagnóstico será de autismo leve, não Síndrome de Asperger nominalmente falando, já que este termo caiu em desuso no CID-11 e no DSM-5.


Conclusão


A lista trazida por este artigo pode ser aquilo que faltava para você (re)descobrir quem você realmente é, e por que é quem é.

Digo isso porque, se eu mesmo tivesse tido acesso a esta lista nos anos em que eu não sabia da minha condição, eu teria me descoberto aspie muito mais cedo.

Eu espero que este artigo tenha sido um divisor de águas, aquilo que fará ou fez você descobrir aquilo que até então nenhum psicólogo ou psiquiatra havia descoberto em você: que é autista leve.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sobre o bullying virtual capacitista que sofri na década de 2000


Aviso de conteúdo: Este artigo relata bullying e pode acionar traumas em vítimas presentes ou passadas desse tipo de violência.

Aviso: Este artigo não está aberto para comentários.

Por vários anos na década de 2000, entre 2004 e 2009, sofri bullying virtual de membros de um fórum do qual participei entre 2003 e 2005. O motivo: ódio capacitista.

Ironicamente, fui chamado de “autista” como xingamento, dezenas de vezes naquele período, e acabaria realmente me descobrindo como autista na década seguinte.

Conheça um pouco dessa triste história que consegui superar em grande parte, mas me faz, até hoje, relutar em vestir de corpo e alma o “rótulo” de autista.

Um pouco de como foi aquela época


O fórum, cujos nomes eu não pretendo revelar e mudou de endereço algumas vezes na época, funcionou na década de 2000 - e não sei se continua ativo hoje.

Em 2003, na minha imaturidade adolescente e falta de conhecimento sobre o perigo psicológico que maus lugares da internet podem proporcionar, aderi a esse fórum com um impronunciável nicknameHrrr” - que é o grunhido que o vocalista Jonathan Davis, da banda de nu-metal Korn, faz ao final da música Lies.

No começo até não havia tanta gente contrária à minha presença. A situação começou a piorar a partir de dezembro daquele ano, quando eu enviei repetidas mensagens privadas a uma mulher membro do fórum que eu achava que era minha amiga. Ela se revoltou e passou a me ver com muito desgosto, o que me causou tristeza e me fez abandonar o fórum por uns dois meses.

Só voltei depois que ela veio pedir desculpas para mim. Mas o fórum que eu encontraria, a partir de fevereiro de 2004, seria um lugar de muito ódio, onde minha pessoa não era bem vinda. Onde eu receberia insultos e declarações de antipatia frequentemente, quase diariamente.

Fui muito xingado ao longo dos 14 meses que eu ainda “convivi” virtualmente com os membros daquele fórum.

Mas, na minha dificuldade autística de criar amor próprio e diante da ausência de amizades regulares já naquela época (até então, só tive amigos próximos com convívio diário no ensino médio, que havia encerrado no final do ano letivo de 2003), acabei optando por continuar me sujeitando a tudo aquilo, e não reconhecendo que aquilo podia me fazer muito mal.

Fui muito xingado de autista, mas não em função da minha condição neuropsicológica, mas sim por passar por “retardado” segundo a mentalidade bully dos membros daquele fórum. Também recebi “nomes” como bicha, retardado, mongol, mongoloide etc.

Quase todos os membros ativos daquele fórum me odiavam. Poucas pessoas me aceitavam como colega.

Esse ódio era reafirmado toda vez que eu me comportava de maneira imatura, “esquisita”, de uma maneira que a grande maioria dos membros ativos se recusava a aceitar e tolerar.

A gota d’água foi em abril de 2005, a menos de duas semanas do meu ingresso no curso de Jornalismo na UFPE - do qual acabaria desistindo apenas dois meses depois. Alguém do fórum usou meu nickname e se passou por mim para assediar uma blogueira.

Eu só soube disso depois que o namorado dela veio revoltado ao meu então blog pessoal - o “Blog do Hrrr”, que não tinha relação com os blogs que tive e tenho desde 2008 - reclamar do assédio.

Então, eu finalmente tomei a decisão que devia ter tomado muito tempo antes: abandonei o fórum onde, por mais de um ano, fui tratado como lixo. Mas ali foi só o começo do cyberbullying que sofreria.

Nos comentários do Blog do Hrrr, nos fóruns em que participei nos anos seguintes, no Fotolog que eu mantinha etc., recebia mensagens de ódio, sendo chamado de diversos adjetivos depreciativos, sendo “autista” o principal xingamento.

