segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O “leve” de “autismo leve” não significa que autistas leves passam por problemas leves

Gigante carregando pedra, de Annibale Sessa
Muitas vezes o termo “autismo leve”, que hoje denomina formalmente a Síndrome de Asperger, leva as pessoas a terem uma concepção equivocada da magnitude das nossas dificuldades enquanto autistas leves.

Acabam pensando que nossas dificuldades são “leves” em comparação aos dos autistas de grau mais severo. Que temos uma história de vida menos sofrida.

Quero mostrar para você, neste artigo, que isso não é verdade. Nossos problemas são bem mais pesados do que a “brandeza” do nosso autismo pode deixar a entender.


Os problemas de vida que o termo “autismo leve” pode acabar ocultando


Apesar de termos menos necessidade de acompanhamento e auxílio de outras pessoas do que os autistas de grau 2 (moderado) e 3 (severo), temos dificuldades bastante proeminentes em nossas vidas.

Listo a seguir algumas delas:
  • Nossas possibilidades de arranjar um emprego duradouro - ainda mais numa época de flexibilização e retrocesso dos direitos trabalhistas como a atual - são muito mais reduzidas do que as dos neurotípicos, mesmo em momentos de crescimento econômico. Afinal, muitos de nós têm uma dificuldade extrema de se encaixar em trabalhos fora dos nossos hiperfocos e pessoas como eu têm o azar de ter hiperfoco em vocações que o mercado não valoriza ou estão em crise;
  • Tendemos a sofrer bullying e discriminação por simplesmente sermos quem somos e incidirmos em comportamentos que não são benquistos pelos neurotípicos;
  • Nossas dificuldades de comunicação, entre elas a de entender linguagem não verbal, figuras de linguagem e más intenções disfarçadas, limitam muito a nossa capacidade de nos relacionarmos com a maioria das pessoas e nos defendermos de pessoas de má índole;
  • Na nossa tentativa de nos relacionar com os neurotípicos, somos forçados a tentar ter uma precaução extrema em não incidir em comportamentos que eles considerem indesejáveis, algo comparável a desviar de espinhos e buracos num caminho totalmente escuro;
  • Muitas vezes acabamos forçados a tentar nos adaptar à sociedade neurotípica, emulando desengonçadamente os comportamentos dos neurotípicos e na maioria das vezes fracassando e sendo excluídos;
  • Nossa hipersensibilidade a estímulos sensoriais atrapalha muito a nossa vida. É comum um autista leve ter dificuldade de curtir um show de rock, desfrutar da comida em um restaurante onde o cheiro de carne assando é muito forte, prestar atenção numa reunião onde várias pessoas estão falando ao mesmo tempo, permanecer em muitos lugares onde os neurotípicos ficam à vontade etc. Não raro, o autista pode acabar tendo sérias crises nervosas, os meltdowns, por causa da sobrecarga sensorial;
  • A exclusão social à qual acabamos submetidos, a hostilidade que sofremos no dia-a-dia, as repreensões, os maus olhados alheios etc. não raro nos levam à depressão, ao transtorno de ansiedade, à síndrome do pânico, entre outros transtornos mentais, e ao isolamento social;
  • Nossa dificuldade de fazer e manter amizades pode nos condenar a uma vida de solidão, períodos prolongados de ausência de amigos próximos, decepções amorosas uma atrás da outra e pouco ou nenhum networking profissional.

Considerações finais


Fica claro que nossa vida é muito marcada pelos mais diversos sofrimentos, percalços e privações. Não é porque somos autistas leves que os problemas que temos em função desse tipo de autismo também são brandos.

Precisamos que as pessoas tenham consciência disso. O desconhecimento delas sobre os problemas pelos quais passamos acaba fazendo-as nos discriminar e agravar nosso sofrimento sem que percebam. Ou seja, induzindo-as a fazer de nós autistas leves de problemas severos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Se você tem grande parte dessas características, então muito provavelmente também é autista leve



Muitas pessoas, sem acesso a neuropsicólogos e psiquiatras que entendam de Síndrome de Asperger, não sabem que são autistas.

Tem muita gente que passa a infância e a adolescência, se torna adulta, envelhece e até falece sem ter consciência de sua condição, do porquê de ser/ter sido uma pessoa tão diferente dos neurotípicos. Foi o meu caso até os 30 anos de idade.

Tendo esse sério problema psicossocial (o desconhecimento da condição, não ela em si) em vista, eu quero ajudar você a se conhecer melhor e se redescobrir.

Trago a seguir uma lista de características típicas de autistas aspies. Confira por meio dela se você também é um de nós.


Será que você também é autista aspie? Confira quais comportamentos dessa lista você tem


