segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O “leve” de “autismo leve” não significa que autistas leves passam por problemas leves

Gigante carregando pedra, de Annibale Sessa
Muitas vezes o termo “autismo leve”, que hoje denomina formalmente a Síndrome de Asperger, leva as pessoas a terem uma concepção equivocada da magnitude das nossas dificuldades enquanto autistas leves.

Acabam pensando que nossas dificuldades são “leves” em comparação aos dos autistas de grau mais severo. Que temos uma história de vida menos sofrida.

Quero mostrar para você, neste artigo, que isso não é verdade. Nossos problemas são bem mais pesados do que a “brandeza” do nosso autismo pode deixar a entender.


Os problemas de vida que o termo “autismo leve” pode acabar ocultando


Apesar de termos menos necessidade de acompanhamento e auxílio de outras pessoas do que os autistas de grau 2 (moderado) e 3 (severo), temos dificuldades bastante proeminentes em nossas vidas.

Listo a seguir algumas delas:
  • Nossas possibilidades de arranjar um emprego duradouro - ainda mais numa época de flexibilização e retrocesso dos direitos trabalhistas como a atual - são muito mais reduzidas do que as dos neurotípicos, mesmo em momentos de crescimento econômico. Afinal, muitos de nós têm uma dificuldade extrema de se encaixar em trabalhos fora dos nossos hiperfocos e pessoas como eu têm o azar de ter hiperfoco em vocações que o mercado não valoriza ou estão em crise;
  • Tendemos a sofrer bullying e discriminação por simplesmente sermos quem somos e incidirmos em comportamentos que não são benquistos pelos neurotípicos;
  • Nossas dificuldades de comunicação, entre elas a de entender linguagem não verbal, figuras de linguagem e más intenções disfarçadas, limitam muito a nossa capacidade de nos relacionarmos com a maioria das pessoas e nos defendermos de pessoas de má índole;
  • Na nossa tentativa de nos relacionar com os neurotípicos, somos forçados a tentar ter uma precaução extrema em não incidir em comportamentos que eles considerem indesejáveis, algo comparável a desviar de espinhos e buracos num caminho totalmente escuro;
  • Muitas vezes acabamos forçados a tentar nos adaptar à sociedade neurotípica, emulando desengonçadamente os comportamentos dos neurotípicos e na maioria das vezes fracassando e sendo excluídos;
  • Nossa hipersensibilidade a estímulos sensoriais atrapalha muito a nossa vida. É comum um autista leve ter dificuldade de curtir um show de rock, desfrutar da comida em um restaurante onde o cheiro de carne assando é muito forte, prestar atenção numa reunião onde várias pessoas estão falando ao mesmo tempo, permanecer em muitos lugares onde os neurotípicos ficam à vontade etc. Não raro, o autista pode acabar tendo sérias crises nervosas, os meltdowns, por causa da sobrecarga sensorial;
  • A exclusão social à qual acabamos submetidos, a hostilidade que sofremos no dia-a-dia, as repreensões, os maus olhados alheios etc. não raro nos levam à depressão, ao transtorno de ansiedade, à síndrome do pânico, entre outros transtornos mentais, e ao isolamento social;
  • Nossa dificuldade de fazer e manter amizades pode nos condenar a uma vida de solidão, períodos prolongados de ausência de amigos próximos, decepções amorosas uma atrás da outra e pouco ou nenhum networking profissional.

Considerações finais


Fica claro que nossa vida é muito marcada pelos mais diversos sofrimentos, percalços e privações. Não é porque somos autistas leves que os problemas que temos em função desse tipo de autismo também são brandos.

Precisamos que as pessoas tenham consciência disso. O desconhecimento delas sobre os problemas pelos quais passamos acaba fazendo-as nos discriminar e agravar nosso sofrimento sem que percebam. Ou seja, induzindo-as a fazer de nós autistas leves de problemas severos.

31 comentários:

  1. Obgd pir este artigo, mudou completamente meu pensamento sobre o assunto, desejo sorte pra vc e serei um diferencial nas relações com pessoas ditas autistas leves.