Fui obrigado a abandonar o fórum Religião É Veneno (infelizmente eu era neoateu na época) e me desfazer do meu blog pessoal e do meu Fotolog por causa do constante assédio que sofri.

Só depois que abandonei o nickname “Hrrr” e desisti de participar de fóruns virtuais fora do Orkut, em junho de 2007, é que o bullying virtual começou a diminuir gradativamente.

Mas ainda assim, mesmo no extinto Consciência Eferverscente, ainda recebi umas duas vezes mensagens insultuosas de algum membro daquele fórum. Fui reconhecido como “Hrrr” quando participava de comentários de um blog “de ceticismo” (que abandonei por causa do antiveganismo do dono). O perfil do Twitter do fórum que havia abandonado ainda veio falar comigo me “convidando” a falar de bullying contra autistas - sendo prontamente bloqueado.

O assédio chegou ao fim, pelo menos por enquanto, depois que a mulher que eu acreditava ser minha amiga daquele fórum tentou me adicionar no Facebook e me chamar para o grupo de membros daquele fórum no Face. Recusei a adição dela e o convite, ignorando-a.

É possível que, caso algum membro daquele fórum tenha conhecimento deste artigo, os xingamentos voltem temporariamente. Mas hoje eu sou uma pessoa mais madura e resiliente do que fui naquela triste época.

Conclusão

Acredito que todo autista leve tem uma história triste de bullying, seja ele presencial/escolar ou virtual, para contar. Eu não fui exceção, porque sofri esse tipo de violência por diversos anos.

É fato: ser autista no mundo de hoje, de tantas crianças, adolescentes e adultos reacionários e autoritários, metidos a “politicamente incorretos” e fãs de “humoristas” bullies profissionais, ainda é motivo para ser hostilizado, rejeitado, verbalmente violentado. Porque a sociedade ainda não está pronta para aceitar, defender e respeitar os direitos e a dignidade de pessoas como nós.

Pois essa é a minha história. E espero que ela influencie, de alguma maneira, na conscientização de quem ainda não se reconhece autista ou não tem muito conhecimento sobre o universo do autismo. Que traga uma lição para que se reconheça mais a importância de combater, nas escolas e na internet, essa crueldade que é o bullying.

domingo, 21 de outubro de 2018

Uma lista de características minhas que me fazem ter certeza, mesmo sem diagnóstico, de que sou autista

Este artigo relaciona diversas características autísticas minhas com os parâmetros que o DSM-5 determina para se considerar alguém clinicamente autista
Como este blog revela, sou autista e me assumo assim, mesmo sem um diagnóstico formal.

E tenho dezenas, para não dizer literalmente centenas, de indícios de que essa, e não a neurotipia, é minha condição.

Convido você a conhecer uma parte dessas características, como elas se encaixam com a sintomatologia do DSM-V para o Espectro Autista, e ter um pouco mais da ideia da importância de autistas adultos conquistarem o direito ao diagnóstico e acompanhamento.

Como algumas de minhas características batem com a definição do DSM-V para o Espectro Autista


1. Déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas interações sociais, manifestadas de todas as maneiras seguintes:

a. Déficits expressivos na comunicação não verbal e verbal usadas para interação social;


Exemplos no meu caso:
  • Dificuldade ou incapacidade de entender comunicação não verbal;
  • Propensão ao “sincericídio”;
  • Dificuldade de entender ironias ou brincadeiras verbais;
  • Dificuldade de contato visual;
  • Baixa habilidade de gesticular com as mãos etc.
b. Falta de reciprocidade social;
  • Dificuldade extrema, alternada com desinteresse, de socialização com neurotípicos;
  • Tendência a fazer e manter amizades apenas com quem tem muitas semelhanças de gostos e preferências político-ideológicas comigo;
  • Dificuldade de interagir em rodas de conversas;
  • Dificuldade de entender ironias ou brincadeiras verbais;
  • Dificuldade ou incapacidade de perceber e entender normas sociais não ditas;
  • Desatenção a padrões de vestimenta;
  • Histórico notável, até 2012, de paqueras fracassadas e paixões não correspondidas etc.
c. Incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade apropriados para o estágio de desenvolvimento.
  • Carência crônica de amigos próximos;
  • Isolamento social crônico semivoluntário;
  • Desejo frustrado de fazer e manter amizades duradouras;
  • Networking profissional precário;
  • Sincericídios que impediram, no passado, o estabelecimento de alianças no meio vegano e limitavam minha permanência em grupos etc.
2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades, manifestados por pelo menos duas das maneiras abaixo:

a. Comportamentos motores ou verbais estereotipados, ou comportamentos sensoriais incomuns;