Se você tem boa parte ou a maioria (estimo que pelo menos 40%) dessas características:
  • Tem dificuldades sérias de socialização, ou mesmo falta de interesse de participar da maioria dos eventos sociais com família, parentes e amigos;
  • Tem dificuldade de fazer e manter amizades, podendo até ter desistido de ter amigos;
  • É muito introvertido, ainda mais do que a média;
  • Não vê graça em muitos costumes culturais que a nossa sociedade costuma valorizar e envolvem socialização e extroversão, como festas, bebidas alcoólicas, futebol, reuniões de família, baladas etc.;
  • Costuma viver socialmente isolado;
  • Não consegue perceber, nem entender, regras sociais implícitas, que não costumam ser reveladas verbalmente;
  • Possui uma enorme dificuldade, ou mesmo inabilidade, de manter contato visual com outras pessoas, mesmo se for o amor da sua vida - e sente-se mal quando tenta se forçar a olhar nos olhos da outra pessoa por mais do que alguns segundos;
  • Tem ou teve uma enorme dificuldade de encontrar um(a) namorado(a) com quem tenha um relacionamento estável, por motivos como dificuldade de paquerar e entender a linguagem não verbal dos(as) pretendentes, ser preterido por ter comportamentos socialmente indesejados ou ser considerado “esquisito” ou “anormal” etc.;
  • Possui um interesse muito forte, o hiperfoco, num único tema ou em poucos temas - ex.: Astronomia, História Antiga, Sociologia, Robótica, Evolução, Ecologia, Matemática, dinossauros, xadrez, música erudita, ferrovias, Veterinária, Computação, Geologia, Artes Plásticas, moda etc.
  • Esse hiperfoco dura a vida inteira ou você costuma mudar de hiperfoco periodicamente;
  • Tem um senso de humor excêntrico, como rir ao jogar videogame de maneiras bizarras (ex.: jogar games de futebol para fazer gols contra e expulsar jogadores, jogar games de ação para matar o protagonista repetidas vezes, jogar games de luta para apanhar ao invés de vencer os adversários), gargalhar com falas nas quais “normalmente” não se vê valor humorístico, contar piadas que para os neurotípicos fazem pouco ou nenhum sentido, rir de cenas “normalmente” não humorísticas (ex.: ao ver o protagonista de um anime japonês de luta apanhar) etc.;
  • Faz sons de ecolalia - ex.: repete sozinho palavras que para você soam interessantes ou engraçadas, imita rosnados ou grunhidos, imita peidos com a boca, imita a sonoplastia de um soco, repete alguns sons ou falas rápidas que ouve…;
  • Tem muita sensibilidade a ambientes barulhentos, com muita luz, com cheiros fortes (sejam perfumados, neutros ou desagradáveis) e/ou com muitas pessoas falando em voz alta ao mesmo tempo;
  • Tem muita sensibilidade ao toque, a abraços, a etiquetas de vestimentas, à textura do tecido ou malha que compõe a roupa, ao toque do cabelo na pele etc.;
  • Tem aversão a estampas posicionadas de certas maneiras na camisa - como por cima dos dois peitorais;
  • Sofre ou sofreu preconceito e até bullying por ser considerado “esquisito”, “doido”, “retardado”, “anormal”, entre outros impropérios motivados por ódio às diferenças psicológicas;
  • Tem dificuldades de entender ironias e figuras de linguagem;
  • Tem dificuldade de saber quando alguém fala algo brincando ou sério;
  • Tem muita sensibilidade a situações de conflito próximas, como pessoas brigando ou falando com raiva;
  • Tem baixa tolerância à frustração - como quando o computador, celular ou tablet está muito lento e dando erros, algum acontecimento frustra expectativas positivas suas, seus pais proíbem você de algo etc. -, sentindo uma enorme raiva ou tristeza diante de situações do tipo;
  • Expressa emoções de maneira fraca ou mesmo não consegue expressar algumas emoções, como euforia ao ganhar um prêmio valioso num concurso ou loteria ou ao ver o seu time de futebol conquistar um campeonato nacional, tristeza e dor quando um ente querido morre, paixão romântica etc.;
  • Tem um comportamento considerado imaturo para a sua idade - ex.: você tem 25 anos, mas pessoas próximas dizem que você se comporta como um adolescente de 16;
  • Possui uma ou mais condições neuroatípicas coexistentes ao seu provável autismo, como Síndrome de Tourette, TDAH, TOC, fobia social, dislexia, transtorno de ansiedade, transtorno opositivo-desafiador, déficit da função executiva etc.;
  • Começou a falar tardiamente, com três ou mais anos de idade - neurotípicos costumam começar a falar com cerca de um ano e meio;
  • Tem uma sinceridade excessiva e desmedida, cometendo com certa frequência os chamados “sincericídios” e passando por situações de constrangimento e cortes de relações por causa disso;
  • Tem dificuldades acima da média de tolerar pressão de chefes e supervisores em empregos;
  • Tem dificuldades de entender e usar linguagem não verbal, como postura, gestos manuais, movimento dos olhos, expressão facial etc.;
  • Tem uma maneira “científica” de criar empatia por alguém - por exemplo, precisa imaginar como a pessoa sofre em situações adversas para poder entender o sofrimento dela e, só assim, manifestar sua compaixão;
  • Precisa ter um comportamento muito diferente do que lhe é natural quando interage com pessoas - por exemplo, em situações sociais, finge ser mais simpático e comunicativo ao falar com outras pessoas. Ou seja, metaforicamente falando, precisa vestir uma máscara de neurotípico para aumentar suas chances de se comunicar bem;
  • Tem comportamentos antissociais e isolacionistas desde a primeira infância;
  • Tem os chamados stims, considerados “estereotipias” ou “manias” pelos neurotípicos, como balançar os pés ou as pernas, agitar as mãos, dar pulinhos quando está só, bater os dedos um no outro perto do ouvido, fazer tiques faciais etc., manifestando-os para aliviar o estresse ou expressar alguma emoção significativa;
  • Gosta de ouvir um mesmo som repetidas vezes, obtendo prazer com isso - ex.: um personagem detestado de anime de luta apanhando e gemendo, carros batendo, telefone desligando com força, explosão de um game específico etc.;
  • Sente mal-estar e sobrecarga sensorial em lugares e eventos lotados, como ônibus e trens, manifestações de rua, baladas, eventos sociais, estádios de futebol, carnavais etc.;
  • Tem crises nervosas, ou se isola numa espécie de concha invisível, em situações de sobrecarga sensorial ou estresse excessivo;
  • Sente que o modelo tradicional de ensino escolar e universitário não rende um bom aprendizado para você;
  • Não gosta de Educação Física, nem de praticar esportes;
  • Tem uma coordenação motora mais precária do que a média;
  • Tem comportamentos muito contrastantes em certas situações: por exemplo, sente-se um(a) menino(a) imaturo(a) em situações de socialização e conversas sobre temas que não lhe interessam, mas discursa como um gênio supermaduro com anos de estudo quando o tema da conversa é seu hiperfoco/um dos seus hiperfocos;
  • Tem um currículo profissional muito pobre, com pouquíssima experiência profissional e vocação extremamente restrita e inflexível, tendo uma enorme dificuldade de encontrar um emprego por causa disso;
  • Não se interessa, ou tenta se interessar mas não consegue, em fazer cursos que não correspondem ao seu hiperfoco;
  • Tem uma vida repleta de rotinas bem regradas, e se sente mal quando alguma rotina é inesperadamente quebrada;
  • Precisa planejar quando vai sair de casa para ir a algum lugar - como um shopping ou um restaurante - e não gosta de marcar compromissos surpresa (por exemplo, quando algum amigo liga e diz que vai sair daqui a uma hora);
  • Tem um gosto musical muito restrito - por exemplo, só ouve rock e metal, ou só música new-age e erudita, ou só forró e pagode etc., não conseguindo gostar de outros ritmos;
  • Tem uma expressão facial geralmente neutra ou pouco intensa;
  • Tem um passado cheio de traumas, sente que não viveu e não está vivendo a vida em sua plenitude;
  • Sente que é diferente da maioria da sociedade, mas não sabe por quê;
  • Já tentou parecer mais “normal” e “igual” aos neurotípicos, mas nunca conseguiu manter essa aparência por mais do que algumas horas ou dias e não sabe por que não consegue;
  • Recebe, com certa frequência, reprimendas e/ou “tirações de onda” de amigos e parentes por comportamentos socialmente indesejados;
  • Possui hábitos anti-higiênicos, como cheirar “cecê” das axilas ou a cera dos ouvidos e tomar banho com frequência abaixo da socialmente aceita;
  • Tem uma dificuldade de se emancipar materialmente dos pais muito maior do que a dos neurotípicos, podendo ter mais de 30 ou 40 anos de idade e ainda morar com eles e depender deles financeiramente, mesmo num contexto de ausência de crise econômica;
  • Tem uma vida universitária instável, com desistências, trancamentos, mudanças de curso, reprovações frequentes e/ou fracassos em vestibulares e exames de pós-graduação;
  • Tem frequentemente a sensação de que não se encaixa no mundo;
  • Tem muita dificuldade de se defender de pessoas falsas, traiçoeiras, manipuladoras e tóxicas e não consegue saber quando um “amigo” é falso;
  • Não consegue entender muito bem por que os neurotípicos de nossa cultura possuem certos costumes, como o apego a bens materiais, a competição meritocrática e a necessidade de se autoafirmar perante a sociedade;
  • Tem dificuldade de se defender de insultos e agressões;
  • Já foi discriminado, repreendido e/ou insultado diversas vezes por manifestar comportamentos socialmente indesejados;
  • Tem um jeito desengonçado de caminhar e correr;
  • Tem uma coordenação motora bastante imperfeita;
  • É superdotado e tem conhecimentos típicos de alguém muito estudioso no(s) seu(s) hiperfoco(s);
  • Prefere ficar na biblioteca lendo/estudando a interagir com colegas de classe;
  • Costuma ser muito coerente em termos de ética e moralidade e questionar por que a maioria dos neurotípicos é tão incoerente e contraditória;
  • Tem um medo exageradamente grande ou admiravelmente pequeno da opinião alheia sobre você;
  • Obteve um escore tendente à neurodiversidade no Aspie Quiz;
  • Tem um raciocínio lógico muito avançado;
  • Costuma ter um tom de voz neutro, pouco ou nada passível de modulações,
Então tudo indica, ou no mínimo há uma probabilidade notável, que você também é um autista leve que até então nunca se descobriu assim e nunca recebeu o devido diagnóstico.


