sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Autismo não é doença. É diferença

"Autismo não é doença. É diferença", já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença
Hoje ainda é muito comum neurotípicos - e muitos autistas que desconhecem sua própria condição - verem o espectro autista como uma “doença”.

E baseados nessa visão, alguns neurocientistas tentam buscar uma forma de “curá-lo”. Afinal, se é uma doença, então pode e precisa ser curado.

É desafiando essa visão que eu deixo claro aqui, inclusive como autista: meu autismo não é uma doença! É uma condição que implica diferenças e necessidades especiais a serem respeitadas, aceitas e atendidas na sociedade.

Por que o autismo ainda é visto como uma “doença”


O autismo é uma condição neurológica que provê um cérebro diferente para o indivíduo, com propriedades - algumas delas positivas, outras negativas - que o distinguem do cérebro não autista.

Porém, esse cérebro diferente, justamente por causa do paradigma moral de se ver o diferente como “inferior” àquilo e àqueles que são considerados “normais” e se considerar pessoas com necessidades especiais “coitadas” e “incapazes”, não encontra uma boa receptividade na nossa sociedade.

Os comportamentos peculiares dos autistas ainda são muito malvistos. E os pontos negativos de ser autista são super-realçados em comparação com os positivos, uma vez que a sociedade está estruturada para não se adaptar a diferenças neurológicas como o autismo.

Nossa sociedade é feita para os neurotípicos. Autistas são tidos como forasteiros, obrigados a se adaptar - o que resulta, na maioria das vezes, em fracasso - ao que os neurotípicos acham que é “normal”.

Nesse contexto, o autismo ainda é visto como uma “doença”, algo que precisa ser “curado”. E os autistas, como pessoas “quebradas” que precisam ser “consertadas” e convertidas em neurotípicas.

Além disso, na tradição ocidental, cérebros sabidamente neurodiversos sempre foram vistos como “anormais” e “doentes”. Só agora é que isso está começando a mudar.

Por que o autismo não deve ser visto como uma doença, mas sim uma condição que implica diferença cerebral


O modelo social da deficiência deixa claro: o que é deficiente na deficiência não é a pessoa, nem sua condição, mas sim a sociedade como um todo, que lhe impõe barreiras e não está adaptada nem preparada para acolhê-la.

Diante disso, é a sociedade que precisa aceitar a diferença e se adaptar à diversidade, e não o sujeito diferente que precisa se forçar a tentar ser “normal” e se encaixar.

Nesse contexto, é preciso reconhecer: ser autista é apenas um jeito diferente de ser. Não implica problemas de saúde - apesar das eventuais condições coexistentes -, não é transmissível, não é algo que tem a natureza de ferir, causar sofrimento, incapacitar e matar.

Tratá-lo como uma doença implica necessariamente dizer que o nosso jeito de ser é uma aberração, um “erro” que precisa ser “consertado” e “curado”. Que nós somos “doentes” por sermos quem somos e termos nossas necessidades particulares e mesmo nossos pontos positivos que nos distinguem dos neurotípicos.

Conclusão


Portanto, o autismo deve ser encarado e tratado como aquilo que realmente é - não uma doença, mas sim uma diferença, como já dizia Benê da saudosa Malhação: Viva a Diferença.

A sociedade precisa se adaptar e nos acolher. Eventualmente precisamos de ajuda para conviver com os neurotípicos. E é para isso que lutamos no nosso dia-a-dia.

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