  • Sentir prazer em ouvir múltiplas e repetidas vezes os mesmos sons esquisitos, como Seiya (d’Os Cavaleiros do Zodíaco) ou Seu Madruga apanhando, telefone batendo na cara de Mução (quando eu ouvia as pegadinhas dele) etc.;
  • Stims como ouvir os dedos batendo um no outro perto do ouvido;
  • Tiques: a Síndrome de Tourette é uma condição coexistente ao meu autismo;
  • Ecolalias, como ao imitar Seiya gemendo e fazer sons sonoplásticos de socos com a boca;
  • Hipersensibilidade a ambientes barulhentos e muito quentes e cheiros fortes;
  • Provável hipossensibilidade gustativa, preferindo comer alimentos muito adoçados ou muito temperados;
  • Hipersensibilidade a situações de estresse, briga e conflito etc.
b. Excessiva adesão/aderência a rotinas e padrões ritualizados de comportamento;
  • Querer que minha namorada repita os carinhos verbais que eu dirijo a ela - senão começo a sentir desconforto;
  • Manutenção de uma rotina diária de ligar o computador após acordar;
  • Escovar os dentes sempre da mesma maneira;
  • Dificuldade de trabalhar em outras coisas que não a escrita no computador ou o estudo;
  • Dificuldade de aderir a programas de lazer sem planejamento prévio etc.
c. Interesses restritos, fixos e intensos.
  • Hiperfoco no veganismo e nos Direitos Animais;
  • Dificuldade de me interessar em estudar disciplinas que caem em concursos públicos e de aprendê-las;
  • Dificuldade de me interessar em vocações com elevada empregabilidade;
  • Sensação de estar “preso” à vocação da produção de conteúdo sobre Ética Animal;
  • Coleção de livros de ciências humanas;
  • Gosto elevado pela leitura e pelo estudo etc.
3. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades.
  • Desde a infância tenho esses comportamentos;
  • Sempre fui uma criança isolada e antissocial;
  • Sempre tive dificuldades de socialização;
  • Tenho tiques desde os 7 anos;
  • Só aprendi a falar aos 3 anos de idade;
  • Sempre tive uma caligrafia “feia”;
  • Desde os 3 ou 4 anos sou reconhecido como superdotado etc.
Fonte da descrição do DSM-V para o Espectro Autista

Conclusão


De fato tenho muitas características que me fazem perceber que tenho a Síndrome de Asperger, o autismo leve. E mais: as que eu listei acima são menos de 10% de todas as características que eu tenho.

Agora eu posso dizer que você me conhece um pouco mais - algumas de minhas dificuldades e esquisitices.

E, caso você seja autista, mãe/pai de autista(s) ou aliado da bandeira da neurodiversidade, lhe digo que será um prazer lutarmos no mesmo lado pelo direito ao diagnóstico e acompanhamento de autistas adultos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Um pouco de minha vida enquanto alguém que não sabia ser autista

"Eu estive esperando no escuro/Por tanto tempo..." - música da abertura dos vídeos do canal de Amythest Schaber
Até hoje sofro bastantes privações sociais por ser autista leve - tanto pela discriminação e intolerância quanto pelo meu déficit de socialização. Mas no passado eu as sofria sem saber por quê.

Como dizia a música que toca nos vídeos de Amythest Schaber, “eu estive esperando no escuro, por tanto tempo”. Pois na escuridão do desconhecimento de minha condição eu sofri bastante.

Convido você a conhecer um pouco do sofrimento que um autista leve que desconhecia sua própria condição sofreu ao longo de sua vida.