Grande parte das características dessa lista batem com quem eu sou! O que fazer agora?


Se você e sua família tiverem condições financeiras de arcar com o custo das consultas com um neuropsicólogo, procure um que entenda de Síndrome de Asperger em adolescentes e adultos.

Ele irá, com os devidos testes clínicos - que não passam por exames físicos cerebrais, salvo se houver a intenção de descartar outras condições neurológicas -, confirmar que você é autista leve e encaminhá-lo a um psiquiatra, que irá redigir o diagnóstico definitivo e o laudo autístico.

Com o laudo em mãos, você passará a desfrutar de todos os direitos que pessoas com deficiência possuem. Afinal, o autismo leve é uma deficiência invisível, de cunho psicossocial, que acaba nos limitando em muitas coisas na vida - ainda que tenda a nos fazer ser, por exemplo, mais sinceros, mais leais, mais eticamente coerentes, mais questionadores, mais inteligentes, entre outras vantagens.

E se você não tiver o dinheiro para isso, a alternativa será você ler e aprender mais sobre a Síndrome de Asperger, a identidade social autista/aspie e, com a devida identificação sua com as características centrais e muitas das secundárias da condição, assumir-se autista para o mundo. Tal como foi o meu caso em 2017.

E uma observação: provavelmente seu diagnóstico será de autismo leve, não Síndrome de Asperger nominalmente falando, já que este termo caiu em desuso no CID-11 e no DSM-5.


Conclusão


A lista trazida por este artigo pode ser aquilo que faltava para você (re)descobrir quem você realmente é, e por que é quem é.

Digo isso porque, se eu mesmo tivesse tido acesso a esta lista nos anos em que eu não sabia da minha condição, eu teria me descoberto aspie muito mais cedo.

Eu espero que este artigo tenha sido um divisor de águas, aquilo que fará ou fez você descobrir aquilo que até então nenhum psicólogo ou psiquiatra havia descoberto em você: que é autista leve.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Sobre o bullying virtual capacitista que sofri na década de 2000


Aviso de conteúdo: Este artigo relata bullying e pode acionar traumas em vítimas presentes ou passadas desse tipo de violência.

Aviso: Este artigo não está aberto para comentários.

Por vários anos na década de 2000, entre 2004 e 2009, sofri bullying virtual de membros de um fórum do qual participei entre 2003 e 2005. O motivo: ódio capacitista.

Ironicamente, fui chamado de “autista” como xingamento, dezenas de vezes naquele período, e acabaria realmente me descobrindo como autista na década seguinte.

Conheça um pouco dessa triste história que consegui superar em grande parte, mas me faz, até hoje, relutar em vestir de corpo e alma o “rótulo” de autista.

Um pouco de como foi aquela época


O fórum, cujos nomes eu não pretendo revelar e mudou de endereço algumas vezes na época, funcionou na década de 2000 - e não sei se continua ativo hoje.

Em 2003, na minha imaturidade adolescente e falta de conhecimento sobre o perigo psicológico que maus lugares da internet podem proporcionar, aderi a esse fórum com um impronunciável nicknameHrrr” - que é o grunhido que o vocalista Jonathan Davis, da banda de nu-metal Korn, faz ao final da música Lies.

No começo até não havia tanta gente contrária à minha presença. A situação começou a piorar a partir de dezembro daquele ano, quando eu enviei repetidas mensagens privadas a uma mulher membro do fórum que eu achava que era minha amiga. Ela se revoltou e passou a me ver com muito desgosto, o que me causou tristeza e me fez abandonar o fórum por uns dois meses.

Só voltei depois que ela veio pedir desculpas para mim. Mas o fórum que eu encontraria, a partir de fevereiro de 2004, seria um lugar de muito ódio, onde minha pessoa não era bem vinda. Onde eu receberia insultos e declarações de antipatia frequentemente, quase diariamente.

Fui muito xingado ao longo dos 14 meses que eu ainda “convivi” virtualmente com os membros daquele fórum.

Mas, na minha dificuldade autística de criar amor próprio e diante da ausência de amizades regulares já naquela época (até então, só tive amigos próximos com convívio diário no ensino médio, que havia encerrado no final do ano letivo de 2003), acabei optando por continuar me sujeitando a tudo aquilo, e não reconhecendo que aquilo podia me fazer muito mal.

Fui muito xingado de autista, mas não em função da minha condição neuropsicológica, mas sim por passar por “retardado” segundo a mentalidade bully dos membros daquele fórum. Também recebi “nomes” como bicha, retardado, mongol, mongoloide etc.

Quase todos os membros ativos daquele fórum me odiavam. Poucas pessoas me aceitavam como colega.

Esse ódio era reafirmado toda vez que eu me comportava de maneira imatura, “esquisita”, de uma maneira que a grande maioria dos membros ativos se recusava a aceitar e tolerar.

A gota d’água foi em abril de 2005, a menos de duas semanas do meu ingresso no curso de Jornalismo na UFPE - do qual acabaria desistindo apenas dois meses depois. Alguém do fórum usou meu nickname e se passou por mim para assediar uma blogueira.

Eu só soube disso depois que o namorado dela veio revoltado ao meu então blog pessoal - o “Blog do Hrrr”, que não tinha relação com os blogs que tive e tenho desde 2008 - reclamar do assédio.

Então, eu finalmente tomei a decisão que devia ter tomado muito tempo antes: abandonei o fórum onde, por mais de um ano, fui tratado como lixo. Mas ali foi só o começo do cyberbullying que sofreria.

