quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Como o autismo dificulta minha inserção no mercado de trabalho



Meu caso infelizmente é de ser um desses milhões de autistas desempregados, que, por questões como hiperfoco desvalorizado pelo mercado e dificuldades de se adequar a trabalhos em empresas não inclusivas, não conseguem arranjar um emprego.

Poucos são aqueles que têm a sorte de ter um hiperfoco valorizado pelo mercado de trabalho, como os especializados em Ciência da Computação ou em Engenharia Civil, e serem contratados por empresas que adotam uma política de inclusão de talentos autistas.

Quero contar como não tive essa sorte e hoje estou lutando arduamente para conseguir um trabalho autônomo que rentabilize aquilo no que sou bom e com o que posso lidar plenamente.

Um pouco da minha atribulação universitária


Para começo de conversa, tive - e até o momento tenho - uma vida acadêmica um tanto instável, pela minha dificuldade de encontrar um hiperfoco profissionalizável.

Desisti de três cursos - Jornalismo, História e Bacharelado em Ciências Sociais -, tranquei duas vezes um curso antes de sair dele - Bacharelado em Ciências Sociais -, quase desisti dos dois nos quais me formei - Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Sociais - e fracassei em três seleções de mestrado, cada uma para um curso diferente.

Em Gestão Ambiental, eu me diplomei, mas acabei não me identificando com o curso. Diante desse fato, não fiz estágio, não me preparei para trabalhar como gestor ambiental.

Só me identifiquei ligeiramente com a Educação Ambiental, que correspondia a um dos módulos daquele curso. Mas não a ponto de se tornar um hiperfoco e um interesse profissional a ser almejado com afinco.

Cheguei a comprar dezenas de livros de meio ambiente, principalmente de Educação Ambiental, mas se li cinco deles ao longo dos últimos dez anos, li muito.

Só fui encontrar um hiperfoco profissionalmente aproveitável na licenciatura em Ciências Sociais. Só que é aí que começa uma história que mistura dificuldade de me adaptar às demandas externas - do mercado e do governo - com o azar de ter tido um hiperfoco do qual nem o mercado, nem os poderes políticos estabelecidos gostam.

Cheguei a entregar currículos em escolas em São Paulo - pretendo me mudar para lá quando for possível -, mas nenhuma aceitou.

Soube depois, num grupo do Facebook intitulado “Ciências Sociais e o mercado de trabalho”, que apenas escolas públicas contratam licenciados em CS/Sociologia - mediante concurso público ou seleção simplificada de temporários. Escolas privadas designam professores com outras formações, como História e Geografia, para ensinar Sociologia no ensino médio.

Também não encontrei nenhum curso à distância de CS para ser tutor de EAD, nem em universidades públicas.

A oportunidade restante que eu teria de ensinar seria em faculdades privadas, onde eu ensinaria Fundamentos de Sociologia em cursos diversos. Mas elas requerem que o postulante à vaga tenha pós-graduação - e como já falei, não consegui entrar no mestrado.

E para piorar, as perspectivas para licenciados em Ciências Sociais são sombrias para os próximos anos, com a futura posse de Bolsonaro na presidência.

A Sociologia correrá um enorme risco de desaparecer das grades curriculares do ensino médio, por causa da pressão dos defensores do famigerado Escola Sem Partido.

E nas poucas vagas que restarem, a tendência é os professores serem vigiados por seus próprios alunos, de modo que não poderão mais expressar livremente suas opiniões políticas, nem ensinar a teoria marxista, um dos pilares da Sociologia, nem falar de temas caros a essa disciplina, como questões de gênero e orientação sexual.

Com isso, eu posso dizer que meu diploma de licenciatura em Ciências Sociais, no contexto atual, não tem nenhum valor para o mercado.

Meus hiperfocos atuais - e minha enorme dificuldade de mudar de foco


Com isso, restaram, profissionalmente falando, aqueles dois hiperfocos pelos quais eu tento construir meu sustento hoje: veganismo e ativismo neurodiverso.

Atualmente eu tento ganhar dinheiro comercializando meus dois livros (Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética e Direitos Animais e veganismo: consciência com esperança), que não têm editora, em livrarias como o Clube de Autores, a Amazon e a Saraiva, e vendendo e-books, cursos e livros afiliados.