Uma lista de momentos constrangedores e difíceis que sofri em função de desconhecer o que/quem eu realmente era


Atualizado em 23/10/2018

  • Aos quatro anos de idade, psicopedagogos descobriram que eu era superdotado. Mas nenhum profissional da psicologia ou das neurociências descobriu meu autismo - até hoje. Não por eu não ter essa condição, mas sim porque, na minha infância, nunca tive contato com um especialista em autismo infantil, e na vida adulta nunca encontrei um especialista em autismo adulto leve conveniado aos planos de saúde que tive e tenho;
  • Nunca tive interesse genuíno e espontâneo de me entrosar com os amigos do meu irmão, alguns dos quais tinham/têm a mesma idade que eu. Geralmente era ou, na infância, por pressão de meus pais, que se sentiam mal de me ver crescendo como uma criança isolada e antissocial, ou, já na vida adulta, por desejo de me tornar mais sociável;
  • Na infância, até os 10 anos de idade, eu não tinha o menor interesse de fazer amizades. E era, de fato, ignorado por praticamente todos os colegas de classe - e sofria bullying de uns dois meninos -, tanto por ser bem mais jovem que eles, considerando que até a sexta série do ensino fundamental eu era dois anos adiantado em comparação com a maioria das crianças, quanto por meus comportamentos esquisitos;
  • Naquela época, ficava isolado na escola, comendo meu lanche sentado na escada que levava ao primeiro andar, e não tinha nenhum desejo de perguntar ou falar nada para outras crianças, tampouco de brincar;
  • Em duas escolas diferentes, passei vergonha diante de muitos outros alunos porque a camisa do fardamento tinha estampa no peito, do jeito que eu mais odiava (e odeio até hoje), e eu puxava ou entortava a gola da camisa para tentar tirar de cima do peito a estampa;
  • Por diversas vezes na infância, crianças neurotípicas me perguntaram, sem nenhum escrúpulo, se eu era "doido";
  • Nenhuma escola por onde passei me via como um potencial autista que precisava de acompanhamento. Afinal, a década de 90 era uma verdadeira Idade Média para autistas leves, e parecia que somente autistas moderados e severos tinham seu autismo reconhecido;
  • Aliás, nenhuma escola pela qual passei no antigo pré-escolar e no ensino fundamental e médio, tanto pública quanto privada, tinha o mínimo de preparo para incluir e atender alunos autistas - nem os leves, nem os de níveis mais severos;
  • Por muitos anos, até me aproximar da minha atual namorada Danielle, sofri com a carência afetiva, com a ausência de uma namorada. Tentei paquerar muitas vezes, mas, antes de Danielle, nunca fui reciprocamente aceito. Apenas duas mulheres manifestaram um desejo perceptível por mim, mas eu não lhes correspondia. Houve uma terceira com quem eu até fiquei por pouco menos de um mês, mas não havia uma reciprocidade verdadeira e não evoluiu verdadeiramente para um namoro, apesar de meus sentimentos;
  • Antes de Dani, minha juventude foi severamente marcada por uma necessidade intratável de ter uma namorada. Deixei de curtir o momento presente por muitos anos na expectativa de que só seria feliz de verdade namorando. Eu definitivamente não era do tipo que sabia curtir a solteirice - até porque, na nossa sociedade, geralmente só se consegue ser um solteiro feliz quando a pessoa tem amigos próximos e presentes, e só tive amigos próximos no ensino médio e em dois cursos superiores (no caso destes últimos, era apenas um amigo em cada curso);
  • Minha mãe, antes de eu assumir minha condição autística à família, costumava dizer que eu "não tive infância, nem adolescência, nem juventude". Não fazia ideia do porquê eu "optava" por não curtir a menoridade da maneira aceita pelos neurotípicos;
  • Por muitas vezes fui repreendido por amigos em função de comportamentos socialmente desagradáveis. E não entendia por que meus comportamentos não agradavam, uma vez que características muito comuns na Síndrome de Asperger são não conseguir decodificar regras sociais sutis, não ditas, até ser punido ou repreendido por quebrá-las, e o autista não conseguir entender a reação negativa dos neurotípicos aos seus comportamentos;
  • Uma vez fui expulso do voluntariado de numa agência de notícias porque abri um tópico, na comunidade dela no Orkut, criticando a linguagem que alguns jornalistas usavam em suas matérias. Não havia percebido que uma regra social sutil em empresas é evitar fazer críticas abertas desse tipo, sob pena de demissão ou expulsão. Só fui readmitido como voluntário nessa agência dois anos depois;
  • Também perdi um emprego por não conseguir perceber regras sociais ocultas. Nesse caso foi no IBGE, onde tive meu contrato temporário de agente de pesquisa rescindido por acreditar ingenuamente que seria cobrado ou advertido, e não sumariamente demitido, por empurrar com a barriga tarefas de trabalho;
  • Nunca consegui me dar bem em entrevistas de emprego. Apesar de achar, na hora, que estava me dando bem, estava na verdade tendo uma comunicação não verbal (gestos, posição das mãos e das pernas, postura da coluna e do rosto, tom de voz etc.) deficiente, que não agradava a nenhum entrevistador. E, é claro, nem eu nem o entrevistador sabíamos de minha condição;
  • Meu networking sempre foi muito pequeno, mesmo com 10 anos (hoje) de experiência como blogueiro, e nunca consegui expandi-lo satisfatoriamente. Ele está restrito, até hoje, a alguns poucos colegas, com quem às vezes é difícil ter contato;
  • Nunca consegui expandir satisfatoriamente meu currículo. Sempre me faltou interesse e desejo de fazer cursos profissionalizantes e mesmo cursos acadêmicos menores dentro de cursos universitários (ex.: um curso de marxismo ou educação ambiental dentro de um curso superior de Ciências Sociais). E minha experiência profissional é baixíssima, tendo trabalhado em empresas por menos de nove meses somados ao longo de toda a vida; 