Nos comentários do Blog do Hrrr, nos fóruns em que participei nos anos seguintes, no Fotolog que eu mantinha etc., recebia mensagens de ódio, sendo chamado de diversos adjetivos depreciativos, sendo “autista” o principal xingamento.

Fui obrigado a abandonar o fórum Religião É Veneno (infelizmente eu era neoateu na época) e me desfazer do meu blog pessoal e do meu Fotolog por causa do constante assédio que sofri.

Só depois que abandonei o nickname “Hrrr” e desisti de participar de fóruns virtuais fora do Orkut, em junho de 2007, é que o bullying virtual começou a diminuir gradativamente.

Mas ainda assim, mesmo no extinto Consciência Eferverscente, ainda recebi umas duas vezes mensagens insultuosas de algum membro daquele fórum. Fui reconhecido como “Hrrr” quando participava de comentários de um blog “de ceticismo” (que abandonei por causa do antiveganismo do dono). O perfil do Twitter do fórum que havia abandonado ainda veio falar comigo me “convidando” a falar de bullying contra autistas - sendo prontamente bloqueado.

O assédio chegou ao fim, pelo menos por enquanto, depois que a mulher que eu acreditava ser minha amiga daquele fórum tentou me adicionar no Facebook e me chamar para o grupo de membros daquele fórum no Face. Recusei a adição dela e o convite, ignorando-a.

É possível que, caso algum membro daquele fórum tenha conhecimento deste artigo, os xingamentos voltem temporariamente. Mas hoje eu sou uma pessoa mais madura e resiliente do que fui naquela triste época.

Conclusão

Acredito que todo autista leve tem uma história triste de bullying, seja ele presencial/escolar ou virtual, para contar. Eu não fui exceção, porque sofri esse tipo de violência por diversos anos.

É fato: ser autista no mundo de hoje, de tantas crianças, adolescentes e adultos reacionários e autoritários, metidos a “politicamente incorretos” e fãs de “humoristas” bullies profissionais, ainda é motivo para ser hostilizado, rejeitado, verbalmente violentado. Porque a sociedade ainda não está pronta para aceitar, defender e respeitar os direitos e a dignidade de pessoas como nós.

Pois essa é a minha história. E espero que ela influencie, de alguma maneira, na conscientização de quem ainda não se reconhece autista ou não tem muito conhecimento sobre o universo do autismo. Que traga uma lição para que se reconheça mais a importância de combater, nas escolas e na internet, essa crueldade que é o bullying.

domingo, 21 de outubro de 2018

Uma lista de características minhas que me fazem ter certeza, mesmo sem diagnóstico, de que sou autista

Este artigo relaciona diversas características autísticas minhas com os parâmetros que o DSM-5 determina para se considerar alguém clinicamente autista
Como este blog revela, sou autista e me assumo assim, mesmo sem um diagnóstico formal.

E tenho dezenas, para não dizer literalmente centenas, de indícios de que essa, e não a neurotipia, é minha condição.

Convido você a conhecer uma parte dessas características, como elas se encaixam com a sintomatologia do DSM-V para o Espectro Autista, e ter um pouco mais da ideia da importância de autistas adultos conquistarem o direito ao diagnóstico e acompanhamento.

Como algumas de minhas características batem com a definição do DSM-V para o Espectro Autista


1. Déficits clinicamente significativos e persistentes na comunicação social e nas interações sociais, manifestadas de todas as maneiras seguintes:

a. Déficits expressivos na comunicação não verbal e verbal usadas para interação social;


Exemplos no meu caso:
  • Dificuldade ou incapacidade de entender comunicação não verbal;
  • Propensão ao “sincericídio”;
  • Dificuldade de entender ironias ou brincadeiras verbais;
  • Dificuldade de contato visual;
  • Baixa habilidade de gesticular com as mãos etc.
b. Falta de reciprocidade social;
  • Dificuldade extrema, alternada com desinteresse, de socialização com neurotípicos;
  • Tendência a fazer e manter amizades apenas com quem tem muitas semelhanças de gostos e preferências político-ideológicas comigo;
  • Dificuldade de interagir em rodas de conversas;
  • Dificuldade de entender ironias ou brincadeiras verbais;
  • Dificuldade ou incapacidade de perceber e entender normas sociais não ditas;
  • Desatenção a padrões de vestimenta;
  • Histórico notável, até 2012, de paqueras fracassadas e paixões não correspondidas etc.
c. Incapacidade para desenvolver e manter relacionamentos de amizade apropriados para o estágio de desenvolvimento.
  • Carência crônica de amigos próximos;
  • Isolamento social crônico semivoluntário;
  • Desejo frustrado de fazer e manter amizades duradouras;
  • Networking profissional precário;
  • Sincericídios que impediram, no passado, o estabelecimento de alianças no meio vegano e limitavam minha permanência em grupos etc.
2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades, manifestados por pelo menos duas das maneiras abaixo:

a. Comportamentos motores ou verbais estereotipados, ou comportamentos sensoriais incomuns;

  • Sentir prazer em ouvir múltiplas e repetidas vezes os mesmos sons esquisitos, como Seiya (d’Os Cavaleiros do Zodíaco) ou Seu Madruga apanhando, telefone batendo na cara de Mução (quando eu ouvia as pegadinhas dele) etc.;
  • Stims como ouvir os dedos batendo um no outro perto do ouvido;
  • Tiques: a Síndrome de Tourette é uma condição coexistente ao meu autismo;
  • Ecolalias, como ao imitar Seiya gemendo e fazer sons sonoplásticos de socos com a boca;
  • Hipersensibilidade a ambientes barulhentos e muito quentes e cheiros fortes;
  • Provável hipossensibilidade gustativa, preferindo comer alimentos muito adoçados ou muito temperados;
  • Hipersensibilidade a situações de estresse, briga e conflito etc.
b. Excessiva adesão/aderência a rotinas e padrões ritualizados de comportamento;
  • Querer que minha namorada repita os carinhos verbais que eu dirijo a ela - senão começo a sentir desconforto;
  • Manutenção de uma rotina diária de ligar o computador após acordar;
  • Escovar os dentes sempre da mesma maneira;
  • Dificuldade de trabalhar em outras coisas que não a escrita no computador ou o estudo;
  • Dificuldade de aderir a programas de lazer sem planejamento prévio etc.
c. Interesses restritos, fixos e intensos.
  • Hiperfoco no veganismo e nos Direitos Animais;
  • Dificuldade de me interessar em estudar disciplinas que caem em concursos públicos e de aprendê-las;
  • Dificuldade de me interessar em vocações com elevada empregabilidade;
  • Sensação de estar “preso” à vocação da produção de conteúdo sobre Ética Animal;
  • Coleção de livros de ciências humanas;
  • Gosto elevado pela leitura e pelo estudo etc.
3. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades.
  • Desde a infância tenho esses comportamentos;
  • Sempre fui uma criança isolada e antissocial;
  • Sempre tive dificuldades de socialização;
  • Tenho tiques desde os 7 anos;
  • Só aprendi a falar aos 3 anos de idade;
  • Sempre tive uma caligrafia “feia”;
  • Desde os 3 ou 4 anos sou reconhecido como superdotado etc.
Fonte da descrição do DSM-V para o Espectro Autista

Conclusão


De fato tenho muitas características que me fazem perceber que tenho a Síndrome de Asperger, o autismo leve. E mais: as que eu listei acima são menos de 10% de todas as características que eu tenho.

