sábado, 3 de novembro de 2018

Por que o meme “O nível de autismo é de mais de oito mil” é muito capacitista

"Their autism level is over 9,000", versão em inglês do meme capacitista em questão
De vez em quando, um meme profundamente capacitista ressoa em fóruns e grupos virtuais de adolescentes e jovens adultos e em vídeos que pretendem ser de humor: “O nível de autismo é de mais de 8 mil” (ou, em inglês, “Their autism level is over 9,000”).

Se você o utiliza, saiba que ele é muito ofensivo para autistas e atribui à sua condição uma definição errada, pejorativa e injusta.

Saiba, neste artigo, por que eu sou totalmente contra o uso dessa frase como meme.

O capacitismo do meme do “nível de autismo”


Esse meme está presente em vídeos como esse e também em brincadeiras e trocas de insultos em grupos de jovens “zoeiros” na internet.

O “mais de oito mil” é uma referência ao meme de Vegeta, anti-herói e ex-vilão de Dragon Ball Z, que descobre o quanto o poder de Goku, o protagonista da franquia, é elevado.

Algumas pessoas adaptaram o meme, de modo que ele não mede mais o poder de luta de Goku, mas sim o “nível de autismo” de quem, por exemplo, argumenta a favor da crença na “Terra plana” ou fala algo profundamente estúpido.

Diante disso, eu gostaria de dizer que esse meme, a partir do momento em que o autismo entra no jogo, se torna capacitista e lança mão de um conceito totalmente errado dessa condição.

Ao contrário do que se fala nesse contexto, autismo não tem absolutamente nada a ver com falar coisas estúpidas e ser ignorante ou, segundo outra concepção capacitista, “retardado”.

O autismo envolve dificuldades de comunicação e compreensão de linguagem não verbal, hipersensibilidade a estímulos sensoriais, dificuldade e/ou desinteresse de socialização, dificuldade em entender regras sociais não verbalizadas, entre outros aspectos, que fazem da pessoa que o tem essencialmente uma pessoa com deficiência.

Nem sempre o autista tem o famigerado “retardo mental”, nem é um ignorante quadrado em temas como o formato do planeta Terra.

Aliás, pelo contrário, muitos autistas são superdotados, ou seja, pessoas com um nível de habilidades intelectuais muito elevado, e entendem de Astronomia mais do que 90% dos neurotípicos.

O problema é que mesmo esses autistas com intelecto privilegiado acabam sendo discriminados e socialmente excluídos porque, muitas vezes, seu comportamento não segue as normas sociais ocultas presentes no ambiente.

Ou seja, tendem a não se comportar como é de se esperar de jovens de sua idade. Por exemplo, um jovem autista de 20 anos pode se comportar como um menino de 14 anos em determinado ambiente, por não entender o padrão de comportamento dos jovens de sua idade e ter como referência comportamental seu próprio passado e pessoas mais novas.

Além disso, o autista pode ter um hiperfoco num assunto que não desperta o interesse da maioria dos neurotípicos, e tende a ter pouco interesse naquilo que é apreciado e falado em conversas pela maioria dos jovens.

Um exemplo disso é o autista que entende muito de Astronomia, tendo um conhecimento muito próximo de um pós-graduando nessa ciência, mas não se interessa em conversas sobre paquera, carros, futebol, hábitos de consumo, entre outros assuntos muito comuns entre pessoas de sua faixa etária.

Por isso infelizmente o autismo é muito confundido com “retardo mental”, “estupidez” ou “ignorância profunda”. Mal sabem as pessoas que fazem essa confusão que esse desconhecimento as faz fazer piada de uma deficiência - as dificuldades sociais e comunicacionais que os autistas costumam ter.

E fazer piada do autismo, com tiradas como “O nível de autismo é de mais de oito mil”, é comparável a fazer piada de um cadeirante porque ele não pode andar sem o auxílio de uma cadeira de rodas, de um cego por não poder enxergar ou de uma pessoa (não autista) com deficiência intelectual em função de sua condição. É capacitismo.

Conclusão


Agora eu espero que você compreenda por que é antiético e preconceituoso usar piadinhas como “O nível de autismo é de mais de oito mil” e se referir ao autismo como “retardo”, "estupidez" ou “ignorância absurda”.

Se a pessoa é ignorante sobre determinado assunto a ponto de achar que sabe tudo de algo que não conhece verdadeiramente, aborde a ignorância dela no debate. Não a confunda como um autista, que definitivamente não é uma pessoa ignorante nos assuntos que lhe interessam.

Respeite os autistas. Evite fazer troça de deficiências, sejam elas visíveis ou invisíveis.

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