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  2. Amei o artigo, meu filho tem autismo leve e as vezes é complicado, as pessoas olham e acham que ele não tem nada, ficam olhando com olhar de críticas.

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  3. Texto excelente! Tem muita clareza e realmente nos faz refletir sobre o tema. Parabéns!

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  4. Recentemente minha filha de 13 anos foi diagnosticada com autismo. Estou tentando ajudar ela a ter uma vida adulta onde ela possa superar as dificuldades e possa ser independente. Seu texto me ajudará muito. Obrigada!!!!

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  5. Acredito que além do tdah eu tenha autismo leve,belo texto e me identifiquei com quase tudo...

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    1. Tô ligado... Fico contente que tenha ajudado vc a se identificar com sua condição.

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  6. Robson, você mostra nesse texto as grandes dificuldades que o autista seja leve.moderado, grave, passa na sociedade onde vivemos. Mas todos os desafios não nos deixarao desistir de lutar por eles. bom

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  7. Robson, você mostra nesse texto as grandes dificuldades que o autista seja leve.moderado, grave, passa na sociedade onde vivemos. Mas todos os desafios não nos deixarao desistir de lutar por eles. bom

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  8. Excelente texto, recentemente defendi minha tese sobre a inclusão de autistas no mercado de trabalho.
    Tenho um filho autista e me preocupo com seu futuro, e este texto relata muito do que vivo com ele.

    Parabéns.

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  9. Obrigada por compartilhar sua vivência, Robson! Que seu relato ajude as pessoas a entenderem o autismo e saberem conviver com os autistas. Estamos investigando seu meu filho é autista. Bom 2019!

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  10. Me ajudou a compreender ainda mais meu filho. Obrigado.

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  11. Me faltam palavras pra agradecer pela clareza e ajuda advindas desse texto. Meu filho é autista leve. Tem dez anos. Obrigada. E obrigada. Vc me vestiu com a pele dele. Agradeço de coração, por isso.

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  12. Muito bom seu texto, Robson. Tenho um filho que tem essas características. Eu não havia pensado dessa forma até então. Muito esclarecedor. Parabéns!

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  13. Texto excelente...meu filho tem 14 anos e de grau leve...sempre pergunto para ele se ele no momento está feliz...sei que ele vive os momentos de felicidades...mas nunca sei se ele é feliz...nunca faltou amor por ele..ele é mais que uma pessoa especial para nós..um filho excelente carinhoso...minha vida

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  14. Robson...obrigada pelo texto...meu filho mAis velho é autista leve...tem 17 anos e está enfrentando exatamente o que vc descreveu...o seu texto ajudou muito.

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  15. Nossa é isso mesmo minha filha tem autismo leve, na escola as professoras acham que ela não precisa de acompanhamento nas atividades mais ela se irrita e as vezes não faz a tarefa.é muito bom o texto esclarece muita coisa.ótimas palavras.

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  16. Nossa é isso mesmo minha filha tem autismo leve, na escola as professoras acham que ela não precisa de acompanhamento nas atividades mais ela se irrita e as vezes não faz a tarefa.é muito bom o texto esclarece muita coisa.ótimas palavras.

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  17. Amei! Descobri no fim do ano passado que o meu filho tem autismo leve. Ele reclamou que ninguém quer ser amigo dele na escola mas eu achava que era coisa da cabeça dele . Essa coisa com cheiros fortes achei que ele era sensível por causa da asma. Foi mt esclarecedor. Obrigada!

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  18. Tenho um Príncipe dado por Deus que hoje tem 19 anos diagnosticado com Tea sim e muito difícil arrumar uma colocacao de emprego ele e super inteligente e se nao entender o porque da dificuldade da fala ninguem percebe ja concluiu o ensino medio agora vai fazer cursos mas e muito sofrido os falta de conhecimento das pessoas desse quadro o governo nao fala muito sobre isso

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  19. Adorei o texto, meu filho tbm é autista leve, está com 4 anos e as pessoas não entendem o medo e muitas vezes a falta do medo, das noções de perigo, por sempre estarmos junto sem deixa-ló sozinho muito tempo. Sempre temos que explicar e quase mostrar diagnóstico para provar.

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