Agora eu posso dizer que você me conhece um pouco mais - algumas de minhas dificuldades e esquisitices.

E, caso você seja autista, mãe/pai de autista(s) ou aliado da bandeira da neurodiversidade, lhe digo que será um prazer lutarmos no mesmo lado pelo direito ao diagnóstico e acompanhamento de autistas adultos.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Um pouco de minha vida enquanto alguém que não sabia ser autista

"Eu estive esperando no escuro/Por tanto tempo..." - música da abertura dos vídeos do canal de Amythest Schaber
Até hoje sofro bastantes privações sociais por ser autista leve - tanto pela discriminação e intolerância quanto pelo meu déficit de socialização. Mas no passado eu as sofria sem saber por quê.

Como dizia a música que toca nos vídeos de Amythest Schaber, “eu estive esperando no escuro, por tanto tempo”. Pois na escuridão do desconhecimento de minha condição eu sofri bastante.

Convido você a conhecer um pouco do sofrimento que um autista leve que desconhecia sua própria condição sofreu ao longo de sua vida.

Uma lista de momentos constrangedores e difíceis que sofri em função de desconhecer o que/quem eu realmente era


Atualizado em 23/10/2018

  • Aos quatro anos de idade, psicopedagogos descobriram que eu era superdotado. Mas nenhum profissional da psicologia ou das neurociências descobriu meu autismo - até hoje. Não por eu não ter essa condição, mas sim porque, na minha infância, nunca tive contato com um especialista em autismo infantil, e na vida adulta nunca encontrei um especialista em autismo adulto leve conveniado aos planos de saúde que tive e tenho;
  • Nunca tive interesse genuíno e espontâneo de me entrosar com os amigos do meu irmão, alguns dos quais tinham/têm a mesma idade que eu. Geralmente era ou, na infância, por coerção de meus pais, que se sentiam mal de me ver crescendo como uma criança isolada e antissocial, ou, já na vida adulta, por desejo de me tornar mais sociável;
  • Na infância, até os 10 anos de idade, eu não tinha o menor interesse de fazer amizades. E era, de fato, ignorado por praticamente todos os colegas de classe - e sofria bullying de uns dois meninos -, tanto por ser bem mais jovem que eles, considerando que até a sexta série do ensino fundamental eu era dois anos adiantado em comparação com a maioria das crianças, quanto por meus comportamentos esquisitos;
  • Naquela época, ficava isolado na escola, comendo meu lanche sentado na escada que levava ao primeiro andar, e não tinha nenhum desejo de perguntar ou falar nada para outras crianças, tampouco de brincar;
  • Em duas escolas diferentes, passei vergonha diante de muitos outros alunos porque a camisa do fardamento tinha estampa no peito, do jeito que eu mais odiava (e odeio até hoje), e eu puxava ou entortava a gola da camisa para tentar tirar de cima do peito a estampa;
  • Por diversas vezes na infância, crianças neurotípicas me perguntaram, sem nenhum escrúpulo, se eu era "doido";
  • Nenhuma escola por onde passei me via como um potencial autista que precisava de acompanhamento. Afinal, a década de 90 era uma verdadeira Idade Média para autistas leves, e parecia que somente autistas moderados e severos tinham seu autismo reconhecido;
  • Aliás, nenhuma escola pela qual passei no antigo pré-escolar e no ensino fundamental e médio, tanto pública quanto privada, tinha o mínimo de preparo para incluir e atender alunos autistas - nem os leves, nem os de níveis mais severos;
  • Por muitos anos, até me aproximar da minha atual namorada Danielle, sofri com a carência afetiva, com a ausência de uma namorada. Tentei paquerar muitas vezes, mas, antes de Danielle, nunca fui reciprocamente aceito. Apenas duas mulheres manifestaram um desejo perceptível por mim, mas eu não lhes correspondia. Houve uma terceira com quem eu até fiquei por pouco menos de um mês, mas não havia uma reciprocidade verdadeira e não evoluiu verdadeiramente para um namoro, apesar de meus sentimentos;
  • Antes de Dani, minha juventude foi severamente marcada por uma necessidade intratável de ter uma namorada. Deixei de curtir o momento presente por muitos anos na expectativa de que só seria feliz de verdade namorando. Eu definitivamente não era do tipo que sabia curtir a solteirice - até porque, na nossa sociedade, geralmente só se consegue ser um solteiro feliz quando a pessoa tem amigos próximos e presentes, e só tive amigos próximos no ensino médio e em dois cursos superiores (no caso destes últimos, era apenas um amigo em cada curso);
  • Minha mãe, antes de eu assumir minha condição autística à família, costumava dizer que eu "não tive infância, nem adolescência, nem juventude". Não fazia ideia do porquê eu "optava" por não curtir a menoridade da maneira aceita pelos neurotípicos;
  • Por muitas vezes fui repreendido por amigos em função de comportamentos socialmente desagradáveis. E não entendia por que meus comportamentos não agradavam, uma vez que características muito comuns na Síndrome de Asperger são não conseguir decodificar regras sociais sutis, não ditas, até ser punido ou repreendido por quebrá-las, e o autista não conseguir entender a reação negativa dos neurotípicos aos seus comportamentos;
  • Uma vez fui expulso do voluntariado de numa agência de notícias porque abri um tópico, na comunidade dela no Orkut, criticando a linguagem que alguns jornalistas usavam em suas matérias. Não havia percebido que uma regra social sutil em empresas é evitar fazer críticas abertas desse tipo, sob pena de demissão ou expulsão. Só fui readmitido como voluntário nessa agência dois anos depois;
  • Também perdi um emprego por não conseguir perceber regras sociais ocultas. Nesse caso foi no IBGE, onde tive meu contrato temporário de agente de pesquisa rescindido por acreditar ingenuamente que seria cobrado ou advertido, e não sumariamente demitido, por empurrar com a barriga tarefas de trabalho;
  • Nunca consegui me dar bem em entrevistas de emprego. Apesar de achar, na hora, que estava me dando bem, estava na verdade tendo uma comunicação não verbal (gestos, posição das mãos e das pernas, postura da coluna e do rosto, tom de voz etc.) deficiente, que não agradava a nenhum entrevistador. E, é claro, nem eu nem o entrevistador sabíamos de minha condição;
  • Meu networking sempre foi muito pequeno, mesmo com 10 anos (hoje) de experiência como blogueiro, e nunca consegui expandi-lo satisfatoriamente. Ele está restrito, até hoje, a alguns poucos colegas, com quem às vezes é difícil ter contato;