  • Meu déficit de empregabilidade persiste até hoje. Posso dizer que, com 31 anos de idade atualmente, tenho o currículo de um adolescente de 18, considerando que meus dois diplomas de cursos superiores (tecnologia em Gestão Ambiental e licenciatura em Ciências Sociais) têm um valor extremamente baixo e marginal na nossa economia e sociedade;
  • Por muitas vezes tentei criar em mim o desejo de fazer cursos gratuitos que me permitissem ganhar dinheiro em trabalhos assalariados ou autônomos (ex.: montagem e manutenção de computadores e celulares, design de interiores, vendas etc.), mas nunca consegui realmente senti-lo;
  • Sempre fui muito “preso” à minha atual vocação de comunicador por blogs, redes sociais e canais de vídeo (fui um youtuber de pequeno alcance até 2015, e condiciono minha volta ao YouTube à manutenção da nossa democracia) e ao interesse de ser sociólogo. Nunca consegui, de maneira nenhuma, me interessar em trabalhos mais lucrativos, como empreender ou fazer cursos superiores mercadologicamente mais promissores. Apenas a partir de 2018 é que comecei a empreender em vendas afiliadas, mas num nicho que desde vários anos atrás já era o meu - o vegano;
  • Ao longo dos meus anos na licenciatura em Ciências Sociais, eu fui uma pessoa isolada, pouco sociável, e não gostava de fazer minicursos e cursos de curta duração, nem de participar de eventos como congressos e palestras (exceto quando eu mesmo era um palestrante, como foi o caso dos únicos dias do VegFest 2015 nos quais eu compareci);
  • Minha vida universitária foi muito instável. Desisti de dois cursos, quase desisti também dos dois nos quais eu me formei, tranquei um duas vezes, mudei de curso uma vez por transferência interna e fracassei em três seleções de mestrado;
  • Lembro de uma vez, em 2015, quando fazia o PIBID de Sociologia, de, numa reunião na escola onde eu acompanhava as aulas dessa disciplina, eu me sentir atordoado, confuso e sobrecarregado - mas não ao ponto de ter crise nervosa - ao tentar ouvir tantas pessoas falando ao mesmo tempo. Na época, logo quando eu contei isso, minha namorada cogitou, pela primeira vez, eu ser autista, em função disso ser uma manifestação do transtorno de processamento sensorial característico do autismo. Mas na ocasião eu neguei, por preconceito e desconhecimento sobre essa condição;
  • Durante a década de 2000, sofri bullying virtual num fórum que era repleto de pessoas extremamente preconceituosas. Era pejorativamente chamado, adivinha só, de autista. Mas não no sentido de identificação clínica com o Espectro Autista, mas sim no sentido capacitista de “retardado”;
  • Nunca consegui me socializar verdadeiramente em fóruns virtuais, nem em grupos/comunidades de redes sociais. Até hoje, mesmo em grupos de autistas no Facebook, eu sou uma pessoa distante que só se comunica, fazendo algum tópico com pergunta, quando me convém e não me aproximo de ninguém;
  • Por minha falta de traquejo social, eu fui uma persona non grata de um já extinto grupo de ativistas pelos Direitos Animais da UFPE, de 2008 a 2009. Eu fazia perguntas socialmente inconvenientes, usava o fórum do grupo para criticar a ausência de ações em alguns momentos, pedia para socorrerem animais mutilados sem terem condições, desdenhava da fé religiosa de parte dos membros… Era tido como uma pessoa desagradável, e não sabia por quê;
  • Também cometi ações socialmente desagradáveis e imaturas quando fiz inglês no SENAC do Recife, também em 2008. Literalmente invadia a sala de aula vizinha, por cuja professora eu tinha uma certa paixonite, e tentava me socializar. Pelo que percebo, também fui tido como uma pessoa desagradável por vários alunos e, provavelmente, também pela professora;
  • Em 2012, na tentativa de fazer amizades, marquei piqueniques com veganos e vegetarianos de Recife e região metropolitana em alguns meses daquele ano. Essa marcação chegou ao fim depois que ex-participantes reclamaram de comportamentos socialmente indesejados meus, como comer demais nos piqueniques, deixando pouco de alguns pratos para outras pessoas comerem, e entrar na casa de uma colega (que eu tinha a ilusão de que era amiga na época) sem um convite prévio. Ou seja, pelo que pareceu, os piqueniques de Recife foram encerrados na época por reprovação de outrem à minha não compreensão das normas sociais desse tipo de evento. E não consegui fazer nenhuma amizade nessas ocasiões;
  • Ao longo de toda a minha vida, pelo menos até os 23 anos de idade, eu tinha comportamentos e atitudes bastante imaturos para a idade. Por exemplo, num fórum virtual do qual participei aos 19 anos, tinha o comportamento de um pré-adolescente. Na comunidade de um time de futebol no Orkut em 2007 (aos 20 anos), também me comportava como um menino de pouca idade. Aos 22 anos, na UFPE e no extinto blog Consciência Efervescente, eu não me diferia muito, em comportamento e forma de expressar, de um adolescente de 14 ou 15 anos. Hoje posso me considerar mais amadurecido, mas ainda assim não conseguirei demonstrar maturidade em ocasiões de socialização - exceto com pessoas com quem me sinto totalmente à vontade para conversar sobre temas que nos despertam interesse em comum (ex.: conversar com outros autistas sobre veganismo);
  • Até me descobrir aspie, eu nutria um tremendo ódio de quem eu era no passado. Já chamei o meu eu do passado de merda, negoço (de "negócio", que coloquialmente significa "coisa", pelo menos no Nordeste), menino sem dignidade, entre outros impropérios, por ter sido um menino bastante imaturo para a idade e inconsciente cometedor de erros sucessivos. Até reprimi gostos musicais daquela época, como nu-metal, por muitos anos, só para não me identificar com quem fui no começo da adolescência. Só fui fazer as pazes com meu passado depois que me descobri autista;
  • Entre tantas outras situações das quais não me lembro com muita nitidez agora - e que vou incluir aqui à medida que me lembre.