Só que, até o momento, o rendimento tem sido muito baixo - na média de poucas dezenas de reais por mês -, insuficiente para, por exemplo, pagar um curso bom de marketing digital e contratar serviços de design, ambos os quais impulsionariam minhas vendas.

Nem sequer consigo poupar e juntar essa mixaria, porque sempre aparece algum motivo para gastar, como a compra de meus remédios para a depressão e a Sìndrome de Tourette e a recarga de meu bilhete de ônibus e dos créditos do meu celular.

Diante disso, penso frequentemente que deveria tentar mudar meu hiperfoco para algo realmente aceito pelo mercado de trabalho - como, por exemplo, gestão de redes sociais de empresas ou trabalhos de design.

Só que essa tentativa de mudá-lo forçadamente tem rendido muito sofrimento. Desde o ano passado, tenho sofrido com uma depressão, atualmente controlada por medicamento antidepressivo e meditações diárias.

Afinal, não consigo aprender a gostar de nenhuma área profissional minimamente rentável, tenho que lidar com os ganhos ridiculamente baixos com meus livros e produtos afiliados e tenho visto meus sonhos serem sempre empurrados com a barriga por causa da falta de dinheiro e da quase inflexibilidade do meu hiperfoco.

Tenho procurado listas de nichos de mercado rentáveis, mas não consigo me inspirar em nenhum deles para trabalhar com marketing digital. Nenhum no qual pudesse investir tempo e conhecimento para, por exemplo, promover marketing de conteúdo.

E procurar um emprego lá fora?


A esta altura, alguém poderia me perguntar por que eu não procuro um emprego como vendedor, atendente de telemarketing ou promotor de eventos, para juntar dinheiro e fazer os investimentos que quero em marketing e design.

Eu até tive esse interesse no passado, mas minha vida trabalhando subordinado a empresas foi tudo menos bem-sucedida.

Para você ter uma ideia, a soma de todos os meus trabalhos remunerados sob uma empresa - sem contar a bolsa de iniciação à docência da UFPE - é de apenas oito meses em toda a minha vida.

Trabalhei como agente de pesquisa e mapeamento no IBGE e como redator numa agência de notícias. E nos dois casos eu acumulei traumas.

A incapacidade de perceber regras organizacionais não ditas, a dificuldade de manter o equilíbrio psicológico mediante pressão do chefe, o déficit de socialização com colegas de trabalho, o comportamento social considerado imaturo e inadequado pela empresa… Muitos fatores comumente sofridos por autistas leves me fizeram fracassar feio nas duas oportunidades. E o pior, sem sequer ter consciência do porquê de tudo aquilo acontecer.

Eu até poderia procurar um emprego temporário de vendedor, neste final de ano. Mas já concluí, ao passar por lojas do comércio recifense, que sofro sobrecarga sensorial em ambientes barulhentos e quentes, não consigo estabelecer uma boa relação com colegas de trabalho, teria sérias dificuldades de lidar com clientes como vendedor de loja, e meu déficit de linguagem não verbal me impede de me dar bem em entrevistas de trabalho.

Até poderia conseguir um trabalho adaptado para pessoas com deficiência. Mas precisaria de diagnóstico e laudo, algo que eu já falei aqui no blog que é um privilégio para poucos autistas adultos.

Conclusão


Essa é a minha atribulada história de tentativa de ganhar meu próprio dinheiro e me encaixar no mercado de trabalho. Uma história na qual, até o momento, não obtive sucesso.

Posso dizer que a maioria dos autistas adultos no Brasil passa por algo semelhante ao que eu tenho passado: muita dificuldade de se encaixar num curso universitário e num emprego, dificuldades de encontrar um trabalho apropriado sem um laudo de pessoa com deficiência, hiperfoco de difícil flexibilização que mais atrapalha do que ajuda a se inserir no mercado...

Minha luta para ter o meu próprio dinheiro continua, a muito custo e persistência. E infelizmente minha condição e as barreiras que a sociedade impõe a pessoas como eu têm me impedido de conseguir sucesso até o momento.

Espero, com este artigo, trazer para muitas pessoas a consciência que lhes falta sobre o quanto tem sido difícil para nós se encaixar nesse excludente mercado de trabalho.


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