  • Nunca consegui expandir satisfatoriamente meu currículo. Sempre me faltou interesse e desejo de fazer cursos profissionalizantes e mesmo cursos acadêmicos menores dentro de cursos universitários (ex.: um curso de marxismo ou educação ambiental dentro de um curso superior de Ciências Sociais). E minha experiência profissional é baixíssima, tendo trabalhado em empresas por menos de nove meses somados ao longo de toda a vida; 
  • Meu déficit de empregabilidade persiste até hoje. Posso dizer que, com 31 anos de idade atualmente, tenho o currículo de um adolescente de 18, considerando que meus dois diplomas de cursos superiores (tecnologia em Gestão Ambiental e licenciatura em Ciências Sociais) têm um valor extremamente baixo e marginal na nossa economia e sociedade;
  • Por muitas vezes tentei criar em mim o desejo de fazer cursos gratuitos que me permitissem ganhar dinheiro em trabalhos assalariados ou autônomos (ex.: montagem e manutenção de computadores e celulares, design de interiores, vendas etc.), mas nunca consegui realmente senti-lo;
  • Sempre fui muito “preso” à minha atual vocação de comunicador por blogs, redes sociais e canais de vídeo (fui um youtuber de pequeno alcance até 2015, e condiciono minha volta ao YouTube à manutenção da nossa democracia) e ao interesse de ser sociólogo. Nunca consegui, de maneira nenhuma, me interessar em trabalhos mais lucrativos, como empreender ou fazer cursos superiores mercadologicamente mais promissores. Apenas a partir de 2018 é que comecei a empreender em vendas afiliadas, mas num nicho que desde vários anos atrás já era o meu - o vegano;
  • Ao longo dos meus anos na licenciatura em Ciências Sociais, eu fui uma pessoa isolada, pouco sociável, e não gostava de fazer minicursos e cursos de curta duração, nem de participar de eventos como congressos e palestras (exceto quando eu mesmo era um palestrante, como foi o caso dos únicos dias do VegFest 2015 nos quais eu compareci);
  • Minha vida universitária foi muito instável. Desisti de dois cursos, quase desisti também dos dois nos quais eu me formei, tranquei um duas vezes, mudei de curso uma vez por transferência interna e fracassei em três seleções de mestrado;
  • Lembro de uma vez, em 2015, quando fazia o PIBID de Sociologia, de, numa reunião na escola onde eu acompanhava as aulas dessa disciplina, eu me sentir atordoado, confuso e sobrecarregado - mas não ao ponto de ter crise nervosa - ao tentar ouvir tantas pessoas falando ao mesmo tempo. Na época, logo quando eu contei isso, minha namorada cogitou, pela primeira vez, eu ser autista, em função disso ser uma manifestação do transtorno de processamento sensorial característico do autismo. Mas na ocasião eu neguei, por preconceito e desconhecimento sobre essa condição;
  • Durante a década de 2000, sofri bullying virtual num fórum que era repleto de pessoas extremamente preconceituosas. Era pejorativamente chamado, adivinha só, de autista. Mas não no sentido de identificação clínica com o Espectro Autista, mas sim no sentido capacitista de “retardado”;
  • Nunca consegui me socializar verdadeiramente em fóruns virtuais, nem em grupos/comunidades de redes sociais. Até hoje, mesmo em grupos de autistas no Facebook, eu sou uma pessoa distante que só se comunica, fazendo algum tópico com pergunta, quando me convém e não me aproximo de ninguém;
  • Por minha falta de traquejo social, eu fui uma persona non grata de um já extinto grupo de ativistas pelos Direitos Animais da UFPE, de 2008 a 2009. Eu fazia perguntas socialmente inconvenientes, usava o fórum do grupo para criticar a ausência de ações em alguns momentos, pedia para socorrerem animais mutilados sem terem condições, desdenhava da fé religiosa de parte dos membros… Era tido como uma pessoa desagradável, e não sabia por quê;
  • Também cometi ações socialmente desagradáveis e imaturas quando fiz inglês no SENAC do Recife, também em 2008. Literalmente invadia a sala de aula vizinha, por cuja professora eu tinha uma certa paixonite, e tentava me socializar. Pelo que percebo, também fui tido como uma pessoa desagradável por vários alunos e, provavelmente, também pela professora;
  • Em 2012, na tentativa de fazer amizades, marquei piqueniques com veganos e vegetarianos de Recife e região metropolitana em alguns meses daquele ano. Essa marcação chegou ao fim depois que ex-participantes reclamaram de comportamentos socialmente indesejados meus, como comer demais nos piqueniques, deixando pouco de alguns pratos para outras pessoas comerem, e entrar na casa de uma colega (que eu tinha a ilusão de que era amiga na época) sem um convite prévio. Ou seja, pelo que pareceu, os piqueniques de Recife foram encerrados na época por reprovação de outrem à minha não compreensão das normas sociais desse tipo de evento. E não consegui fazer nenhuma amizade nessas ocasiões;
  • Ao longo de toda a minha vida, pelo menos até os 23 anos de idade, eu tinha comportamentos e atitudes bastante imaturos para a idade. Por exemplo, num fórum virtual do qual participei aos 19 anos, tinha o comportamento de um pré-adolescente. Na comunidade de um time de futebol no Orkut em 2007 (aos 20 anos), também me comportava como um menino de pouca idade. Aos 22 anos, na UFPE e no extinto blog Consciência Efervescente, eu não me diferia muito, em comportamento e forma de expressar, de um adolescente de 14 ou 15 anos. Hoje posso me considerar mais amadurecido, mas ainda assim não conseguirei demonstrar maturidade em ocasiões de socialização - exceto com pessoas com quem me sinto totalmente à vontade para conversar sobre temas que nos despertam interesse em comum (ex.: conversar com outros autistas sobre veganismo);
  • Até me descobrir aspie, eu nutria um tremendo ódio de quem eu era no passado. Já chamei o meu eu do passado de merda, negoço (de "negócio", que coloquialmente significa "coisa", pelo menos no Nordeste), menino sem dignidade, entre outros impropérios, por ter sido um menino bastante imaturo para a idade e inconsciente cometedor de erros sucessivos. Até reprimi gostos musicais daquela época, como nu-metal, por muitos anos, só para não me identificar com quem fui no começo da adolescência. Só fui fazer as pazes com meu passado depois que me descobri autista;
  • Entre tantas outras situações das quais não me lembro com muita nitidez agora - e que vou incluir aqui à medida que me lembre.

Considerações finais


Essa lista tão grande de desventuras aconteceu tanto porque nunca fui verdadeiramente aceito e incluído como a pessoa neurodiversa que eu não sabia que era, como porque, diante da falta de profissionais que diagnostiquem e acompanhem autistas adultos em Recife sem cobrar caro, nunca tive minha condição clinicamente desvelada.