Considerações finais


Essa lista tão grande de desventuras aconteceu tanto porque nunca fui verdadeiramente aceito e incluído como a pessoa neurodiversa que eu não sabia que era, como porque, diante da falta de profissionais que diagnostiquem e acompanhem autistas adultos em Recife sem cobrar caro, nunca tive minha condição clinicamente desvelada.

Portanto, por todos esses anos, tenho vivido privado do devido acompanhamento e tratamento psicoterapêutico, do treinamento de habilidades sociais que alguns autistas - os quais, infelizmente, posso considerar privilegiados - recebem para lidar melhor com a sociedade, da compreensão das pessoas sobre por que eu sou assim e tenho os comportamentos que tenho...

Muitas vezes ainda argumentam que eu posso mudar e me tornar mais sociável e neurotipicamente passável só com minha força de vontade e determinação. Algo dito por pessoas que nada entendem sobre as deficiências sociais dos autistas.

Ainda tenho fé de que, com muita luta e com a ajuda deste blog, as pessoas irão me entender melhor, e quem sabe trazer oportunidades que, diante do desconhecimento por parte da sociedade sobre minha natureza, eu nunca tive o privilégio de acessar ou mesmo saber que existem.

No mais, esse sou eu - uma pessoa que só passou a se conhecer minimamente muito recentemente (com a ajuda da minha namorada, que, com seu conhecimento sobre Síndrome de Asperger, fez o que nenhum profissional fez até hoje, que foi descobrir meu autismo) - e, por isso, passou, e muitas vezes passa até hoje, por uma quantidade imensa de privações, constrangimentos e discriminações.