Portanto, por todos esses anos, tenho vivido privado do devido acompanhamento e tratamento psicoterapêutico, do treinamento de habilidades sociais que alguns autistas - os quais, infelizmente, posso considerar privilegiados - recebem para lidar melhor com a sociedade, da compreensão das pessoas sobre por que eu sou assim e tenho os comportamentos que tenho...

Muitas vezes ainda argumentam que eu posso mudar e me tornar mais sociável e neurotipicamente passável só com minha força de vontade e determinação. Algo dito por pessoas que nada entendem sobre as deficiências sociais dos autistas.

Ainda tenho fé de que, com muita luta e com a ajuda deste blog, as pessoas irão me entender melhor, e quem sabe trazer oportunidades que, diante do desconhecimento por parte da sociedade sobre minha natureza, eu nunca tive o privilégio de acessar ou mesmo saber que existem.

No mais, esse sou eu - uma pessoa que só passou a se conhecer minimamente muito recentemente (com a ajuda da minha namorada, que, com seu conhecimento sobre Síndrome de Asperger, fez o que nenhum profissional fez até hoje, que foi descobrir meu autismo) - e, por isso, passou, e muitas vezes passa até hoje, por uma quantidade imensa de privações, constrangimentos e discriminações.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sim, eu sou aspie, um autista leve

Artigo extraído dos arquivos do Consciencia.blog.br (blog atualmente inativo), datado de dezembro de 2017

Tenho a satisfação de anunciar ao mundo que eu sou aspie. Ou seja, tenho a Síndrome de Asperger (SA), que é o trecho mais leve do Espectro Autista. Portanto, sou um autista leve.

Decidi que chegou a hora de mostrar ao mundo quem eu descobri que realmente sou e, subsequentemente, enfrentar todo o preconceito e a discriminação capacitista que vier eventualmente se abater sobre mim.

Nesta saída do armário da neurodiversidade, quero mostrar a você introdutoriamente o que é a SA e que características muitas vezes fazem de alguém um aspie, ou autista leve.

Definição e características da Síndrome de Asperger

Posso definir a Síndrome de Asperger basicamente como um autismo leve. É uma configuração de autismo que geralmente não proporciona atraso ou deficiência intelectual, mas traz algumas limitações e dificuldades em se tratando de o indivíduo lidar e se comunicar com os neurotípicos (pessoas que não tem condições neurodiversas nem deficiências intelectuais).

Algumas características aspies


Há diversas características que são comumente atribuídas a quem é aspie - mas que não é o caso de 100% dessas pessoas terem 100% destas:
  • Sensibilidade a estímulos sensoriais intensos e situações estressantes - no meu caso, me sinto sobrecarregado e exausto, por exemplo, quando pessoas brigam ou discutem em tom exaltado perto de mim e quando estou numa roda de conversa em que duas pessoas ou mais falam em voz alta ao mesmo tempo;
  • Hipersensibilidade a estímulos dolorosos: para mim, uma pontada dolorosa moderada na mão ou a ardência numa ferida do dedo pode me fazer dar um grito alto de dor;
  • Possibilidade de sofrer crises nervosas (meltdown) e/ou isolar-se temporariamente numa espécie de concha invisível (shutdown) diante de estímulos e estresses muito fortes;
  • Hiperfoco, que é o interesse muito focado em uma atividade ou área do conhecimento ou um conjunto restrito de áreas de conhecimento ou atividades, havendo dificuldade de o aspie se interessar em outras áreas se não for um interesse totalmente espontâneo;
  • Intolerância a certos estímulos (no meu caso, eu tenho aversão a usar roupas com etiqueta e camisetas com estampa por cima dos peitorais);
  • Dificuldade de trabalhar sob pressão - já que cobranças muito rigorosas e broncas de supervisores ou patrões causam sobrecarga e podem até desencadear um quadro de meltdown;
  • Sinceridade muitas vezes excessiva e imprudente;
  • Jeito diferente, que pode soar "engraçado", de caminhar e correr;
  • Maneira mais ou menos excêntrica de se vestir em público;
  • Hábito de fazer stims, que são movimentos repetitivos que buscam regular o estado psicológico da pessoa, servindo, por exemplo, para aliviar estresse e ansiedade;
  • Desinteresse por eventos sociais, como reuniões de família, festas de aniversário, churrascos e baladas;
  • Tom de voz monótono, que pouco ou nada muda de acordo com a situação social;
  • entre muitas outras.

Algumas dificuldades vividas por aspies


Falando em dificuldades, trago aqui algumas limitações que aspies como eu podem ter ao lidar com o mundo neurotípico - e que, dependendo do indivíduo, podem ocorrer de maneira mais branda quando o aspie está interagindo com outros aspies:
  • Dificuldades de socialização e de fazer (e manter) amizades;
  • Amadurecimento social e comportamental mais lento, difícil, psicologicamente doloroso e marcado por hostilizações e repreensões;
  • Dificuldade de notar e obedecer regras sociais que não costumam ser reveladas verbal e explícitamente;
  • Capacidade limitada de manter contato visual;
  • Pouca elasticidade das expressões faciais;
  • Dificuldades imensas de se encaixar em empregos em que neurotípicos costumam se dar bem, por motivos como não aguentar a pressão de supervisores e patrões, a intolerância a ambientes barulhentos e/ou muito luminosos, a dificuldade de se socializar com outros colegas e perceber normas não verbalizadas, a eventual dificuldade de executar planejamentos etc.;
  • entre outras.
Não é à toa, assim, que aspies costumam sofrer bullying na escola e em ambientes virtuais, quando se comportam de uma maneira que os neurotípicos preconceituosamente consideram “estúpida”, “idiota” ou “retardada”. Eu pessoalmente o sofri em escolas na infância e em um fórum de internet na adolescência.

Também é muito comum que, dada a dificuldade de se socializar e fazer amizades firmes com neurotípicos e tamanho o maltrato que sofre por não conseguir entender e se encaixar em normas sociais que não costumam ser verbalmente reveladas, o aspie acabe vivendo em isolamento social, carente de amigos, na sua infância, adolescência e, em muitos casos, também na idade adulta.

Conheça mais sobre a Síndrome de Asperger nesses sites:

Aspie/autista com orgulho


Sou aspie/autista com orgulho. Já tive vergonha de meu passado - e em muitos momentos quase senti vergonha de mim mesmo no então presente por fracassar tanto nas muitas tentativas de socialização e mudança de personalidade.

Nessas épocas passadas, sem saber da minha SA, eu tentava insistentemente mudar na marra meu jeito de ser, meus comportamentos. Tentava ser extrovertido, mais sociável e adepto de conversas em grupo, mais fazedor de amizades, ampliar de maneira não espontânea meus gostos, me adequar às expectativas sociais dos neurotípicos, aprender a olhar “normalmente” nos olhos das pessoas…

Mas essas tentativas nunca davam certo, o que sempre me trazia uma melancólica frustração. E também travava uma verdadeira guerra contra o meu passado, sentindo profunda vergonha e remorso de ter sido um adolescente e um jovem adulto tão imaturo para a idade.
Mas hoje essa vergonha foi enterrada e deu lugar ao pleno orgulho, já que me redescobri.

Enfim encontrei a razão, tão misteriosa até pouco tempo atrás, de ser desde sempre alguém tão diferente e fora da caixinha da “normalidade” neurotípica. Agora que eu a conheço, posso fazer as pazes com o passado e viver com cabeça mais erguida e peito mais aberto.

Tenho orgulho de mim mesmo por tudo que eu sou - minha superdotação, minha vantagem intelectual e linguística que me permite escrever bem blogs, colunas e livros e palestrar sem medo, minha elevada empatia, meu senso de humor excêntrico, até mesmo minhas dificuldades e limitações.

Sei que me falta ainda obter um diagnóstico clínico definitivo - que possivelmente demorará ainda, já que hoje é bastante difícil encontrar especialistas em Espectro Autista que não cobrem o olho da cara - e o laudo que me permitirá usufruir de meus direitos de pessoa neurodiversa - equivalentes aos da pessoa com deficiência. Isso poderá abrir muitas portas no mercado de trabalho, por meio de trabalhos que sejam inclusivos o suficiente para aspies.

Mas pelo menos tenho a segurança de que, por tudo que eu estudei em sites e blogs de outros aspies e de psiquiatria do autismo, posso me assumir aspie mesmo sem um diagnóstico formal e, assim, aderir com força à luta da neurodiversidade contra o preconceito capacitista e pelo asseguramento e respeito dos direitos dos neurodiversos.
Nesse contexto, deixo claro: todo aquele indivíduo “de esquerda” que expressar preconceito e desprezo contra autistas e aspies, que achar “bacana” comparar pessoas de direita mal-intencionadas ou ignorantes com autistas, que vier “receitar” medicamentos psiquiátricos para pessoas cuja “doença mental” é pensar diferente, será tratado por mim da mesma maneira que trato um reacionário de direita fanático. Ou seja, como um preconceituoso violador de Direitos Humanos, adepto de discursos de ódio, que merece ser responsabilizado por pregar intolerância e discriminação.

Considerações finais


Agora que me descobri autista leve, ou aspie, assumo desde já o compromisso de defender os direitos das pessoas neurodiversas - até por eu ser uma delas -, a libertação desta minoria política da ordem socioeconômica capitalista que nos marginaliza e inferioriza e o combate ao preconceito contra neurodiversos e pessoas com deficiência intelectual ou transtornos psiquiátricos dentro das esquerdas.

Sonho com um mundo em que pessoas como eu serão respeitadas plenamente do jeito que são, livres de todo o perigo de serem discriminadas e sofrerem bullying. Tenho esse sonho da mesma maneira que vislumbro um futuro de igualdade social, solidariedade, ética, sustentabilidade e também de libertação dos animais não humanos.

E farei questão de lutar com afinco, mais ainda do que já lutava, para que esse futuro chegue logo. Nenhum capacitista violador de Direitos Humanos irá parar esta luta.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Bem vindo ao novo blog Consciência Autista!



Bem vinda e bem vindo ao blog Consciência Autista, blog escrito por um autista que tem muita conscientização para trazer e compartilhar.

Estreou hoje, no fim da tarde de 9 de outubro de 2018, o Consciência Autista, com a missão de trazer para as pessoas - autistas, familiares, profissionais de saúde que atendem autistas e o público em geral que se interessa ou precisa se interessar no tema autismo.

Um pouco sobre mim

Eu sou Robson Fernando de Souza, nascido em 1987, autor do blog Veganagente e dos livros Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética e Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança. Até pouco tempo atrás eu tinha o Consciencia.blog.br, que tive que suspender por problemas de servidor.

Sou autista leve, ou aspie. Tenho aquela que é conhecida tradicionalmente como Síndrome de Asperger, hoje diagnosticada nas Neurociências como "Transtorno do Espectro Autista Nível 1" (DSM-5) ou "TEA sem transtorno de desenvolvimento intelectual e com pouco ou nenhum comprometimento da linguagem funcional" (CID-11).

Como aspie, eu já sofri muitas dificuldades de socialização - algo que sofro até hoje, vivendo um quase isolamento social -, constrangimentos e repreensões por comportamentos socialmente indesejados, decepções, bullying... E tenho excentricidades típicas de quem tem a Síndrome de Asperger.

Me descobri autista apenas em 2017, aos 30 anos de idade, e com a ajuda essencial da minha namorada. Antes disso, eu me achava um neurotípico e conhecia muito pouco sobre o mundo do autismo, apesar de viver todas as privações que autistas leves sem diagnóstico e sem terapia costumam viver. 

Essa autodescoberta, porém, ainda não é respaldada por um diagnóstico formal, já que é muito difícil obter-se um diagnóstico. E infelizmente tenho a sensação de que hoje os autistas adultos não têm direito ao diagnóstico, precisando pagar caro por sessões de consulta/análise neuropsicológica que não são cobertas por nenhum plano de saúde, nem pelo SUS.

Também sou superdotado, com uma enorme habilidade na escrita e nos estudos escolares e universitários. Mas infelizmente nunca estudei numa escola ou universidade adequada para crianças, adolescentes e adultos superdotados.

A missão do blog

O blog vem trazer uma importante conscientização para todas aquelas pessoas que precisam entender melhor o autismo e os autistas.

Quero que os autistas de hoje não passem mais pelas dificuldades e perrengues que eu passei e passo. Ou que, pelo menos, passem menos pelos problemas decorrentes do capacitismo e da exclusão social de pessoas com deficiência (autistas também são considerados pessoas com deficiência, incluindo autistas leves superdotados), e saibam enfrentá-las de maneira ativista.

Espero sinceramente que, com a ascensão do movimento da autodeterminação autista, cada vez mais pessoas se percebam necessitadas de aprender mais sobre o espectro autista. Afinal, muito provavelmente já convivem com autistas no seu dia-a-dia, talvez tenham um ou mais amigos autistas e não saibam - e nem mesmo esses autistas tenham consciência de sua própria condição.

Também quero muito contribuir para que aqueles autistas leves que não sabem possuir essa condição descubram-na o quanto antes, ou pelo menos tenham pistas importantes de que são pessoas realmente diferentes dos neurotípicos.

Desde já, agradeço a você que veio ao Consciência Autista aprender mais tanto sobre o autismo - incluindo a Síndrome de Asperger - quanto sobre como eu, enquanto indivíduo autista, lido com minha condição e como convivi com ela sem saber durante 30 anos da minha vida (hoje tenho 31). 

E espero que encontre, nos meus artigos e histórias de vida, inspiração para se autoafirmar um orgulhoso autista, ou familiar de autista, ou namorado(a) de autista, ou amigo(a) de autista.

Mais uma vez, bem-vindo(a)!